Sexta, 22 Julho 2016 14:51

O Sétimo Distrito

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Era uma noite escura, sem lua. Fria. A iluminação na rua, além de precária, estava encoberta pelas árvores frondosas que miraculosamente tinham sido preservadas da sanha abate-árvores do prefeito anterior. Talvez porque fosse uma rua curta, sem saída, quase uma vila.

Helga dormia bem enrolada em seu edredon. Viúva há alguns anos, acostumara-se a morar sozinha, conhecia todos os ruídos da casa e da vizinhança. Os dois filhos, já casados, moravam em outros bairros.

Foi quando uma estridente campainha a acordou. Não imediatamente, precisou tocar várias vezes, parar de tocar e recomeçar outra vez para Helga perceber que não era sonho. Virou a cabeça olhando quase automaticamente para o relógio. Três horas da manhã! Quem ou o quê podia ser? Seus pés procuraram os chinelos e ela, afinal, se levantou. Não acendeu a luz, nem fez ruído algum. Tentou olhar pela fresta da veneziana, de onde podia se enxergar a rua inteira porque seu quarto ficava na frente. Não viu nada de diferente. Estava muito escuro e o vento fazia as folhas gemerem, lembrando o ruído de pés descalços em chão de terra.

A campainha tocou outra vez. Só aí que ela percebeu que era telefone e não a campainha da casa; aí acordou um pouco assustada. Quem seria? Resolveu verificar primeiro no identificador de chamadas do telefone do hall. Desceu a escada maciamente, como um gato, se esgueirando pelas paredes. Esperou ele tocar outra vez, pensando se havia algum padrão nos toques. Não conhecia aquele número, mas pelo prefixo, era do bairro. Seis toques e parou. – desligaram - pensou ela, pois o telefone estava programado para tocar pelo menos umas vinte vezes. Agachada, foi verificar se as portas e janelas estavam bem trancadas. Estavam exatamente como ela tinha deixado antes de dormir. A casa era bem protegida. E ainda havia segurança 24 horas na rua.

O telefone tocou outra vez. No quinto toque resolveu atender, com o celular na mão, caso precisasse chamar a polícia ou alguém. Só retirou o telefone do gancho. Uma voz de outro lado perguntou:

- Com quem falo?

- Diga o que quer logo – respondeu ela rispidamente.

- É da delegacia de polícia. Sétimo Distrito. Estou com seu filho aqui. Foi pego passando drogas.

- Filho? Qual o nome dele? – ela estava cada vez mais desconfiada, principalmente porque seus filhos eram homens sérios, casados e responsáveis. Drogas? Se for um trote, era de muito mau gosto, pensou.

- Não posso dizer senhora. É menor de idade e deu seu telefone para que viesse buscá-lo.

- Não tenho nada com isso. Favor não telefonar mais. – desligou o telefone e pensou: è uma história inventada para que eu saia de casa ou, ao contrário, para ter certeza que estou em casa. Mas quem está telefonando já deve saber que meus filhos são maiores e não moram aqui. Qual o fim disso tudo? O que tenho em casa não justifica um assalto, de jeito nenhum. Não tenho joias nem moedas estrangeiras, nenhuma prataria e coisas do tipo. E o carro que está estacionado em frente nem meu é. Alugo a vaga para o vizinho. – ficou matutando um pouco.- Acho que ando vendo muitas séries de televisão de investigação criminal, mas não vou deixar isso assim. Não houve engano do número de telefone, é meu mesmo. Então resolveu ligar para O Sétimo Distrito.

- Vamos ver se confirmam esta história – estava falando sozinha, como fazem geralmente as pessoas que vivem sós. Como não achava o telefone dos distritos policiais, resolveu ligar para o do Corpo de Bombeiros, que estava à mão.

-Alô, Corpo de Bombeiros, às suas ordens.

- Por favor, preciso de uma orientação. Recebi um telefonema estranho do Sétimo Distrito Policial, dizendo que...

- Senhora, não existe Sétimo Distrito – responderam.

