Terça, 26 Julho 2016 13:12

O Piano

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Sempre tive muitos amigos,sempre gostei de receber em minha casa e sempre gostei de ter minha família compartilhando da minha vida e das minhas inúmeras atividades.

Mas, com o passar do tempo, por vários motivos, os amigos já não podiam estar tão presentes e meus filhos e netos, pouco a pouco, por conta de compromissos profissionais ou matrimoniais foram mudando para lugares mais distantes.

Problemas e dificuldades na rotina do dia-a-dia, deixaram de favorecer o exercício de tantas coisas prazerosas. E, por causa de toda essa conjuntura, minha vida foi ficando vazia. De pessoas, de objetivos, de perspectivas.

Não sou doente, nem preciso de cuidados especiais, mas resolvi vir para este local porque aqui vai ser melhor para mim, vou ter companhias novas e vou poder fazer coisas diferentes.

Da mesma maneira que nos falaram há tantos anos atrás, quando fomos mandadas, minha irmã e eu, para um outro local, um internato.

Não sei porque, mas este de agora me faz lembrar daquele outro.

***

Meu Deus, como tudo era grande! E limpo! (a que horas limpavam, se a gente nunca via nada?) A escada branca era só para as Irmãs usarem. Nós, alunas, sempre em filas, parecíamos uma grande cobra ondulando pelos enormes corredores e escadas vermelhas, ora parando aqui, ora parando lá. Nessas ocasiões, a cobra se transformava em várias formas humanas que quietas, obedientes e disciplinadas se ocupavam das tarefas do momento. Em silêncio. Silêncio era fundamental.

Como senti medo, no primeiro dia, que o barulho de meu coração descompassado pudesse ser ouvido! Eu era tão pequena, nove anos apenas... Tão pequena que não sabia trançar meus cabelos sozinha. Tão pequena que não sabia esticar, sem nenhuma ruguinha, as roupas de minha cama: meu enxoval do colégio interno. Peças e peças de cretone e percal mandados por uma tia rica do Norte para ajudar minha mãe, viúva recente, a enviar duas de suas filhas para o internato. “Mamãe vai ter que trabalhar e a vovó não agüenta cuidar de vocês cinco. Vai ser bom. Vocês vão aprender muitas coisas bonitas, vão ter muitas amiguinhas novas...” E as peças de tecidos iam se transformando em lençóis, fronhas, calcinhas, combinações, camisolas. Tudo branco. Só um pequenino retângulo com números vermelhos costurado nas peças, personalizava todo nosso enxoval: 93 o meu número e 98 o de minha irmã.

E lá estava eu, naquele primeiro dia, olhando os lençóis empilhados no colchão de crina, à espera de serem arrumados corretamente. A Irmã do dormitório me ajudou e depois trançou meus cabelos. Foi a primeira de muitas coisas que aprendi nos cinco anos que fiquei interna. Não era propriamente bonita, mas essencial. Como essencial era não ficar lembrando de casa para não chorar. Chorar querendo meu beliche para dormir, meus brinquedos para brincar, sentar à mesa com minha mãe, minha avó e meus irmãos e não naquele refeitório grande, cheio de mesas, onde o único barulho, depois da reza, era o dos talheres. Chorar porque eu não tinha mais pai e todas as outras tinham. E eu me lembrava dele, do orgulho que tinha da prole. “Vê lá, seu cabra da peste, não vá beijar as meninas com essa boca catinguenta de charuto”, dizia sempre para meu tio quando se encontravam para jogar gamão. Ele era muito severo, é verdade, e minha irmã e eu tínhamos até medo quando ele chegava em casa reclamando “não vão pedir a benção?” Benção, pai. E logo íamos nos esconder para não sermos a escolhida do dia para fazer cafuné na sua sempre dolorida cabeça. Acho que não sabia ser carinhoso. Era o protótipo do nordestino machão da época, embora atenuado pelos ares do primeiro mundo que conheceu quando fez curso na Sorbonne. Morreu cedo, aos 44 anos, acho que de derrame cerebral. Acho. História meio confusa, mal contada. Deus te abençoe, pai.

Para mim, naqueles primeiros tempos do colégio, as lembranças de casa eram o cordão umbilical que eu não queria cortar porque significava o elo unindo o presente ao meu ainda tão recente, pequenino e querido passado.

Era o meu referencial...

***

Meu quarto dá para a Floresta da Tijuca. Pela janela vejo uma pequena cascata formando um lago. O aposento é claro e amplo. Apenas uma cama, que está sempre arrumada. Não preciso mais fazer camas e penteio eu mesma os meus cabelos.

