Sábado, 24 Setembro 2016 20:47

Sobre Memórias e Anatomia

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Eu me lembro, é tão improvável mas eu me lembro da primeira vez que eu vi um pênis. Bem verdade, um pintinho recém-formado. Foi no jardim de infância. Uma escolinha pequena, um banheiro só. Eu entrei nele e tinha um menino mijando. Que coisa. Fiquei parada. Observei, tentei entender a situação, não sei quanto tempo se passou, eu estava imóvel, até que uma professora me tirou de lá, talvez fosse inapropriado. Mas eu não tinha culpa, eu estava confusa: antes desse momento eu nunca sequer havia pensado sobre como os homens ou meninos faziam xixi, até porque eu raramente exercia algum convívio com qualquer espécie de macho que fosse. Nem mesmo um cachorro. É bom explicar que eu não tive pai, nem padrasto, vô morto antes d’eu nascer, tio distante, nenhum irmão. Portanto nesse dia tão-claro tão-distante na minha cabeça, da maneira mais orgânica possível, eu entendi porquê havia outro gênero e porquê os pertencentes a ele eram diferentes de mim. Vivi minha vida inteira numa casa de fêmeas puras, onde o assento da privada jamais era levantado. Sempre pelada, sempre chamando de “perereca”, sempre ignorante ao que não fosse próximo das tetas de minha mãe.

Depois desse dia – eu devia ter cinco anos –, só fui ver mais um pinto pessoalmente quase dez anos depois. Na minha primeira vez.

Percebi este segundo com o mesmo espanto que o primeiro – na minha vida nunca fiz nada pela metade: nenhuma punhetinha, nenhum “mostra o teu que eu mostro o meu”. Foi tudo assim, de uma vez só. A percepção de que é mole e depois fica duro, o lugar onde ficam os testículos, qual o cheiro, o gosto, a textura da pele, como tocar na cabeça sem machucar. O que eu sabia vinha puramente dos livros de Biologia que eu amava tanto na escola. Cópula de gorilas, de cavalos, de grilos, qualquer uma eu sabia, menos a humana. Então por que mesmo eu senti vontade de transar, tão de repente, sem nenhum estímulo prévio? Foi tudo Biologia mesmo.

Eu bebi (isso eu já fazia), eu conheci um menino. Tudo mesmo dia. Nos beijamos. Não tinha beijado mais que três meninos além dele. Mas beijei forte, ainda aprendendo o próprio beijo, querendo entender porque as pessoas gostam tanto de ter outra língua em cima da própria, feito duas lesmas cegas. Senti uma contração entre as pernas, já tinha sentido antes, aleatoriamente, vendo um filme, qualquer coisa. Mas senti essa contração enquanto estava com outra pessoa então parecia haver razão de ser. Inclusive parecia mais interessante que o beijo em si, quis conhecê-la melhor assim que a notei. Ela protagonizava o momento como estrela em ascensão, brilhante, jovem, cheia de coisas pra contar.

Ele disse pra gente ir pra um quarto. Me pareceu bom. Já naquele dia eu percebi que beijar alguém não me satisfaz, eu só não sabia o que eu precisava. Mas estava curiosa, queria saber mais, queria entender mais de mim. Ele tirou a roupa (desnecessário dizer que era a primeira vez que via um homem nu), a minha, ele até tinha uma camisinha – decerto seu pai lhe deu. Eu não sabia como ia ser e certamente ele também não. Estávamos entre iguais. Pelados, atônitos, pulsantes, mas ingênuos. Ele deu um jeito de entrar, entrou. Não entendi porque diziam que dói. Não doeu nada. A contração se manteve acima de qualquer estranhamento que eu tivesse com o objeto estranho. Foi óbvio, óbvio que foi rápido. Não gozei, óbvio que não, eu mal sabia beijar, como teria gozado? Me vesti, fui ao banheiro. Estava sangrando, parecia uma menstruação, mas o motivo era outro. Eu vi meu sangue escorrendo pela calcinha, mas até sorri. Coisa boba, me senti orgulhosa. De quê, não sei. Não foi nada de mais, mas mudou algo em mim. Como se eu tivesse completado o primeiro ciclo: entender a constituição básica de um homem. Saber sua anatomia. Saber por quê agem e porque eu ajo também. Me lembro de, horas mais tarde, sentir o vento sereno da madrugada bater no meu rosto. Era a primeira vez que eu sentia frio naquele ano. O vento congelou minha expressão. Eu ainda sorria. Boba. Mas de fato algo mudou em mim naquele dia.

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Une Petite Putain

Não sou nem louca de escrever em terceira pessoa. Escrevo putaria pra libertar a mim e aos outros também. Eternamente em busca de pequenos prazeres.
Idade: 20
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