Sábado, 01 Outubro 2016 21:50

Como Assim?

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Ela é uma tia muito querida. Apesar de já ser idosa, não parece a idade que tem, não só fisicamente, como também pelo seu estilo de vida. Faz Pilates, anda pelas ruas de seu bairro, faz compras, faz aulas de meditação, estuda piano e está sempre antenada e pronta para novos desafios. É viúva.

E participa de todas as comemorações de família. Aniversários, nascimentos, casamentos, enterros, todas. Não só ela, mas seus filhos e netos também. Criou-os dessa maneira e, por causa disso, são muito amigos, há muita intimidade entre todos.

Em casa, dois filhos moram com ela. São todos muito carinhosos, gostam de abraçar, de beijar, de estar juntos. E de tomar conta da vida uns dos outros, principalmente se algum estranho resolve se interessar por algum deles.

Os filhos são muito ciumentos, embora não possam impedir nada que sua mãe resolva fazer. E brigam, e discutem, e criticam e, assim como não querendo nada, ficam de olho, protegem.
Cismaram com o afinador de piano.
–Não se enxerga não?
-Sua mãe é linda, não é?
-Quem é ele para falar assim...???
No dia em que ele combinou de levá-la em seu carro para escolher e comprar outro piano, foi um Deus nos acuda.
-Você vai no carro sozinha com ele?
-Que coisa mais ridícula...por um acaso sou alguma virgem indefesa??

Um dos filhos é muito engraçado. Inventa pessoas ou situações, faz uma historinha e as pessoas acreditam.
Aí, ele mesmo não aguenta muito tempo, cai na risada e desfaz a brincadeira.

Enfim, os primos, principalmente as primas, brincam com ele sobre a mãe que merece ter um namorado, que ainda tem muito amor pra dar, etc., e ele coloca os dedos nos ouvidos, fica cantarolando para não escutar... E depois, todos caem na risada.

O Natal da família do marido é numa galeria de arte de uma das sobrinhas. Eles brincam entre eles que os descasados, se quiserem participar, não podem ficar no térreo, onde acontece a comemoração. Tem que ficar no segundo andar, tipo uma quarentena. Já tem duas candidatas.

Uma delas, há uma semana, visitou a tia e vendo o piano pediu para ela tocar alguma coisa. A tia tocou, ela gravou e colocou no whatsapp, no grupo da Família.

E, então, a proporção que o vídeo ia sendo assistido, começaram os comentários (várias sobrinhas):
-Demais essa pianista!
-Morri!!! Amei tia!!!
-Uauu, além de ser uma ótima mãe, avó e amiga a pessoa ainda é escritora, pianista...Uma grande mulher!
Aí, entra um dos filhos, aquele brincalhão:
-Mulher apaixonada toca com mais alma...
-COMO ASSIM? Queremos saber quem é o felizardo!!!!
-TIA Você é demais!!!! Super poderosa!
-Que romântico!
-Tá na berlinda, tia!
-Sim, queremos saber, quem é o felizardo??
O filho: Eu não quero saber
Só sei que tá difícil...
-Mas nós queremos!!!! Tem que passar no crivo familiar.
O filho: Esse vai pra laje da galeria, no Natal
-Boa!!!
-Isso mesmo, precisamos aprovar. Estou lá pelo segundo andar mesmo
-Eu vi a foto da pessoa em discussão. Aprovei. -Vixe!!!! Agora a curiosidade geminiana aumentou!!!
-Tia vai te pegar de jeito, primo
O filho: Vou botar uma de vocês na laje com o dito cujo
-Faço companhia
O filho: Tô achando que esse Natal vai ser tenso.
-Passamos na laje para fazer uma visita
-Assim como quem não quer nada
O filho: Visita guiada. Tipo instalação da galeria
-Boa
-Perfeito
-Com direito a explicação em diversos idiomas...
O filho: Não é porque o digníssimo tem apto em Paris que eu aceito essa situação.
-Estou rindo sozinha, imaginando as explicações. Tem coisas inexplicáveis!!!
-A aprovação tem que ser total
-Tô vendo seu silêncio Tia !!!! Qta bobagem, né?
-Tia precisamos aprovar, você é muito especial...
O filho: Só queria ver se fosse a mãe de vocês que ficasse suspirando pela casa, falando baixo no celular, rindo por qualquer coisa, assistindo novela mexicana na TV e achando lindo...se vocês iam apoiar
-Sinceramente?
-Simmmmmmmmmm!!!!
-Tá com ciúme!!!
-Uau, (uma sobrinha entrando na conversa) estou gostando dessa novidade !!!