Minhas coisas estão guardadas no armário e na cômoda que, com a cama, a mesinha de cabeceira e uma poltrona constituem um dos cenários desta minha nova existência. Sobre a cômoda alguns livros e os retratos que lá coloquei, me olham. São o elo unindo o presente ao meu tão longínquo e pleno passado.

São o meu referencial..

***

Nós servíamos de exemplo para as outras alunas, minha irmã e eu. A cada ano que passava, mais nos destacávamos nos estudos, quadro de honra, medalhas, referências elogiosas. O preço para tal desempenho pesava a cada fim de mês nas contas domésticas e talvez na consciência de minha mãe, que tudo fazia para tornar mais amena a separação. Eram maçãs, pêras, damascos, tâmaras, mel, aveia e outras tantas guloseimas adoçando as semanas que não íamos para casa. Era o curso de pintura em porcelana de minha irmã e minhas aulas de piano “essa menina tem muito jeito...”. Realmente, estávamos aprendendo muitas coisas bonitas.

Nos finais de ano, aconteciam as grandes festas para os pais. Confraternização geral. Nervosismo. Emoção. Quinze dias depois da apresentação dos alunos e da exposição dos trabalhos manuais, férias! Três meses inteirinhos em casa e a esperança, lá no fundo de nossos corações, de não mais retornar. Entretanto, quando mais um ano letivo recomeçava, lá íamos nós de novo para a mesma condição de internas. Mamãe já não estava conseguindo manter em dia nossas mensalidades e isso causava constrangimento para nós: “A mãe de vocês não está em dia com o pagamento e dessa maneira vocês não podem fazer as provas finais mas, se vocês me pedirem, eu deixo.” A cena era digna de um filme. O corredor imenso, sombrio, a figura encurvada da Madre Superiora em seu hábito negro e as duas pequenas figuras assustadas sentindo, talvez pela primeira vez, a força do poder e do dinheiro. O rubor nas faces de minha irmã e meu olhar (como você é prepotente!) foram nossa resposta muda. Os dedinhos ainda estavam muito magros. Não era ainda chegada a hora da velha saborear João e Maria. Fizemos as provas e, por isso, retornamos no ano seguinte. O terceiro.

A rotina era a mesma. A única diferença eram os ensaios diários para minha primeira apresentação solo ao piano na festa do final de ano. Minha avó também iria me assistir. Ela sempre quis que, de alguma maneira, eu me tornasse artista. Não me deixava cantar (eu adorava), para não forçar minha voz tão nova. Quem sabe não seria uma cantora de ópera (que ela adorava)? E, certa vez, me enviou a partitura do “Le lac de Come” para que a professora me ensinasse a tocar. E eu aprendi. Sabia tocar direitinho.

Eu e outra menina, aluna que também disputava comigo os primeiros lugares da turma, ensaiávamos a mesma música (que já não lembro do nome) para a eventualidade de haver algum tipo de impedimento de minha parte. A professora, vice superiora do colégio, era muito rigorosa: “não pode esticar a mão...os dedos têm que ficar curvos... mais ligeiro...mais pausado...os dedos... os dedos...” Era uma tensão, era um massacre, mas eu queria fazer bonito para minha avó e procurava me aplicar cada vez mais. Minha mão era pequena, como até hoje, e nos acordes com oitavas não havia jeito. Os dedos ficavam esticados. Até que um dia, a professora, nervosa, bateu nos meus dedos. Dedos curvos, curvos, curvos...

Mãos paradas, lágrimas rolando. “Toca!” . Nada. “Toca, menina”. Não! Não toquei mais. Nem naquela hora, nem na festa. Perdi quadro de honra, perdi medalhas, perdi o direito de tocar para minha avó que nunca me viu tocar piano. Morreu meses depois.

Aprendi a injustiça, aprendi o complexo de inferioridade, aprendi a lei do mais forte. Não eram coisas bonitas, mas aprendi a crescer.

Perdi a inocência.

***

Aqui, todo fim de mês, tem sarau. Uns cantam, outros declamam, cada um faz o que ainda sabe. Os familiares quando querem ou têm tempo vêm assistir.

Os ensaios duram por todo o mês. As vozes já não estão tão firmes, a memória às vezes falha e os dedos, mais duros, procuram ansiosos notas perdidas na lembrança.

