Quinta, 09 Junho 2016 10:32

Sinhazinha Juliana

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-Maria Rosa, já preparou meu banho?

Ela não gostava que a chamassem assim...Queria ser chamada de Rosinha. Era mais íntimo, mais carinhoso... Era uma mulata, miúda, bonita e muito esperta. Aprendia tudo logo de primeira. Ela havia nascido em 1878, depois da Lei do Ventre Livre, não era escrava, mas para seus pais e dois irmãos nada havia mudado, permaneciam na casa onde já serviam desde o tempo do Coronel Ramiro, pai de Sinhá Ana. Havia muito respeito, muita amizade entre eles.

Sinhazinha Juliana nasceu quando ela tinha acabado de fazer quatro anos, em 1882. Ficou maravilhada quando mostraram aquela bonequinha embrulhada numa manta cheia de rendas e fitas. E passava a maior parte do tempo junto dela.

-Maria Rosa, vá pegar mais fraldas para Juliana...
-Maria Rosa, a chupeta caiu...
-Maria Rosa, balança o berço...

E o tempo foi passando e Sinhazinha Juliana crescendo cada vez mais bonita e prendada. Era filha única. Sua mãe não gozava de muita saúde, desde o nascimento. Vivia acamada, mas não se descuidava da educação da filha. Ela tinha uma professora que ia em casa ensinar a ler, a escrever e a contar. Aprendia também a fazer rendas de todos os tipos, tinha aulas de canto, de francês e sempre achava um tempinho para aprender a fazer quitutes com Nhá Joaquina, a cozinheira negra que vivia sorrindo e cantando. Maria Rosa estava sempre em sua companhia e também aprendia alguma coisa.

Quando estava com dezesseis anos, sua mãe faleceu. Uma tosse constante, falta de ar, sangue no lenço. Tuberculose. Foi uma tristeza só. Seu pai Juventino era a desolação em pessoa. Eles se amavam muito. Haviam casado por amor. A primeira vista. E eram muito companheiros.

Mas o tempo é um grande remédio. Aos poucos, a rotina doméstica voltou. Os empregados davam conta do que era preciso para que nada faltasse ao pai, à filha e à casa. E já se cogitava de arrumar um pretendente para Sinhazinha Juliana. Volta e meia, ia a algum sarau onde pessoas tocavam piano, outras cantavam, outras ainda recitavam poesias. Um ou outro rapaz comparecia.

Em um desses saraus, na casa de um compadre de seu pai, apareceu um rapaz de fora. Engenheiro. Estavam construindo muitos açudes no interior do Estado e ele havia sido contratado. Queria casar com alguma moça prendada do lugar. E as coisas foram arranjadas rapidamente. Ele se encantou com Sinhazinha Juliana. Encontraram-se umas poucas vezes. Havia pressa. O pai Juventino concordou com o casamento, fez gosto. Afinal, o pretendente era doutor. Onde encontraria outro naquela cidadezinha onde nada acontecia de novo? Sinhazinha Juliana também consentiu, achando que havia sido abençoada pelos santos. Afinal, ele não era nenhum coronel velho e barrigudo...

E assim, aos 18 anos de idade casou e foi morar numa cidade no sertão do Rio Grande do Norte, no ano de 1900. Maria Rosa, já com 22 anos, a acompanhou. Quando chegaram na casa onde iria morar, depois de uma viagem longa e cansativa, a decepção. A casa, antiga sede de uma fazenda abandonada, apesar de grande, estava praticamente caindo aos pedaços. Havia muito o que fazer. Seu marido chamou alguns caboclos para ajudar na limpeza e no conserto do que pudessem fazer e ela e Maria Rosa também trabalharam vários dias para dar uma aparência decente nos aposentos principais, colocando enfeites, usando várias peças de seu enxoval. Foi o seu batismo como mulher casada. Aos poucos, depois de algumas semanas, com a supervisão de seu marido, a casa ficou em melhores condições de ser habitada. E ela descobriu que estava grávida.

Durante a gravidez, teve que aprender a atirar de espingarda. Por causa dos bandos de cangaceiros e por causa das cobras. Principalmente porque ela iria parir e as cobras sentiam o cheiro do leite e muitas vezes iam mamar no próprio peito da mãe. E assim, aprendeu a atirar, como aprendeu a dirigir a casa, a cozinhar, a costurar as roupas que seu marido usava e, quando a criança nasceu, aprendeu a ser mãe.
Maria Rosa ajudava no que sabia, mas logo seu corpo jovem se ressentiu da falta de um homem que o satisfizesse. E encontrou um caboclo com quem se amasiou.

