Sexta, 30 Setembro 2016 03:43

O Dragão e a Serpente

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Certa vez ouvi de um velho cavaleiro, algo que gostaria de recontar a vocês, talvez não me lembre bem dos detalhes, mas garanto a todos uma boa história.

Há dezenas de milhares de anos atrás, em um reino um tanto distante havia um grande Dragão, ele voava principalmente por perto das montanhas, mas nunca tocava no chão. Seu voo eterno era assustador. Dia e noite sem cessar.

Eram tempos difíceis, numa época governada por reis extremamente egoístas.

O Dragão vez ou outra dava um rasante, baixo o suficiente para levantar poeira, alto o suficiente para não ser atacado.

Suas enormes asas cobriam a terra a baixo de si com sua sombra. Alimentava-se de sol e hidratava-se da chuva.

Havia também uma serpente, um tanto maior que as demais, de semblante assustador e presas peçonhentas. Era a última da espécie das serpentes venenosas gigantes.

Nenhum outro animal era corajoso o suficiente para se aproximar da cobra e ninguém confiava nela a ponto de acreditar em suas palavras.

Ela estava vivendo solitária no mundo.

Um dia, enquanto voava, o Dragão avistou aquele ser esguio por entre as pedras e a falta de temor dele despertou no Dragão muita curiosidade. Voando em círculos e diminuindo a distância entre eles, fitou-a então com seus olhos cor de esmeralda e ela, por sua vez, fingiu não vê-lo – como se isso fosse possível.

O Dragão, muito incomodado com a dissimulação da serpente, bradou com sua voz estrondosa “Quem és tu, pequeno ser que finge não me perceber?”. A serpente, então, levantando a cabeça em direção aos céus respondeu-lhe “Sou apenas um ser amaldiçoado, que vagueia pela terra esperado por meu fim.”

As escamas do dragão reluziam como ouro abaixo do forte sol, era não mais que duas da tarde, e o calor solar nutria o fogo interno da fera. A serpente por sua vez esgueirava-se pelas sombras para evitar queimar sua pele recém trocada.

O Dragão, agora com uma voz mais branda, disse “Se a terra não fosse tão podre e cheia de pecados, eu me atreveria descer e vê-la mais de perto.” A cobra se sentiu pela primeira vez lisonjeada, ela conhecia a lenda do ser alado, era o único de sua espécie e jamais havia tocado seus pés no chão.

Seus olhos nesse momento brilharam de emoção.

O Dragão, ainda voando, comentou com muita sapiência “vejo nos teus olhos que gostaria de voar ao meu lado, que me inveja por eu ser capaz de estar por sobre os problemas do mundo e também por eu ter escamas mais belas que o próprio Sol”.

A Cobra serpenteou por entre os galhos secos de uma árvore e alcançado sua copa fitou os olhos do Grande Dragão. Numa tentativa de exibir todo seu poderio, O Monstro Colossal urrou e cuspiu fogo para o céu logo a cima. Seu grito gutural reverberou por toda montanha, acordando todos os pássaros que viviam ali. Alvoraçados os animais começaram uma fuga, e junto disso o antigo vulcão adormecido despertou.

A Serpente vendo a erupção romper a terra se viu temendo que seu dia tivesse chegado, logo hoje que encontrara o sentido de sua vida, que era conquistar aquela Besta Alada.

O Dragão assustado com a consequência de seu exibicionismo disse rapidamente “Estique-se o mais alto que puder, não quero que morra por minha inconsequência nobre amiga”. O peso da palavra amiga dita por um Dragão que vivera sozinho por milênios fez com que a Serpente não conseguisse reagir.

Num rápido rasante, o Dragão esticou suas patas grandiosas para pegar sua amiga da terra, pela euforia do momento mal percebeu sua pata traseira e calda tocarem o solo seco. A Cobra ainda encantada com as palavras abocanhou a pata dianteira do Dragão e pela primeira vez na vida se desprendeu totalmente do chão.

Junto de sua mordida, sem ter intenção, a serpente inoculou veneno na pele por entre as escamas do Dragão. Depois de mais de dez minutos de voo o Dragão aterrissou.

Pela primeira vez em toda a história.

A Serpente, então, se pôs a chorar vendo que acabara de injetar todo seu veneno em seu único amigo.

Pela primeira vez em toda história ela sentiu medo.

Lamentou-se e pediu aos deuses do céu, da terra e do mar misericórdia para seu amigo. O tempo fechou-se por completo e uma grande tempestade começou.

Todo mal foi varrido da terra e todo orgulho foi diluído no céu.
Depois desse dia a Serpente aprendeu a temer e o Dragão não mais conseguiu voar.

Nunca mais foram sozinhos no mundo, tinham um ao outro.

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O Corvo

Nascido nas Minas Gerais, O Corvo é um contista e contador de histórias que tende ao horror e suspense, mas se aventura vez ou outras nos caminhos românticos. Com 22 anos ele é vendedor de materiais de construção e Estudante de Engenharia Civil busca na literatura uma forma de terapia para aliviar o estresse diário. O horror abordado em seus contos fica limitado apenas às páginas que escreve, na verdade sempre foi muito apegado à família, namorada e amigos.

É muito eclético musicalmente (escuta todos os tipos de rock), adora os contos de Edgar Allan Poe, Séries de TV, é jogador de RPG e nunca se adaptou bem a esportes.

Acredita que o mundo pode ser melhor, mas está tentando melhorar a si mesmo para comprovar sua teoria.

E-mail: escritorcorvo@gmail.com

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2 comentários

  • Link do comentário O Corvo Terça, 04 Outubro 2016 11:12 postado por O Corvo

    Satisfação em saber que o texto foi do seu agrado. - O Corvo

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  • Link do comentário Nelson Lyra Segunda, 03 Outubro 2016 19:04 postado por Nelson Lyra

    Gostei muito do seu conto, meu caro Corvo. Simples, original, bonito.

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