Quinta, 06 Outubro 2016 12:36

Conto de Paris - Parte I

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Foi em um café charmoso a margem do Sena que Margot e Charlotte se conheceram. Margot reclamava com um garçom sobre o açúcar que havia pedido há trinta minutos e ainda não havia chegado. Sentadas em cadeiras próximas, iniciaram uma conversa despretensiosa. Em pouco tempo, as duas mulheres encontraram bem mais pontos em comum do que poderiam esperar de início. Todas as sextas feiras, se encontravam para tomar um café e depois saíam para caminhar.

Charlotte era a mais nova. Mulher de temperamento forte e agitado, saiu da casa da mãe cedo para realizar seu maior sonho: demonstrar a potência e a importância das mulheres no terreno do pensamento. E deixar sua marca no mundo; ansiava muito por isso. Sua mãe era proprietária de uma fazenda e dela tirava o sustento de toda a família, destinando uma parte do dinheiro para o sustento de Charlotte na cidade grande. Ela, apesar da pouca idade, sabia se virar muito bem e se defender do mundo. Não se curvava e nem temia a ninguém. Morava em um apartamento pequeno e aconchegante no coração de Paris. Assim que se mudou para a cidade e iniciou os estudos de Filosofia, decidiu entrar em um grupo de debates e rapidamente se destacou por suas ideias e argumentos.

As duas mulheres se encontravam frequentemente e tinham seus rituais: dançar, comer, beber e conversar. Margot também tinha grande talento para o pensamento e ajudava Charlotte com suas questões filosóficas. Seu desejo era que a jovem estudante se destacasse pelos seus próprios talentos. Pouco tempo se passou até que Margot se tornasse uma referência para a nova parisiense: admirava sua independência e desenvoltura.

Margot administrava uma casa de espetáculos, que ela havia ajudado a erguer. Sempre inserida no meio das artes, trabalhou como atriz e dançarina em um teatro por muitos anos até decidir alçar um vôo maior. Emancipada desde muito nova, lutou muito para ser uma mulher independente. Era muito próxima de dois dos homens com quem trabalhava no teatro. Ignorando todos os comentários maldosos feitos pelos demais colegas de trabalho, Margot e seus dois amigos, com quem mantinha excelente relacionamento, decidiram formar sociedade. Compraram um edifício e nele inauguraram uma casa de espetáculos. Era impossível ignorar tão imponente construção no mais bem frequentado arrondissement de Paris. Muito bem sucedidos na empreitada, os três sócios se tornaram empresários de muito prestígio e destaque social.

Depois de alguns anos muito prósperos para o teatro, o telefone de Margot tocou no meio da madrugada com a pior notícia que ela poderia esperar ouvir. Seu teatro fora alvo de um incêndio criminoso. Imediatamente, um inquérito policial foi instaurado para apurar as causas do incêndio. Num primeiro momento, as suspeitas, inevitavelmente, recaíram sobre os funcionários do próprio teatro e a investigação perdurou por algumas semanas.

Ellis tinha aproximadamente a mesma idade de Margot. Em outras épocas, faziam parte da mesma companhia de dança e dividiam as coxias. A vida se encarregou de afastar naturalmente as duas mulheres. No entanto, marcou-lhes com dois destinos muito diferentes. Margot ascendeu rapidamente na hierarquia social, tornando-se uma mulher bem posicionada e bem quista. Ellis sentiu-se esquecida, desdenhada. Com o passar do tempo e diante da falta de recursos, viu-se obrigada a ganhar a vida por meios escusos. O seu ressentimento interno com a velha amiga, a vida, o mundo e o seu modus operandi levaram-na a atos impensados. Uma situação mal resolvida do passado unia as duas mulheres. Era a hora do acerto de contas. Ellis fora a responsável pelo incêndio do teatro.

Logo após o incidente, Margot se recolheu em seu apartamento por dois dias seguidos. No terceiro dia pela tarde, Charlotte resolveu trazer tarte tatin e conferir como está sua amiga. A jovem estudante subiu as escadas e bateu duas vezes com a peça de metal da superfície da porta do apartamento. Longo abraço. Charlotte fez de tudo, até a noitinha, para diminuir o pesar de sua amiga. Adormeceram. As duas da manhã, um disparo furou o silêncio.

Desceram para saber o que estava acontecendo e encontraram Abdul, o porteiro, caído no chão, ensanguentado. Encontraram-no a tempo de salvá-lo. Mesmo ferido, Abdul descreveu o ocorrido. Uma mulher de estatura média e trajes simples se posicionou do outro lado da rua, em cima de uma mureta, com a arma apontada para a janela de Margot. Vendo o que acontecia, Abdul berrou e correu em direção a mulher. Assustada e com medo de ser pega, atirou em um dos braços do porteiro e fugiu. Margot empalideceu ouvindo a história de seu quase-assassinato. Felizmente, havia sobrevivido e Abdul também.

Não demorou muito até que os investigadores chegassem à conclusão de que Ellis fora a responsável pelo disparo. A ligação entre o incêndio e a tentativa de assassinato era clara. O que ainda não estava claro para os policiais era a razão que motivava tal perseguição. O que faz com que uma pessoa se submeta a uma punição certa senão um forte motivo?

Ellis e Margot eram muito próximas nos seus dias de dançarina. As duas mulheres tinham um plano de construir uma casa de espetáculos. Sonhavam com os espetáculos que iam produzir, com o público lotando cada peça. Era um sonho em dupla. Era o que achava ellis. Ao fim de alguns anos, Margot se uniu a outras duas pessoas, levou o sonho adiante, concretizando-o e colhendo os frutos de seu investimento. A outra havia sido deixada de lado e sentiu-se fortemente traída. Não houve crime - pois jamais houve um contrato assinado entre as partes - mas para Ellis a conduta da jovem empresária foi uma grande traição. As duas jamais voltaram a se falar, apesar das investidas despercebidas da amiga rejeitada. No entendimento de Ellis, Margot havia lhe roubado. Roubado seu sonho, roubado a chance de ter uma vida digna, a vida que aspirava. Com o passar do tempo, a mágoa na direção de Margot só se aprofundou e o seu sofrimento turvou permanentemente seus pensamentos, culminando nos atos inconsequentes daquelas madrugadas.

Lido 323 vezes Última modificação em Quinta, 06 Outubro 2016 21:28

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