- Então, vocês precisam me ajudar. Quem me telefonou foi do Sétimo Distrito. Disseram que meu filho está lá, por posse de drogas.

- Senhora, já disse que não existe o Sétimo Distrito. Por que não liga para a Central de Polícia? Nós aqui fazemos salvamentos, lidamos com outro tipo de emergência. Vou lhe passar o número.

Helga anotou e resolveu ligar. Embora fosse tranquila por natureza, estava começando a se preocupar seriamente com sua segurança. A única certeza que tinha era de que não ia sair de casa de jeito nenhum, ainda mais para um Distritoque nem existia.

- Central de Polícia, às suas ordens!

- Moço, me escute sem desligar, por favor. Recebi um telefonema – e aí Helga contou a história toda.

- Senhora, realmente não existe o Sétimo Distrito, portanto, só pode ser trote de quem não tem o que fazer. A esta hora, só saímos do Posto em emergências reais. Tem alguém rondando sua casa?

- Não, mas ....

- Forçaram a fechadura de casa, pularam para alguma varanda que a senhora tenha por aí, estão lhe ameaçando de alguma maneira?

- Não senhor. Mas não é estranho me ligarem a essa hora com esta história sem pé nem cabeça?

- Nós ouvimos muita coisa estranha por aqui, senhora. Veja se casa está toda fechada e trancada e vá dormir em paz. Em tempo de férias, tem muito trote correndo solto por aí.

Helga não se conformou. Resolveu então ligar para o dono do carro, seu vizinho, Doutor Pontes. Pode ser que pensem que este BMW seja meu, e acharem que sou rica.

Incrível como pareça, Doutor Pontes não estava dormindo. Atendeu-a friamente, porém com educação.

- Que história é essa que está me contando, d.Helga? A senhora acha que pensam que é rica e querem lhe assaltar só porque meu carro está estacionado aí?

- E que outra coisa devo pensar, Doutor Pontes? Não tenho filho menor e o Sétimo não existe. E estão telefonando no meu número de telefone muitas vezes. Bom, eu não pretendo sair de casa e não me responsabilizo pelo que possa ocorrer com seu carro. Estou lhe avisando que a história toda é para se preocupar.

- Agradeço, d.Helga, mas tudo isso está me parecendo trote. Tranque tudo e fique em casa. Amanhã conversaremos melhor. Não ligue mais, sofro de insônia e estava quase dormindo. Uma boa noite para a senhora.

Helga ficou sem saber o que pensar, mas não queria se indispor com o Doutor Pontes, pois o dinheirinho do aluguel da vaga lhe faria falta.

Resolveu espiar outra vez para o lugar onde o BMW estava estacionado, escondida na fresta da janela, com tudo apagado. Minutos depois, ela viu Doutor Pontes se aproximar do carro sorrateiramente, enfiar a mão no banco de trás e retirar um saco grande de lá. Esgueirou-se pelas paredes da casa até entrar na sua, o que fez rápida e silenciosamente.

Ninguém tocou mais o telefone. Helga esperou uma meia hora. E nada... Resolveu ligar para o número que tinha ficado registrado no seu bina, com muito medo. O que ela iria dizer? Tocou muitas vezes e o bina registrou telefone público. Telefone Público! Claro, imagine se os marginais, do outro lado, iam deixar rastros de telefone...

Então, é um trote muito malfeito – ficou matutando – Não sei o que pensar. Mas o que o Doutor.Pontes foi pegar no carro dele? Isso é um caso para polícia e é para lá que vou ligar. Desta vez a polícia prestou bastante atenção o que ela lhe contou.

- Senhora, peço que não faça nada, fique quieta em casa e certifique-se de que está tudo bem fechado. Estaremos ai em poucos minutos – pediu delicadamente o sargento que atendeu o telefonema.

- Ora, ora, alguém acreditou na minha história – refletiu Helga satisfeita – foi para seu posto de observação, junto à janela do quarto. Depois de quinze minutos resolveu voltar para a cama e dormir. Foi quando percebeu uns vultos furtivos, de escuro, entrando na pequena vila. Ficou excitada, olhando pela fresta, esperando o que ia acontecer.

