Quarta, 07 Setembro 2016 16:04

Ultramaratona

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No 02 de junho completei a utramaratona Comrades, de 87 km na África do Sul.

Difícil descrever a sensação e o que é a prova. Mais difícil é entender o motivo de se querer fazer uma coisa dessas.

De fato em um mundo tão rápido e dinâmico não parece fazer o menor sentido percorrer essas longas distâncias. É desgastante, requer um grande sacrifício e geralmente ninguém dá suporte para isso.

Apesar disso tudo eu acho que tem coisas que vão além do senso comum e da lógica. Eu acredito que a vida nem sempre é só feita de razão e cabe a cada um encontrar esse ponto.

Eu passei a gostar de corridas de longa distância por volta de 06 anos atrás. Diversos são os motivos: Gosto pelo desafio, saída para o stress do dia a dia, superação, mas principalmente a parte mental.

É complicado entender para quem não vivencia isso. Já ouvi frases e relatos que dizem que a porta do espírito se abre com o esforço físico, que em muitos casos para aprender alguma coisa na vida se requer uma dor física, da leveza que se sente após o exercício, dos efeitos da endorfina.

Enfim é algo muito pessoal e o que posso dizer é que de alguma forma esse tipo de exercício combina com meu jeito de ser. Simples assim.

Não vou tentar explicar, mas para mim é prazeroso correr por horas seguidas e ficar somente com meus pensamentos, lembranças, resolução de problemas, angústias e as vezes com aquele vazio, em que nada vem à mente além do movimento repetitivo.

Eu encontrei isso nas corridas de longa distância.

Nunca pensei em performance de tempo como prioridade ou na parte estética do exercício, coisas que para mim são totalmente secundárias.

Sempre foquei na mentalização positiva e na sensação de bem estar proporcionada.

Ninguém me falou para começar a correr. Comecei simplesmente por que quis. Talvez me convençam que estou errado mas nesse momento não me sinto inclinado a mudar.
Com isso em mente passei a correr maratonas e passados alguns anos me impus um desafio maior e correr essa ultramaratona se tornou uma meta e um desejo.

Fiz pesquisas sobre a prova e uma vez tomada a decisão eu não voltaria atrás. Passei a treinar em janeiro com um programa específico e visando a prova.

Foi um período de grandes complicações pelo momento pessoal e acúmulo de trabalho mas os momentos de treino longo me proporcionavam uma busca de equilíbrio e um reencontro comigo mesmo.

Foram vários finais de semana acordando antes de seis horas da manhã e com treinos que chegaram a quase seis horas.

Embarquei para a África no dia 29 de maio, continente que eu nunca havia estado e que estava indo com o único propósito de fazer a ultra.

Após escala em Joanesburgo segui para Durban, local da largada.

Fiquei com ótima impressão da estrutura das cidades, organização e hospitalidade das pessoas. Procurei tentar me adaptar ao fuso e ficar com foco na prova.

No domingo dia 02 de junho as 05:30 da manhã foi dada a largada.

Apesar de parecer uma insanidade fazer algo assim aproximadamente 18 mil pessoas se inscreveram para a ultra, sendo cerca de 3 mil estrangeiros.

Havia um grupo de cerca de 150 brasileiros, incluindo um atleta profissional que tinha como meta ganhar a prova e um veterano que já havia feito a Comrades dez vezes.

A temperatura estava bem acima da média em comparação com os outros anos, o que já permitia prever dificuldades adicionais no percurso de subida – a prova tem uma variação entre subida nos anos impares e descida nos anos pares.

No momento da largada várias coisas passaram pela minha cabeça, incluindo a pergunta do por que eu estava lá e por que estava fazendo isso. É um momento de celebração, com vários aspectos motivacionais e canções africanas.

Dada a largada eu passei a seguir minha estratégia e mentalizar a linha de chegada.
Considerando a distância e o desconhecimento da prova procurei segurar e imprimir um ritmo mais lento no início. Eram também muitas pessoas e principalmente nos primeiros quilômetros fica difícil ir mais rápido, o que se provou de grande valia nos vários quilômetros a frente.

Com o decorrer da prova houve aumento abrupto de temperatura e um fortíssimo vento contra. A estrutura de apoio foi perfeita, com muita hidratação e comida ao longo de todo trajeto.

A prova tem também uma grande participação popular. Muita gente vai a rua apoiar e em todas áreas residências vi as famílias na calçada dando incentivo a todos. Essa corrida é um evento nacional na África do Sul e é transmitida pela TV durante 12 horas. Esse é o tempo limite para concluir e findo esse período você não ganha medalha, não cruza a linha de chegada, enfim, é como se você não estivesse lá. Quem ganha as manchetes do jornal no dia seguinte não é o ganhador mas a primeira pessoa que chega após as 12 horas. É quem ficou no limiar. Eu não tinha a menor intenção de virar uma celebridade na África do Sul então tinha como missão completar a prova antes de 12 horas.

Eu tinha como meta tentar concluir em até 10 horas mas com todas as dificuldades e da forma como estava meu ritmo vi que seria impossível, por outro lado em determinado momento me senti seguro que terminaria a tempo. Jamais passou pela minha cabeça desistir, parar ou imaginar que não chegaria. Vi muita gente passando mal e a todo momento os carros de resgate buscando as pessoas que haviam desistido, o que não ajuda no lado psicológico mas eu não pararia por nada.

Quando cheguei perto do fim, após cerca de 11 horas correndo, uma série de coisas vieram a minha cabeça. Passou um filme de várias cenas e uma lembrança de vários momentos. Recebi uma medalha ridiculamente pequena, mas de grande valor pessoal.

Depois vim a saber que foi uma das Comrades mais difíceis da história devido sobretudo a alta temperatura. Pouco mais de dez mil pessoas concluíram, sendo que a prova teve a mais alta taxa de desistência da história.

Eu terminei me sentindo bem e sem maiores consequências além das tradicionais dores musculares.

Várias coisas se passaram pela minha mente. 11 horas é um bom tempo para ficar consigo mesmo. Não fiz isso para provar nada para ninguém. Fiz para mim mesmo e acho que o que mais valeu foi um exercício de resgate de fé.

Meio clichê falar que quando focamos podemos conseguir, que tudo é resultado de esforço, que você tem uma meta e planeja consegue, enfim, tudo isso é verdade mas vai além disso. Zaptopek já dizia que assim como nas corridas as maiores batalhas da vida são travadas na solidão e filosificamente encontrei um pouco do significado do que Nietzche quis dizer quando afirma que o grande do homem é ele ser uma ponte e não uma meta, ser uma passagem e um acabamento. Aqueles que sabem viver como que se extinguindo são os que atravessam de um lado para o outro.

Nunca se sabe o que acontece em um ano. mas em junho do próximo ano espero estar novamente na África para o percurso da descida.

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Guilherme Naves

Empresário e pseudo esportista. Leitor contumaz e se arriscando na escrita com tons bem pessoais.

Idade: 46

Profissão: Empresário

E-mail: guirio34@hotmail.com

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