Sexta, 03 Junho 2016 22:40

O corrupto, a zarabatana e o super-herói

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Tudo aconteceu numa fração de segundos. O barulho do vidro estilhaçado e a pancada do corpo do deputado Paulino Laluf caindo no chão. No pescoço do parlamentar, dava para ver a pequena seta fincada e a pele avermelhada ao seu redor. Era mais um corrupto abatido por aquele que, em pouco tempo, havia se tornado o super-herói do povo brasileiro e o terror dos corrompidos.

A Polícia Federal não tinha conseguido ainda identificar o autor daqueles ataques misteriosos, mas suspeitava se tratar de algum índio ou empregado da FUNAI, descontente com a corruptela de algum chefe. Se fosse índio, devia ser de alguma tribo das Minas Gerais, terra de conspiradores, os policiais supunham. De uma das tribos daquela região – Pataxó, Krenak, Xacriabá ou Pankararu, ainda não estava comprovado. A polícia já sabia, no entanto, que o autor das agressões usava uma zarabatana, uma arma primitiva que consiste em um longo tubo pelo qual são sopradas pequenas setas ou dardos que têm em média 15 centímetros e, em geral, são embebidas ou untadas com seivas venenosas. A zarabatana é muito usada pelos índios amazônicos e indígenas da América do Sul para caçar animais ou aves, por ser uma arma silenciosa e precisa.

Esse era o décimo quinto corrupto que havia sido atingido pelo Super Zara, nome pelo qual o super-herói já estava sendo chamado pelo povo. Mas o curioso é que a substância colocada na ponta da seta não era um veneno letal. Ao invés de colocar curare ou outra seiva venenosa, o super-herói usou uma espécie de soro da verdade, parecido com aquele inventado pelos militares americanos na tentativa de arrancar a confissão dos prisioneiros. As setas do Super Zara tinham uma mistura de várias substâncias químicas, entre elas, sodiopentathol, pantatol e amital sódico, ácido lisérgico, ecstasy e canabis sativa. Como resultado, as pessoas atingidas pela seta ficavam eufóricas, extasiadas, desinibidas, tinham muita larica e eram invadidas subitamente por um surto de altruísmo e honestidade. Eles respondiam qualquer pergunta sem nenhum tipo de restrição. Confessavam suas falcatruas, se envergonhavam dos crimes cometidos e ficavam extremamente generosos. A ponto de repartir com os eleitores (no caso dos parlamentares afetados) toda a fortuna que haviam arrecadado irregularmente com as fraudes das obras públicas, com as propinas dos lobistas, com o caixa dois, etc.

Os policiais fizeram um círculo ao redor do deputado estendido no chão e fecharam as portas do local onde estávamos. A multidão se aglomerava em volta daquela frágil fortaleza humana empurrando quem estava na frente. Todos queriam ver o deputado corrupto despertar como um político honesto, honrado, justo e ético. Mas a intenção da polícia era descobrir se o super-herói ainda se encontrava ali no meio da turba. Por isso, todos seriam revistados, sem exceção. Não escapariam da vistoria nem os deputados Marconi Centelha e Barney Neto, parente do senador Castor Barney. Os dois vestiam blusas de gola rolê que, depois dos ataques, tinha virado moda entre os políticos. Suavam em bicas no ar rarefeito do outono brasiliense. Suando também, ao lado dos parlamentares, estava um índio de tanga, com um cocar na cabeça e um tubo de bambu em uma das mãos. Uma zarabatana!? Super Zara!?

Antes que eu completasse o pensamento, o índio colocou a zarabatana na minha mão e desapareceu. Quando me viram com a arma do crime na mão, os policiais sacaram suas armas e começaram a atirar em minha direção. Acordei suando, desesperada. Que alívio! Era só um pesadelo. Depois custei a voltar a dormir. Fiquei sonhando acordada com o meu pesadelo. Bem que o povo brasileiro merecia um super-herói que nos ajudasse a botar ordem nesse Brasil.

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Tinda Costa

Jornalista por formação, mestre em Cinema e TV, Cristina Costa já foi produtora, editora, pesquisadora, roteirista e compradora de conteúdo internacional de TV para a TV Globo e canais Globosat. Tem ainda experiência de avaliação de projetos de programas de TV e roteiros. Atualmente, escreve roteiros de ficção e na criação de projetos de mídia.

Profissão: Roteirista

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