O filho: Nesse Natal, eu vou pra Maricá
-Troca, vai para Paris!
-Primo, eu vou jantar e a tia vai comer seu fígado!!!
O filho: Minha mãe não está falando por que está se vestindo para sair com o...Ainda disse que não sabe a que horas chega e se chega ainda hoje...tá puxado!
-Pronto, agora vc se rasgou!!! Kkkkk
-Que ciumeira!!!
-Lascou!!!!
O filho: Lascou mesmo. Vou tomar um dormonid com cachaça. Assistir a mãe cantarolando, saindo e batendo a porta...não é fácil!
-Ê vida marvada!!!
-É a tal da modernidade!!!
O filho: Só não entendi a música “we are the world”
-É melhor do que “....é o amoooooorrr”
-Toda forma de amor vale a pena...
-Gente, entrei agora no bafo! kkk (outra sobrinha)Adorei saber do romance, mas quando a tia tiver um tempo, queremos a versão dela. A do primo está muito ácida...E a foto? Como assim? Tem que mostrar pra todo mundo kkkk
-Também estou curiosa!!!
-Paris é, primo? Tá ruim não! Você queria o quê? Maricá?
-PARIS...C’est si bon..

A tia resolve entrar na conversa depois de rir muito:

-Minhas queridas e amadas sobrinhas... Vocês são demais. Curiosidades a parte, sei que vocês torcem por mim, pela minha felicidade mas, nesta verdadeira novela, aconteceu mais uma historinha do primo de vocês que se deixou impressionar pelos dois últimos versos da última estrofe de um poema que fiz, “A saga do amor possível”. Onde digo que “ela ama o amor novo imprevisível sabendo, entretanto, que só poderá amar na forma do amor possível”. Ciúme... ciúme... Se algum dia acontecer, com certeza vocês serão as primeiras a saber. Também amo demais todas vocês, minha querida família.

Essa reação das sobrinhas mexeu com ela. Percebeu como elas identificam a mulher que ainda há por trás da tia...Essa mulher que preferiu silenciar, que preferiu se omitir, traumatizada por tantos momentos dolorosos e resolveu se dedicar apenas a família e aos amigos.

Tem uma família maravilhosa, muitos sobrinhos, algumas amigas antigas, amigos novos e queridos, já viajou por lugares tantas vezes sonhados, mas, ainda há um mas... um vazio que não está sendo preenchido.

Sente falta de alguém para admirar e ser admirada, compartilhar detalhes, momentos e emoções. Quer resgatar momentos interrompidos, sentir seu corpo e seu coração revivendo.

Mas sabe que na rotina em que vive, que ela mesma planejou, não terá nenhuma chance...

Está ansiosa, sabe que sua vida e as de seus filhos vão sofrer uma transformação, mas está decidida. E toma uma resolução.

Algum tempo depois, quando os filhos chegam de uma pequena estadia no sítio de uma prima, encontram a casa vazia, uma série de recomendações e um bilhete da mãe:

“Filhos queridos,
O tempo passa num piscar de olhos e me dei conta de que hibernei por muito tempo. Vou aproveitar para viver a vida que me resta. Entrei num cruzeiro especial que dá a volta ao mundo com duração de um ano.

Vou conhecer outros lugares, naturezas diferentes, outras maneiras de viver a vida, outras culturas...
Conhecer outras pessoas, com suas histórias pessoais, suas experiências, suas expectativas...