Não vieram em sua direção, mas para a casa do Doutor Pontes. Eram uns cinco ou seis homens de negro. Será a ROTA? Ou o BOPE? Eles tocaram a campainha. Entraram no pequeno jardim, à frente, e uns dois escalaram o muro e esperaram ordem para entrar pela janela do quarto. Foi tudo muito rápido. Enquanto doutor Pontes, furioso, atendia à campainha da porta, os outros entraram no quarto. Saíram de lá com um saco grande.

- Há outros sacos desses, escondidos no quarto – informou o Sargento para o Tenente que conduzia a investigação. Num segundo, doutor Pontes estava algemado e enfiado dentro do camburão da polícia, que zarpou dali com a maior rapidez. Depois o Sargento foi à casa dela e tocou a campainha olhando para cima, porque tinha percebido que ela estava espiando pela janela.

- Dona Helga, só temos que agradecer e muito à senhora.

- Ora, Sargento, não fiz mais do que minha obrigação. Uma história muito esquisita, não acha?

- Realmente, mas a senhora se comportou como uma cidadã responsável. Estávamos na busca desta gangue há muito tempo. Não sabíamos onde eles escondiam a droga. Bem inteligente isso de guardar dentro de um carro de luxo e na garagem de outra pessoa...

- Entre um pouquinho, Sargento, vou passar um café e aí o senhor me conta isso tudo. Vejo muito séries policiais, “.Law and Order”, o senhor conhece? Ontem foi a história daquela moça que aparece morta, perto do telefone, estrangulada com o fio, imagine...

- Bom, o cafezinho eu aceito, mas não costumo ver televisão de noite, sempre estou trabalhando.

Helga passou o café, deu uma xícara para o Sargento e falou enquanto mexia o açúcar na sua. - Eu estou curiosa a respeito de uma coisa. Quem afinal estava telefonando tanto para mim e o que queria saber?

O Sargento riu um pouco, e saboreou o café lentamente.

- Nós, lá do Distrito, telefone frio. Queríamos ter certeza que a senhora estaria em casa. Não se pode entrar na casa dos outros assim, sem um mandado. E a senhora facilitou muito, observando os movimentos suspeitos do seu vizinho. Afinal, nossa missão é defender o cidadão destas armadilhas, não é? Mas deu tudo certo, afinal. Excelente, seu café.

Helga olhou para o Sargento, alto e quase gordo, cabelos grisalhando e se animou.

- Pois quando estiver por estas bandas, apareça aqui. Afinal, já sabe meu telefone, não é?

Lido 377 vezes Última modificação em Sexta, 22 Julho 2016 16:18
Suzana da Cunha Lima

Suzana sempre gostou de ler e escrever, desde menina. Mas foi apenas depois do 63 anos que se dedicou à literatura de maneira mais sistemática, visando a publicar seus escritos. O primeiro romance VIRANDO PÁGINAS, em 2008 e depois seguiram-se dois livros de contos: O AMIGO IMAGINÁRIO E SEMPRE VINTE ANOS. Um livro infantil: FADAS EXISTEM?colaboração com 10 contos em duas antologias: ÂNCORAS E O SEGREDO DE CADA UM. Este ano está preparando um livro policial.
Mora em São Paulo, tem três filhos e sete netos e uma família amorosa e unida, grande parte no Rio de Janeiro. Tem uma vida ativa e interessante, gosta de cinema e teatro e atualmente responde pela direção do Departamento Cultural do Clube Alto dos Pinheiros.

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1 Comentário

  • Link do comentário Christina Mariz de Lyra Caravello Sábado, 13 Agosto 2016 12:38 postado por Christina Mariz de Lyra Caravello

    Gostei demais deste seu conto...
    Você sabe criar um suspense...
    Sua escrita é rica...seu vocabulário também
    E usa adequadamente os diálogos...
    Enfim, é uma escritora nata.
    Parabéns!

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