Segunda, 08 Agosto 2016 14:19

Sorriso Olímpico

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- O que vemos aqui é um sorriso de nervoso. Não há dúvidas, ela não pode estar feliz com esse resultado. – A narradora descrevia a reação da ginasta Croata. A torcida incrédula era um misto de aplausos constrangidos e silêncio condolente. Afinal as televisões e jornais a descreviam como favorita, campeã Mundial no ano anterior, classificada com larga vantagem para as Olimpíadas, nas quais chegava com status de estrela, mesmo desconhecida para o grande público local, os presentes entediam ver uma anomalia.

- São vários fatores que determinam uma performance assim, mas o principal é o psicológico. Nessas horas, quem não tem cabeça fica pelo caminho. – Continuava a narração. Nenhuma nota acima da casa dos 12 pontos, e todas as ginastas que pretendiam ir para a final ultrapassavam 14,700. A comentarista não sabia e os torcedores não imaginavam, nada havia de nervoso no sorriso. Ninguém ali tinha ideia, mas desde 8 anos seu pai a fizera sofrer diariamente em uma rotina de treinos cruéis, que a impediram de acompanhar seu desenho favorito e a fizeram repetir de ano pela primeira vez na quinta série.

- Eu sei como você se sente, você vai superar tudo isso. – Sua principal adversária a dizia em um abraço, gesto tomado de “espirito olímpico”. Não a enganava sequer por um segundo, ela reparou que a atleta Sueca olhara para os fotógrafos e as câmeras de televisão e se aproximara em um ângulo estudado para estampar sites, revistas e jornais. Mesmo assim, aquele gesto nojento de autopromoção foi incapaz de tirar seu sorriso. A outra ginasta não conhecia seu papai, que aos 14 anos, a obrigou a passar por uma cirurgia de retirada dos seios, eles começaram a ficar protuberantes e a impediriam alcançar nível mundial. Não havia como a rival entender, foi justo nessa idade que se apaixonou pela primeira vez, e em Samobor, perto de Zagreb, todas as meninas chamavam mais atenção que ela e seus ombros largos, seu corpo atrofiado e troncudo, moldado desde pequeno para permanecer mirrado pela tirania da alta performance. E, que sua última esperança de atrair Andrej tinha sido mutilada em uma cama de hospital em prol de sua carreira, sua maior libertação teria sido colocar um belo soutien realçando seu decote.

- O que você tem para dizer para as pessoas que te assistem na Croácia? – Perguntou a astuta repórter. Mas ela não pode responder a medíocre questão, somente sorrir. Dessa vez quem não sabia de nada era seu papa. Ele doente, não pode acompanha-la ao Rio, mas certamente estava com os amigos e parentes em volta da televisão, ostentando a famosa filha forjada desde moleca por sua educação exemplar. Ela sabia disso e sorria, “quem sabe ele não teve um pequeno enfarte? Só não morre papi, a sua grande surpresa ainda está por vir”. Papai não tinha como sonhar, mas na Vila Olímpica o velocista jamaicano reserva não se importava com seus míseros um metro e cinquenta e seu busto mirrado. Ele apreciava, só naquela noite por três vezes, sua capacidade física de colocar os pés e as mãos ao mesmo tempo na cabeceira da cama, só um esporte como a ginástica para dar uma habilidade tão valiosa, “obrigada meu velho”.

Aquela olimpíada era sem dúvida o auge de sua carreira, o apogeu de sua história, a única coisa que o pai dela detestava tanto quanto a derrota eram negros, ao voltar para casa iria levar Sanjay para um tour no litoral Adriático e se tudo desse certo, presentearia seu carrasco com um netinho mestiço inapto para esportes. Tentou até disfarçar seu sorriso.

Lido 523 vezes Última modificação em Segunda, 08 Agosto 2016 14:43
Filippo de Faria Cordeiro

Roteirista, amante da leitura, cinema, teatro e música.

 

E-mail: pippofcordeiro@gmail.com

2 comentários

  • Link do comentário Nelson Lyra Sábado, 20 Agosto 2016 15:36 postado por Nelson Lyra

    Muito bom! E poderia até ser dito " baseado em fatos reais". Antes do fenômeno Nadia Comaneci, ha 40 anos atrás, as meninas russas era tratadas com hormônios para não crescerem. Uma crueldade sem tamanho. Na minha opinião, um dos melhores trabalhos desta página.

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  • Link do comentário Christina Mariz de Lyra Caravello Quarta, 10 Agosto 2016 13:32 postado por Christina Mariz de Lyra Caravello

    Gostei demais desse texto por tudo que ele quis transmitir nas entrelinhas.
    A superação
    A vingança
    A vitória. apesar da derrota...

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