Não há competição. Dinheiro não é elemento discriminador. Só está aqui quem pode. Poder tem outro significado. O da sobrevivência. Sobrevivência das experiências vividas. Sobrevivência da memória . E o aprendizado do compartilhar a fraternidade e a igualdade, que são coisas bonitas, e também a falta da liberdade.

Aprendizado da sobrevivência.

***

Depois de cinco anos internas, finalmente aposentamos nossas malas e não mais retornamos ao Internato.

Pudemos, então, compartilhar a rotina familiar com nossos irmãos, nossa mãe e nosso padrasto. Pudemos, principalmente, compartilhar a liberdade, mas também a falta de dinheiro.

Adeus às tâmaras, damascos, mel, biscoitos e a tantas outras guloseimas.

Adeus às aulas de piano.

Adeus ao piano.

Depois de terminar o antigo ginasial, cada uma de nós, sucessivamente, começou a trabalhar para ajudar em casa.

Compartilhávamos a realidade. Aprendíamos a viver.

***

Este mês o sarau parece que vai ser animado. Vai ter recital de poesia, concurso de canto e uma pequena peça teatral. Mas o piano está precisando de um trato. Estão à procura de um afinador.

Ainda não me animei a apresentar nada. Ainda não me sinto entrosada com minha nova rotina. Não me sinto inserida neste novo contexto. Sinto-me, apenas, uma espectadora.

***

Depois de quase vinte anos de casada, ganhei de meu marido um piano. Fiquei maravilhada. Ter um piano significava tantas coisas para mim. Tantas possibilidades, principalmente a mais importante: resgatar um momento interrompido. Adorava ficar olhando para ele. Ele, que de uma certa forma, passou a ser um novo morador de minha casa. Parecia que tinha olhos que ficavam a me espreitar como que querendo saber quando eu iria tomar posse dele, quando iria tocá-lo, vibrá-lo. Era quase que como um amante desejando e desejado, mas ao mesmo tempo proibido e impossível.Muitas vezes eu abria sua tampa e desnudava suas teclas e ficava olhando e imaginando seus sons.

“Toca, menina!” Não, não toco. Meus dedos ainda doíam a dor da injustiça, da impossibilidade, do nunca mais...

***

O meu quarto é de fundos. O único barulho é o da cascata e o dos pequeninos seres da floresta: grilos, sapos, sagüis e outros tantos. Aqui fico algumas horas do dia. Gosto de ler. Sempre gostei. E o silêncio é fundamental para que nada interfira no mergulho na história, na época, na vida dos personagens. Quem sabe ainda eu possa ser algum dia personagem de uma história...

A casa tem vários moradores, mas ainda não os conheço direito. E nem conheço todos. No refeitório, inevitavelmente, sento ao lado de alguns. Tem os educados, os silenciosos, os espaçosos, os bem idosos e os nem tanto. Eu também agora faço parte dessa estatística. Só não sei em qual categoria. Ou quais.

De uma certa forma, há uma animação no ar. Depois do almoço, geralmente, é o período para os ensaios. Uns tentam memorizar as poesias que declamarão, outros cantam suas melodias e outros ainda ensaiam suas falas na peça que vão apresentar.

Ainda não me mostrei. Ainda não sei o que mostrar.

Hoje está sendo esperado um afinador de piano.

***

Durante muitos anos tive que me acostumar a abrir mão de alguns sonhos e de alguns objetivos porque minha presença, minha energia e minha ajuda foram requisitadas para outra direção, para quem mais estava precisando. Entretanto, um dia, o que já há um certo tempo estava sendo esperado,aconteceu. Fiquei viúva.Foi o fim de um grande ciclo de minha vida, mas também um novo começo. De quê?

Não era nova, nem velha. Todos sempre se surpreendiam com a minha idade. Nossa, como está conservada! Logo, logo vai casar de novo...

Mas comigo, as coisas dos sentimentos, da afetividade e da entrega nunca foram simples. Sempre precisei de tempo.

Quando os dois são novos, seus passados quase não existem. Eles são o presente e, juntos, vão construir um futuro. Vão se construir. E se habitar.

Quando se é mais velho, o passado é bastante representativo e muitas vezes interfere no presente, dificultando o futuro e o entrosamento entre dois seres já sedimentados em vivências e lembranças que não fazem parte da história particular de cada um.

É bem mais difícil.

O tempo, simplesmente, ia passando, dia após dia. Meus amigos, meus filhos e minha família preenchiam vários de meus momentos, mas eu ainda não me sentia entrosada com minha nova rotina. Não havia ainda nenhum contexto no qual desejasse estar inserida. E eu, também, não dava nenhuma chance aos deuses da sorte, do acaso ou do destino.