Quem sabe não terei a chance de encontrar alguém que esteja também a minha procura? Tenho que dar uma chance ao destino, à sorte...
COMO ASSIM? Vocês devem estar se perguntando.
Com o direito que tenho de procurar ser feliz.”

O ano que passou viajando no cruzeiro foi tudo como ela previu que seria. Conheceu muitos países, muitas pessoas, outras realidades. E seu coração voltou a bater mais forte. Se encantou por um português, viúvo, que conheceu no navio. O filho e dois netos, um rapaz e uma moça, também estavam no cruzeiro. A nora havia falecido de um câncer fulminante e terminal há um ano. Eram todos muito afetuosos uns com os outros. Resolveram viajar para procurar novamente o equilíbrio emocional, uma rotina normal. Imediatamente houve uma empatia muito grande entre todos eles e ela. Conversavam muito, desabafavam uns com os outros, se ajudavam, riam, participavam das atividades do cruzeiro e estavam sempre juntos quando desciam para conhecer algum outro lugar.

Foi nascendo uma intimidade gostosa. Prazer na companhia. Conversas sobre assuntos de interesses mútuos, família, maneiras de viver, de sentir... E, naturalmente, surgiu o convite para passar um tempo na casa deles em Portugal, em Lisboa, antes da volta ao Brasil. Queriam se conhecer melhor, no dia a dia.

Moravam todos juntos, desde a morte da mãe, numa Quinta nos arredores de Lisboa. Tinham um bom padrão de vida. Todos. Mas ele ainda sentia falta de uma companheira. E estava cada vez mais encantado com ela. E ela com ele. Nem se preocupavam com a diferença de idades. Ela era oito anos mais velha do que ele,mas sempre pareceu mais nova. Depois de um mês, voltou para o Brasil. Que saudades que estava dos filhos, da família! Os dias eram poucos para metabolizar tantas novidades, tantas mudanças.

Dois meses depois, ele chegou com seu pequeno núcleo familiar para conhecer a família dela. Haviam-se falado quase todos os dias. A saudade era muita. Afinal, haviam convivido por mais de um ano. Deram-se muito bem, ele, filhos e netos com os seus. Vieram na época do Natal. E conheceram grande parte da família porque foram convidados para todos os Natais.
E ele foi aprovado. Passou pelo crivo familiar, o que não foi pouca coisa...

Ele voltou para Portugal para agilizar os papéis do casório e para planejar uma bela recepção, mas deixou no solo brasileiro a semente da promessa de um belo intercâmbio entre as famílias.

Depois de acertar todos seus negócios no Brasil, ela embarcou com sua família para a cerimônia de seu casamento, para seu novo lar , para sua nova vida.

E tudo isso só aconteceu, porque o filho, ao ver a reação das primas assistindo ao vídeo da mãe tocando piano, inventou mais uma de suas historinhas:

- Mulher apaixonada toca com mais alma...
- COMO ASSIM? ..........

Dessa vez, embora ainda ninguém soubesse, sua historinha desencadeou uma série de questionamentos e ações que foram o prenúncio do que viria acontecer...

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Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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2 comentários

  • Link do comentário Suzana da Cunha Lima Segunda, 03 Outubro 2016 22:22 postado por Suzana da Cunha Lima

    Oi Chris
    Historinha deliciosa, bem ao gênero do Rodrigo. Tanto fez e inventou que acabou acontecendo.
    E eu desejaria de coração que acontecesse mesmo, mas você fez suas escolhas que, em parte, transformou-se em armadilha. Daquelas que a gente arma sem querer, por amor à família e à união. Claro que armadilhas podem ser desarmadas, mas sinto que há algum tempo, você começou a pensar mais nisso e já, já, seus caminhos vão se desbloquear e você vai perceber que existe vida inteligente e muito amor para dar e receber. Se você vai encarar, aí é com você, somente com você. Esta ciumeira dos meninos vai acabar logo quando virem você feliz.

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  • Link do comentário Andrea Domingo, 02 Outubro 2016 01:25 postado por Andrea

    Adorei! Desejo que tudo aconteça...
    Bjs

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