Quarta, 24 Agosto 2016 21:32

Planos

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Ricardo, 37, é um músico que fez pouco sucesso, porém ainda ganha certo dinheiro, não é milionário, mas vive bem para seus padrões. Odeia crianças e volta e meia termina os seus relacionamentos por causa disso. Namora Renata há uns três anos, moram juntos. Ela inferniza sua vida, diz ela aceitar o fato dele não querer ter filhos, mas quer mandar em todos os aspectos de sua vida, dieta, gostos, como deve guardar dinheiro, o que ele deve ou não beber.

Ricardo tem apenas um amigo que ele realmente gosta e confia, Julião, um médico baiano, negro, por volta dos seus 56 anos. Eles se conheceram sem querer na Bahia, em um bar, 10 anos atrás, depois de um show de Ricardo com uma banda local. Os dois miseráveis, Julião por estar de volta a Bahia e às pragas de sua família, e Ricardo por ter que aceitar fazer show com banda sem talento, ele preferia até estar tocando com uma de axé, mas precisava da grana na época. Descobriram que ambos moravam próximos, na Gávea, no Rio, e marcaram de beber junto. O chopp tornou-se um hábito e eles dividem suas mazelas nas mesas, mas o que realmente os aproxima é a curiosidade e naturalidade de ambos em relação a morte.

Renata todo dia conseguia irritar Ricardo um pouco mais, “essa roupa não me agrada, você está engordando, quanto tempo você vai passar com o Júlio bebendo? ” Ricardo aturava e levava a vida. “Afinal ela não enche o saco para ter filhos como as outras”. As viagens ajudam, hoje em dia tocar uma música medíocre com uma banda escrota não incomoda tanto, mais dias para Ricardo longe de casa e de Renata. Além disso, sobra uma ou outra fã desavisada que aceita uma noite de sexo.

Julião e seu senso de humor, por conviver tão perto da morte, acha que ela é razão de piada. Muitos dos papos de Julião e Ricardo são planos mirabolantes de como eles poderiam matar os chatos, as suas mulheres, os políticos e os garçons que demoram. Julião realmente tem técnica e conhecimento cientifico, Ricardo só tem à vontade.

Renata e seu senso de humor, a sua piada favorita parece ser irritar Ricardo, fazer todos os planos que ela sabe que ele não vai querer, “vamos patinar na praia? Comer no vegetariano? Comprar uma casa no campo? Morar no campo? Comprar um cachorro, ou um gato? Sair com minhas amigas e os maridos delas? ”. Cada coisa mais comum ia se tornando uma machadada na cabeça de Ricardo, até quando ela sugeria algo que ele adorava, a raiva subia, apenas o jeito de falar dela já mexia com ele. “Vamos acordar tarde pegar um braseiro e talvez ir no Jockey, você pode jogar eu vou encontrar a Fatinha e depois voltamos para casa juntos”. Ricardo ama o braseiro e apostas, mas aquele tom imperativo, puta merda, aquele tom imperativo, “Quem é ela para dizer que eu posso jogar. Eu posso jogar quando eu quiser”.

Julião ria de algumas reclamações de Ricardo, para ele jovens como Ricardo tem pouca paciência e muita valentia, acha que o tempo vai curar o ímpeto de Ricardo.

O problema começou um dia de agosto, Renata deixou de usar o anticoncepcional por alguns dias. Ricardo só pensava uma coisa, “não quero uma criança”, mas não havia nada certo, a probabilidade é que Renata não estivesse grávida. Ricardo se segurava com medo e raiva, mas aí veio a bomba, “não importa o que acontecer, se tiver realmente grávida, eu não vou tirar”.

“Estava bom demais para ser verdade, ela era uma boa de uma mentirosa, o corpo da mulher não falha, e como todas as outras ela sentiu o veneno biológico da idade cobrar uma criança. A diferença é que essa puta me enganou, ela já dava pistas, mas eu sou burro. Ela fez parecer um acidente e agora me vem com essa”. Ricardo não era um monstro, ele começou a planejar em sua cabeça como seria ter um filho. O problema nesse ponto não era mais a criança, pobre fruto de uma covarde arapuca de Renata, mas a traição da amante. 15 dias depois os testes deram negativos e Ricardo sentiu o desapontamento de Renata, “traidora não consegue nem esconder que era seu sonho”, dois meses depois chegam os testes conclusivos Ricardo está livre de ser pai.

Susto, raiva e medo passaram, Ricardo está mais doce, mais amável, e Renata mais controladora, não queria que ele viajasse tanto e não entendia porque ele ainda não conseguiu se firmar no Rio sem precisar procurar trocados em tours, talvez tivesse chegado a hora de desistir da carreira de músico, o sogro de Ricardo tinha uma bela oportunidade de emprego, afinal ele já tinha uma graninha não precisava de nada demais.

“Amor vou marcar uma conversa com o amigo do meu pai, ouve o que ele tem para oferecer pelo menos”. “Claro minha linda, você sabe o que eu penso, mas porque não o escutar?” Ricardo estava sereno, por uma simples razão, agora o veneno que ele tinha colocado no copo já estava no estomago de Renata, sendo digerido e espalhado por todo seu corpo que de leve adormecia.

Julião recebeu ela no hospital conforme combinaram, pobre menina passando mal, morta de um ataque súbito, laudo de Julião, certidão de óbito em mãos. Ricardo estava triste, mas sabia que havia feito o correto, enganar mais tempo a menina era desonesto, assim como se enganar, os dois precisavam daquilo, de um fim e ela não tinha o que fazer da vida, infelizmente Ricardo tirara seus anos mais importantes e não seria justo apenas abandoná-la. “Ela não trabalhava, não estudou muito e não era mais tão bonita, ia acabar na mão de um cafajeste, pena que teve que ser assim, fazer o certo às vezes machuca muito”.

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Jose Valdes y Prom

Pseudônimo

Um iconoclasta.

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