Quinta, 30 Junho 2016 13:12

Doce de Ambrosia

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Escuta aqui, meu companheiro,
preciso contar uma história
de amor, desejo, ciúme e prazer
acontecida prá lá de Juazeiro...
E o que a roda do destino fez acontecer
A cidade era pequena, com poucos atrativos
O pessoal vivia da venda do coco
E dos peixes, que do pequeno rio, eram nativos
E, embora pouco, restava sempre algum troco
Carmosina e José, João e Maria
Cheios de sonhos, de vontade de viver
Amavam sua terra e pouca coisa havia
Que tivessem vontade de ter
Seus pais estavam sempre na lida
Os homens na venda do coco e da pescaria
As mulheres no trato das crianças e da comida
E se enfeitando quando tinha romaria
E quando tinha romaria, a cidade coloria
A procissão, as velas, o andor
Os vestidos domingueiros, cada qual de uma cor
Enfeitavam as mocinhas que, em sua cantoria,
Pediam aos santos a graça de um amor.
Depois da festa, voltava a monotonia
E acontecia, vez ou outra, um ou outro nascimento
E acontecia, vez ou outra, um ou outro casamento
Carmosina e José, João e Maria,
Cheios de sonhos, de vontade de viver
Não desgrudavam um do outro e, se nada acontecia,
Inventavam alguma coisa para ter o que fazer
Mas aí, meu companheiro, o tempo foi passando
E o tempo foi passando, e o tempo corria,
Já não eram mais crianças,
Os banhos de rio eram mais comportados
Já não eram como antes, somente havia lembranças
De quando mergulhavam, os corpos entrelaçados
Carmosina e Maria desabrocharam qual flor
Cinturinhas finas, seios empinados, cadeiras generosas
Pernas longas, bocas cheirando a frescor
Acariciavam seus corpos com mãos carinhosas
João e José já não davam em suas roupas
Mas, além de suas roupas, que eram poucas
Seus desejos, que eram muitos, explodiam
E em seus corpos não cabiam
Quando encontravam Carmosina e Maria
Queriam beijar suas bocas com gosto de ambrosia
O doce que sempre comiam, o doce que a avó fazia
Queriam sentir em suas mãos seus seios empinados
Forçando os tecidos finos, os mamilos apontados
Mas nada acontecia
Mas nada acontecia
Como eram moças feitas
Não ficavam mais sozinhas
Passeavam na pracinha, satisfeitas
Na companhia das vizinhas
Despertando nos rapazes
Seus desejos incontidos
Seus instintos mais vorazes
As vezes se encontravam na casa de um deles
Comiam canjica,tapioca ou milho cozido,
Mas a fome que havia neles
Nunca era saciada, o corpo ficava doído.
O pai de João, volta e meia, convidava
Gostava de ver as meninas e enquanto eles comiam
Seus olhos devoravam tudo que não se mostrava
Tudo que eles mais queriam
E assim a vida corria
E assim a vida corria
João e Maria começaram a namorar
Do jeito que os pais permitiam,
mas não o que seus corpos pediam
e queriam saciar
Carmosina e Maria, como sempre muito amigas
E driblando as intrigas
Muitas vezes dormiam na casa uma da outra
E passavam a noite inteira contando sobre anseios
Sobre carinhos quase trocados
Sobre os beijos quase beijados,
Sobre os corpos quase tocados
Sobre todos seus receios
Carmosina e José tentavam se acertar
Mas também com eles, nada era permitido
E assim, meu companheiro, seguiam os quatro
se alegrando em algum momento
Se um simples roçar de dedos,
Uma carícia rápida nas faces
Venciam todos os medos
Maria também dormia na casa de João
Para ajudar sua mãe doente a poder fazer o pão
E, então, o diabo, provocou a tentação,
Em todas as madrugadas, em que isso acontecia,
O pai entrava na alcova, chegava perto da cama
e olhava a moça dormindo,
seu desejo consumindo,
seu corpo todo tremendo
e a mão se estendendo
acariciava o corpo da moça até onde apetecia
Até onde apetecia
E ela dormia,
Quando Carmosina e Maria voltavam a se encontrar
Maria contava para a amiga porque fingia dormir
Mostrava no corpo da moça as carícias que o pai fazia
Transformando-a em mulher
E o prazer que ela sentia
Carmosina, então, passou também a sentir
Mas uma noite, João acordou e viu novamente
o que seu pai fazia já a um certo tempo
Estava cego de ciúme, a raiva estourando no peito,
Porque seu pai se permitia fazer
O que era para ele, de direito
Pela manhã chamou o pai e foram pro mato caçar
E desde esse dia, companheiro, a história que o povo contava
Dizia que o pai resolvera no rio se banhar
Mas, de repente, um mal súbito, o fizera se afogar
Maria, desgostosa, acabou seu namoro com João
As noites com Carmosina eram sua consolação
E chegou o dia do casamento de José e Carmosina
Ia tudo se acertando lentamente
Carmosina retardando os movimentos
Pra não chegar aos finalmente
Então José teve que viajar
Pediu a Maria que ficasse com a amiga
até ele voltar
Era longa sua viagem e não queria deixá-la sozinha
E foram dias e noites de puro delírio e prazer
Descobrindo em seus corpos o que o desejo pode fazer
Carmosina e Maria estavam apaixonadas
e não queriam mais viver separadas
Assim que José regressou
Carmosina pediu a separação
Alegando falta de amor
José pediu um tempo para tudo se acertar
O povo , companheiro, notava o empenho do marido
Em agradar sua mulher
E era isso que José queria
Que a cidade toda soubesse
O que pela esposa fazia
Cobrindo a esposa de presentes,
Colhendo flores para a casa enfeitar
Mas Carmosina continuava fria,
nada iria mudar
nada iria mudar
José resolveu fazer um jantar
E convidou João e Maria, seus velhos amigos de infância
E tudo estava caprichado, a toalha, os pratos, a comida
E até a sobremesa, o doce de ambrosia
Que fez questão de ele mesmo
Servir para as meninas.
Tropeçou e o prato escorregou de sua mão
e espatifou-se no chão em vários cacos de louças
E João, ficou sem sobremesa...
As moças quase que imediatamente
Começaram a passar mal
Dores no abdome, cólicas infernais
E em seguida, vômitos incontroláveis
Quando o socorro chegou já era tarde demais
Os dois corpos jaziam inertes
na mesma cama de casal
João e José sempre desconfiaram do caso das moças
João, quando Maria não acordava com as carícias do pai
Ele já vinha observando há algum tempo
José, quando recebeu uma Carmosina já pronta para os jogos do amor
Eles sabiam das noites que passavam juntas
Mas José tinha esperança de que o seu amor fosse maior
No cemitério, terminado o enterro, os olhares de ambos se encontraram ...

E, escuta agora, companheiro,
O final dessa história
jamais ninguém saberia,
nem desconfiaria,
Que a vingança tem... um sabor doce de ambrosia

Lido 526 vezes Última modificação em Quinta, 30 Junho 2016 13:28
Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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