Domingo, 21 Agosto 2016 14:08

Dois Zés

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Essa coisa de estudar muito é um perigo; a gente fica alienado demais. Passei a semana lendo demais, encucando demais, e escrevendo de menos. Sexo então, zero. Problemático. Daí sobra espaço pras pirações sem âncora nas longas viagens de ônibus até o campus, ouvindo cada dia uma coisa diferente e lembrando cada dia de uma pessoa diferente. Música tem disso. Quando ouço algumas especiais, parece que um carteiro correu até mim e botou no meu colo uma garrafinha não só com o som, mas o cheiro, a cor, o calor, a textura e o retrato de quem me lembra.

Ouvia Tom Zé.

Ouvia Tom Zé e lembrava do rapaz que me apresentou o disco Estudando o Samba. Eu, como boa discípula, me pus a ouvir Tom Zé de cabo a rabo e acabei lhe apresentando outras músicas dele também. Engraçado, quando lembro desse moço não me vem a mente a voz dele – ele abre a boca no meu pensamento e é o Zé que canta.

O ônibus passava pelo Bourbon Ipiranga quando ele dizia “eu fui morar na Estação da Luz porque estava tudo escuro dentro do meu coração”. O homem em questão também tinha mais de uma mulher envolvida. Eu sabia que não estava sozinha, tinha absoluta certeza em não confiar nele mas, ainda assim, seguia aceitando seus convites, suas cervejas, seus carinhos no meu cabelo. Por quê? Porque a porra do sexo era muito bom.

Homem é um bicho curioso do caralho, acho que nunca – por mais que eu dê, que me envolva e conheça milhares – vou entender de fato. Quer dizer, era óbvio que ele não era apaixonado por mim e se encaminhava mais pra isso com a outra menina. Mas mesmo assim me queria, me ligava, e eu sempre com dois pés atrás mas a buceta em aberto, por quê, por quê ele me ligava eu pensava, mas a resposta sempre foi muito clara: porque o meu sexo é gostoso pra caralho, e ai de quem queira me contradizer.

O Zé tinha o gosto de brincar muito com o meu cabelo durante o dia e dar puxadas firmes enquanto eu ficava de quatro à noite. Ele tinha essa coisa absurdamente sedutora de saber dosar o carinho e a violência que são quase igualmente excitantes pra mim. Tivemos transas de puro amor (uma vez ele disse que me amava, disse que o mundo precisava de mais pessoas que dissessem eu te amo. Resolvi dizê-lo então, tão da boca pra fora quanto ele), tivemos transas da mais pura sacanagem. Afinal, foi com essa finalidade que nos unimos por frenéticos três meses.

Não soube cortar o mal pela raiz. Nosso término foi feito de pequenas e silenciosas despedidas. Um dia que decidi não chupá-lo, outro que dei por horas mas decidi não dormir com ele. Um dia transamos na rua pra que eu nem entrasse na sua casa. Outro dia só nos beijamos, tomamos uma cerveja e seguimos outros caminhos.

Cheguei no Campus do Vale e tirei os fones. A voz do Zé se apagou em mim. Na volta vou ouvir Cazuza.

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Une Petite Putain

Não sou nem louca de escrever em terceira pessoa. Escrevo putaria pra libertar a mim e aos outros também. Eternamente em busca de pequenos prazeres.
Idade: 20
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