Até que, assim do nada, voltei a prestar a atenção no meu piano. Mas ele estava precisando de um trato.

Comecei, então, a procurar um afinador.

***

Sempre gostei de me arrumar bem, de pintar meus cabelos, de me maquiar. Continuo a parecer bem mais jovem do que sou. E, de uma certa forma, ainda surpreendo, ainda chamo a atenção. Hoje, particularmente, gostei do que vi no espelho. Espelho, espelho meu...

Depois do lanche da noite, alguém colocou um aparelho de som na varanda e músicas antigas vão se sucedendo umas às outras. Querem reavivar a memória para suas apresentações de canto. Alguns pares,tímidos, começam a dançar. Até mulheres com mulheres. Não importa. A nostalgia, as lembranças de outros tempos, nos transportavam para outros momentos. Momentos vividos. “Vamos dançar?” Levei um susto. Por um breve instante, ficamos a nos olhar. É um novo morador da casa e bastante atraente. E dança bem.

Há quanto tempo não sou abraçada por nenhum homem...

Meu coração começa a bater forte. Sinto reviver o gosto da sedução.

***

Eu estava só e ansiosa. A perspectiva de poder usar meu piano me deixava muito excitada. Era como tomar posse de algo há muito desejado. Algo que por tanto tempo estava à minha espera, mas que as marcas de tantos descaminhos não me deixavam ir ao encontro.

Levei um susto quando a campainha da porta tocou, mas rapidamente fui abrir. Por um breve momento, ficamos a nos olhar. Ele, provavelmente, esperava uma senhorinha idosa, quem sabe uma professora de piano. Eu, com certeza, não esperava aquele homem ainda novo, exalando tanta sensualidade, tanta sedução. O coração começou a bater forte. Voltei no tempo, quando ainda bem jovem, adorava participar de todos os movimentos do grande jogo da conquista amorosa.

A cada vinda, por conta do piano, expectativas. Uma palavra, um elogio, um gesto, um olhar, um roçar de dedos...

Mas, finalmente, chegou o dia em que o piano ficou pronto. Suas teclas haviam sido tratadas com carinho por quem entendia bem do ofício,suas notas afinadas para soarem corretamente, deixadas livres do pó e do mofo acumulados por tanto tempo. Prontas para serem manuseadas.

E os dedos do afinador dedilharam todas elas, arrancando sons adormecidos, vibrações esquecidas, possibilidades infindas...

Ele foi embora e nunca mais o vi. Houve um momento, mágico, em que tudo voltou a ser possível. O afinador foi o agente. Meu piano, o gatilho.

***

O piano, finalmente, foi consertado e me atrai. Como me atrai o novo morador. A cada encontro, expectativas. Olhares, palavras, elogios, conversas, gestos, conhecimentos e reconhecimentos...

Nas parcerias de dança, corpos cada vez mais próximos, respirações mais ofegantes, possibilidades...

Resolvi tocar piano no sarau do próximo mês. Todas as tardes treino minha partitura e à proporção que vou conseguindo dominar corretamente todos os movimentos, andamentos, pausas, acordes e oitavas, parece que também meu corpo está uníssono, querendo ser dominado para libertar vibrações há tanto adormecidas.

***

Ontem à noite, depois que desligaram o som e paramos de dançar, permanecemos muito tempo ainda enlaçados e depois, de repente, olhos nos olhos, de mãos dadas, rapidamente nos encaminhamos para o quarto. Estávamos prontos um para o outro. E foi um momento mágico em que tudo voltou a ser possível. Já havíamos passado por todas as etapas necessárias para termos a certeza de que queríamos viver nosso futuro juntos, sermos personagens de uma mesma história. De uma nova história. A nossa.

Hoje, no sarau, toquei “Le lac de Come”.

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Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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2 comentários

  • Link do comentário Nelson Lyra Sábado, 20 Agosto 2016 15:27 postado por Nelson Lyra

    Para mim, não só o seu melhor conto, até agora, mas o melhor publicado nesta página. Simplesmente porque você ofereceu uma nutritiva canja de pato. Se esse final ficou enigmático, leia o prefácio do livro de Paulo Cunha Lima.

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  • Link do comentário Suzana da Cunha Lima Quinta, 18 Agosto 2016 15:24 postado por Suzana da Cunha Lima

    Este, na minha opinião, continua sendo o mais belo conto de Christina. Tem tudo, beleza, sensibilidade, frases bem concatenadas, suspense, e um final feliz que compensa o leitor. Parabéns, mana!!!

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