O marido quase não aparecia. Como a obra do açude era longe de onde morava, ficava mais tempo lá do que em casa. A cada ano, passava poucos dias, o tempo suficiente para deixar mais uma semente no ventre de sua mulher. Com o passar do tempo, de repente começou a prestar a atenção em Maria Rosa. Continuava tão bonita como sempre fora e, como não havia tido filhos, seu corpo continuava jovem e atraente. Sempre trazia algum agrado para ela quando chegava de viagem. E ela ficou deslumbrada. Já não ajudava tanto Sinhazinha Juliana porque gostava de ficar perto do patrão. E ele começou a ficar mais tempo em casa.

E assim se passaram sete anos. Sete filhos. E Sinhazinha Juliana cada vez mais atarefada com os afazeres da casa e com a criação dos filhos. Passou duas vezes pela experiência de atirar em cobras quando estava de resguardo na cama e, em outra vez, quando ouviu barulho de vários cavalos, à noite, dentro de suas terras, deu vários tiros para afastar quem estivesse rondando.

Estava cansada de tantos afazeres, de tantas preocupações com os filhos e do desinteresse do marido pela família que, além de tudo, estava bebendo cada vez mais. Mas o que, na verdade a entristecia muito, era o distanciamento de Maria Rosa. Já não conversavam como antigamente, já não a ajudava tanto, estava estranha. E ela sentia-se muito solitária. Olhava-se no espelho e não reconhecia a Sinházinha Juliana de olhos vivos, cabelos brilhantes e bem penteados, cinturinha fina, seios empinados... feliz. Via uma mulher com o corpo gordo desenhado pelas muitas emprenhadas, seios caídos, olhar cansado de muitas noites mal dormidas... infeliz. E só estava com vinte e oito anos...

Sempre ouvia a cantoria de Maria Rosa no terreiro. Cantoria de quem estava feliz. E certa vez, para sua surpresa, ouviu o marido chamando-a de Rosinha.
Muitas vezes procurava por ela para fazer alguma coisa mas ela nunca estava. Nem ele. Começou a ouvir ruídos de vozes, risadas. A princípio achou que poderia ser no alojamento dos empregados. Mas isso nunca havia acontecido antes. Reparou que nessas horas nem Maria Rosa, nem seu marido estavam por perto. Havia sempre tanto a fazer dentro de casa e com aquele bando de crianças, que suas cismas eram deixadas de lado. Sentia-se desprotegida. Havia rumores de que bandos de cangaceiros invadiam as propriedades. Passou a viver dentro de casa com a espingarda à mão.

Numa noite em que todos dormiam, ela acordou com um barulho diferente, de pancadas, de gritos abafados, de choro. Os cangaceiros! Onde estava o marido? Havia saído da cama... Será que era ele que estava apanhando? O que queriam os cangaceiros? Pegou a espingarda e, no escuro, foi se encaminhando para onde vinha o barulho. E as pancadas continuavam. Vinham do quarto dos fundos. A escuridão era total. Não dava para ver nada. Ela caminhava com passos firmes porque conhecia o trajeto. Quando abriu a porta do quarto viu vultos enroscados na cama e atirou, uma, duas, muitas vezes. Os barulhos cessaram. Acendeu um lampião.

Esperou o dia clarear, chamou um empregado e mandou que fosse avisar a polícia de que a casa havia sido atacada por alguns cangaceiros, que atiraram quando o patrão foi averiguar o barulho e tentou defender a empregada da casa.

Na cama, três corpos. De Maria Rosa, do companheiro de Maria Rosa e de seu marido. Capado.

Lido 598 vezes Última modificação em Sexta, 10 Junho 2016 00:31
Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

2 comentários

  • Link do comentário Cristina Leão Quinta, 06 Outubro 2016 13:37 postado por Cristina Leão

    Difícil falar somente da delicadeza das palavras, ou, quem sabe, da agilidade da narrativa. Talvez também destacar somente o gatilho (ops!) sempre presente e que prende o leitor paras as linhas seguintes. Uma trama feminina que se desloca de outro século e se faz presente em 2016 com seus conteúdos emocionais ainda tão atuais. No entanto, o que vem lá de trás e pode surpreender, especialmente aos que hoje têm 18 anos, é o tanto que havia de ser vencido e superado para ir minimamente adiante num projeto de vida. Amei a presença das cobras, do cheiro de leite e do rifle sempre engatilhado vestindo as metáforas cruas do relacionamento e da sobrevivência. A história é linda e perfeita. Dá vontade de saber da saga, das vidas que ficaram. Quero mais dessa!

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  • Link do comentário LUIZ GUILHERME Domingo, 14 Agosto 2016 17:18 postado por LUIZ GUILHERME

    Um conto bem elaborado, criando suspense. Achei que o final poderia continuar aguçando mais a curiosidade do leitor. Parabéns

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