Terça, 13 Setembro 2016 23:33

Recomeço

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Fiquei sem saber porquê assim, do nada, veio uma angústia forte subindo no peito como uma ânsia de vômito sobe na garganta. Não tinha razão de ser, eu nem tinha história pra contar. Não tinha satisfação pra dar. Simples assim, nada na cabeça, o disco rodando devagar, acho que essa vitrola não aguenta mais, o cabelo ainda pingando, não tem cerveja nenhuma, amanhã é segunda. Preferi deixar a TV desligada. Já terminei meu livro. Cumpri meus afazeres de hoje. Não comi coisa gordurosa, não fiquei preocupada, não tem motivo pra vir essa coisa estranha amarga na boca. Li coisas antigas de tarde. Tudo imprestável, malconduzido, vago. E cá estou eu, fazendo a mesma coisa.

É que há uma coisa ainda a ser dita. Não há ninguém. Só há a eu mesma. Divagações, masturbações vestida, roupas na cama, lençol amarrotado, silêncio na rua. Não há sequer traços de alguém passado, um fantasma pra puxar meus pés. Essa cama é virgem, essa casa é virgem, meu hímen se regenerando a cada inspiração. Ninguém bateu à porta pra me visitar. Meu corpo esfriado.

Por que a angústia? Melhor assim. Lembra de tudo que se passou por lá? Teve o menino que quebrou o braço, uns tantos namorados, um monte de inúteis, broxas ridículos, homens pra quem eu nem sequer servi café. Umas quantas fronhas úmidas, noites tristes. Choros estagnados. Uma inércia medonha na vida.

Fico pensando se esse segundo round na vida vai servir pra algo. Quem virá habitar. Quem vai romper meu hímen – que nunca vi, mas parece que um dia esteve em mim – mais uma vez e me fazer sentir como a mais imortal dos humanos. Quem vai molhar minha fronha, minha cama, minha pele. Quem vai fumar querer fumar entre as minhas plantas e voltar cheirando a manjericão. Quem vai sentir o cheiro de erva-cidreira que fica impregnado nas minhas mãos quando cuido do jardim. Que saberá de cor os livros que eu possuo, os discos que eu mais ouço, o jeito que eu me ajeito pra dormir. Que me verá cortando revistas, que saberá reproduzir sem ver cada traço das minhas tatuagens. Que saiba me deixar com vontades e, acima de tudo, administrá-las.
Talvez não venha ninguém tão cedo. Pode ser que eu tire minha roupa sem ajuda, acaricie meu hímen infinitamente sem todavia rompê-lo, posso eu mesma fumar um cigarro e esfregar manjericão nos pulsos. Sei quais são meus livros, os discos que gosto, como prefiro dormir. Não foi necessário ninguém pra isso. Sempre soube gozar sozinha, na cama, no banho, em silêncio, sozinha. Erva-cidreira, cabelo molhado, tudo real, tudo concreto. Não há vômito nenhum dentro de mim, só um sopro que veio do passado, não soube que eu troquei de endereço, não me alcança. Não tem um lado de trás pra olhar, não mais. Não tem ninguém pra liga

Tenho que tomar um copo d’água. Tenho que lembrar, preciso ter certeza disso, preciso saber me convencer: não há vômito, não há. Amanhã é segunda.

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Une Petite Putain

Não sou nem louca de escrever em terceira pessoa. Escrevo putaria pra libertar a mim e aos outros também. Eternamente em busca de pequenos prazeres.
Idade: 20
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