Segunda, 04 Julho 2016 22:16

Botas

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Sentei-me trêmula. Qualquer coisa escorria pelo meu rosto, mas eu não conseguia ver. Pensei estar cega. Não, não pode ser. É apenas um sonho ruim. Meu corpo era uma dor só! Mas tentava teimosamente entender. O que fazia eu ali, amarrada?

Lembrei. Andava na calçada, parei na esquina. Fui puxada para dentro de um carro. Um grito. Um saco fedido na cabeça. Palavrões. Uma pancada forte na minha cabeça. Acho que desmaiei depois disso. Devem ter-me jogado em algum catre sujo.

Acordei com palavras ásperas, cortantes: Em pé, vamos, ande! Como eu andei, não sei. Não sentia minhas pernas, acho que fui arrastada. Também não conseguia enxergar nada, o danado do saco continuava lá.

Agora sentada, aguardava o que viria ainda. As mãos amarradas, os braços formigando de câimbras. Só podem ter-me confundido com outra pessoa. Rezei. Vão ver logo o engano. Nem terminei a oração. Ouvi, assustada, o ruído de botas. O coração disparou. Botas me apavoravam.

Eu, menina, escondida embaixo da cama, olhando botas arrastando as pernas de meu pai não sei para onde. Só sei que nunca mais o vi. Não me recordo mais quanto tempo fiquei ali embaixo, quase sem respirar, esperando que os ruídos da casa terminassem e as botas fossem embora. Junto com a noite, uma escuridão e um silêncio aterrorizantes.

Onde estaria minha mãe? Foi quando vi sua mão me puxando para fora da cama, seus lábios pedindo silêncio. Estava com uma mala pequena e um saco nas costas. Tentava se comunicar comigo na base de sinais. Descemos a escada maciamente, como gatos. Na cozinha ela fez uns sanduiches com o que tinha na despensa, colocou tudo no saco e me deu um pedaço de queijo. Isso tudo não durou mais do que dez minutos. Depois ela abriu a porta que dava para o quintal, fechou-a atrás de si e olhou longamente para a casa, num adeus mais eloquente que palavras. Até hoje me lembro de seu rosto triste, molhado de lágrimas silenciosas. Até hoje me lembro que me abraçou bem apertado, dizendo bem baixinho:coragem, minha menina, vai passar...

Arrancaram o saco de minha cabeça. Nem cheguei a levantar a cabeça para não ver a cara do homem de uniforme à minha frente. Olhar aquelas botas fez o medo tomar conta de mim de uma maneira avassaladora. Não ouvia o que diziam.
Não senti o que faziam. O mundo ficou sem som, sem cor. Eu só conseguia ver botas, enormes, aterradoras. Fui totalmente sugada pelo medo. Era tanto que parecia que eu não tinha mais corpo, nem mente. Nem dor, nem lembranças. Só medo, imenso, me enrodilhando como cobra quando pega bezerro, até matá-lo de vez por asfixia.

E o homem de botas cortou o silêncio como se o fizesse com uma lâmina:

— Quem é essa aí?...

Lido 329 vezes Última modificação em Segunda, 04 Julho 2016 23:59
Suzana da Cunha Lima

Suzana sempre gostou de ler e escrever, desde menina. Mas foi apenas depois do 63 anos que se dedicou à literatura de maneira mais sistemática, visando a publicar seus escritos. O primeiro romance VIRANDO PÁGINAS, em 2008 e depois seguiram-se dois livros de contos: O AMIGO IMAGINÁRIO E SEMPRE VINTE ANOS. Um livro infantil: FADAS EXISTEM?colaboração com 10 contos em duas antologias: ÂNCORAS E O SEGREDO DE CADA UM. Este ano está preparando um livro policial.
Mora em São Paulo, tem três filhos e sete netos e uma família amorosa e unida, grande parte no Rio de Janeiro. Tem uma vida ativa e interessante, gosta de cinema e teatro e atualmente responde pela direção do Departamento Cultural do Clube Alto dos Pinheiros.

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