Sexta, 08 Julho 2016 12:22

Em nome do pai

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Reginaldo era um rapaz alegre, de bem com a vida, trabalhava e gostava de sua profissão. Era preposto da Bolsa de Valores, naquele tempo que era aquela loucura, aquela gritaria, “comprado”, “vendido”...e ele precisava de fôlego...e fôlego era seu problema. A asma não lhe dava sossego. O jeito era apelar para a cortisona. E o fôlego aparecia.

Era casado e tinha dois filhos. Filho único, continuou a morar com os pais depois do casamento. Gostava muito de receber e tinha mania de comida. Muita comida. Ás vezes, lá pela meia noite, recebendo amigos, que levavam os filhos que eram mais ou menos das mesmas idades do que os seus, falava com a mulher Aninha, “Nega, vamos comer siri?” e lá ia ela para a cozinha colocar aqueles siris todos vivos no caldeirão de água fervendo. Depois de cozidos, tinha a santa paciência de com um palito tirar a carne das pernas dos bichos e colocar na boca do amigo.

E era papo rolando, risos soltos, as crianças se distraindo entre elas, siri pra lá, siri pra cá, e ele inventava de fritar batatas, muita cerveja ou uísque, refrigerantes e, no final, sempre aparecia uma sobremesa. Era tudo muito alegre, as pessoas se gostavam, dava pra sentir.

A mulher Aninha, parecia que tinha sido encomendada pra ele. Super companheira, concordava com todas as ideias. Sempre feliz. E recebiam os inúmeros amigos da mesma maneira. Muita comida, bebida e alegria.

Reginaldo gostava de contar sobre uma peculiaridade da família. Desde seu bisavô, todos os homens nasciam com uma pequena marca nas costas que parecia a figura de um passarinho. E ele gostava de mostrar. Parecia realmente a figura de um passarinho. Seu bisavô havia tido uma prole numerosa e uma descendência também grande, mas o avô de Reginaldo por um motivo perdido no tempo havia brigado com o pai e, por conta disso, cortaram relações e, como moravam em cidades diferentes, nunca mais se viram.

Em certa época, o casamento dos pais estava indo de mal a pior. Queriam muito um filho, mas sua mãe Dalva não conseguia engravidar e ela foi se tornando uma mulher amarga, triste e deprimida. Só saia de casa para ir a missa aos domingos. Waldir, apesar de tudo, não havia desistido de seu casamento e vez ou outra insistia em ter relações com sua mulher, porque queriam muito ter um filho. E resolveu procurar um médico para fazer exames e ver se havia alguma coisa errada com ele.

Nos últimos tempos, ela estava até melhor de sua tristeza. Contou que havia feito amizade com uma moça que assistia sempre a mesma missa do que ela e umas duas ou três vezes haviam saído juntas. Tinha se mudado há pouco, morava em outra cidade e não conhecia quase ninguém. Contou também que numa dessas vezes, conheceu o irmão dela e achou esquisito que, como ele estava de camiseta regata, viu que ele também tinha a marca do passarinho. Era capaz de ser descendente daquele parente que estavam brigados. E mesmo quando ele passou também a ir à missa e passaram a ter mais intimidade, ela ficou sem graça de perguntar...

Até que, passado algum tempo, Dalva chegou em casa feliz da vida.

-Waldir, Waldir, onde você está? Ainda não estou acreditando, Waldir, estou grávida de 5 semanas...!

E a partir daí, ela voltou a ser aquela moça adorável de quando haviam se casado, remoçou, ficou até mais bonita.. Então, depois de alguns meses, finalmente nasceu Reginaldo, um belo garoto, forte, saudável e com a marca do passarinho nas costas...

Os anos foram passando, tudo correndo normalmente. Reginaldo era a paixão do pai e eram também muito amigos. Aquele Natal, ele iria passar em Friburgo. Havia alugado uma casa e sua mulher e os filhos já estavam há uma semana lá. Sua cunhada e uma amiga iriam com ele. Seus pais iriam para a ceia do Ano Novo.

Já haviam saído para a estrada há uma hora, quando o telefone tocou.

-Waldir, atende o telefone. Estou lavando a louça. Deve ser engano, ainda não deu tempo para Reginaldo chegar em Friburgo.

A contragosto, foi atender...Custou a entender o que estavam lhe dizendo...”...um carro na contramão bateu no carro de seu filho... as moças tiveram ferimentos leves, já foram medicadas e pediram para avisar ao senhor para vir porque seu filho está muito mal e deve ser transferido para um hospital maior...”

Comunicou o que havia acontecido à mulher e foi para o hospital para onde tinham transferido Reginaldo. Soube que o motorista da Kombi tinha perdido a direção quando seu pai, que estava no banco de trás, passou mal e se agarrou ao filho. Atravessou a pista e, na contramão, bateu no carro de Reginaldo, de frente para o motorista. Seu filho estava completamente deformado, irreconhecível. Foi identificado pela marca do passarinho.

Faleceu uma semana depois, no dia 31 de dezembro. Suas fraturas não consolidaram, seus ossos estavam porosos por causa da cortisona, usada e abusada.

Quinze dias depois, Waldir começou a arrumar a pasta dos documentos do filho para entregar à nora.

No meio de toda a papelada, encontrou o envelope da Clínica onde havia feito os exames para saber se havia algo de errado com ele, há mais de trinta anos passados e que não chegara a abrir, porque chegou no mesmo dia em que Dalva comunicara que estava grávida. E, feliz com a notícia de que iria finalmente ser pai, ele acabara esquecendo.

Antes de rasgar para jogar fora, ficou curioso e resolveu abrir para ver o resultado dos vários exames que havia feito naquela ocasião.

Chamou a mulher, entregou o envelope e mandou que lesse o que estava escrito.

O diagnóstico estava ali, claro e direto, não deixando nenhuma dúvida. Nascera com um problema congênito que o impossibilitava de ser pai.

Waldir era estéril.

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Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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