Terça, 11 Outubro 2016 12:42

A Salvação de Dario P.

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E o silêncio da noite foi cortado pelo latido dos cães enfurecidos. Eu já estava deitado. O corpo estirado na cama e o pensamento focado em Suzana quando o vento resolveu mimetizar os cães e uivar na minha janela. Eram duas horas infiltradas na primeira madrugada do horário de verão na reta final daquele ano interminável.
Os limites sonoros para um tranquilo passeio com Morfeu ainda estavam dentro do que qualquer mortal poderia considerar ‘suportável’ quando um carro resolveu estacionar na porta de casa e o rádio ligado insistiu em continuar com aquele funk carioca dos infernos ligado no último volume. Cães, Suzana, vento e funk carioca. Resolvi levantar. Vesti uma bermuda florida e sem bolsos, uma camiseta amarela velha, mas de pouco uso, lembrança do pentacampeonato mundial de futebol, a sandália com fecho de velcro e saí de casa sem me importar com os assuntos discutidos no último salão de moda de Paris em voga nos noticiários da televisão em tempos com falta de assunto. Daquele jeito mesmo, sem lenço e sem documento. Quem afinal notaria algo de errado na minha vestimenta ultramoderna em plena madrugada de Domingo para Segunda? Rente à calçada o carro que divulgava o mais novo hit do funk carioca servia também de motel para um casal de namorados. Não deu para ver direito, mas percebi pelo vulto de amassos censuráveis, pernas, braços e outras partes que era a filha da vizinha e um rapazola qualquer da periferia com seu Chevette prateado de vidros insulfilmados para o simulacro de uma semipenumbra. Balancei a cabeça e segui pelo meio fio, testemunhado apenas pelos postes de luz que iluminavam o asfalto. Segui o som incessante dos cães que para mim haviam presenciado algo que muito os incomodavam. Subi a ladeira e ouvi o apito do guarda noturno ao longe. Uma ou duas vezes, apenas. Depois o som da motocicleta e aquele som inconfundível do apito desapareceram como por mágica. Teria recebido a mensalidade de um último contribuinte da rua ou, quem sabe, abduzido por uma nave extraterrestre. Porém minha única preocupação naquele momento era com a ladeira íngreme e meu condicionamento físico vencido. Também com o desodorante que ficaria vencido antes de eu chegar à metade da ladeira. Para a minha sorte, ouvia o latido dos cães cada vez mais perto. Estava no rumo certo. A curiosidade era capaz de enfrentar qualquer cansaço ou perigo oferecido às baciadas pelas ruas desertas do meu bairro. Mais adiante, uns cinquenta metros, um vulto atravessado destacava no meio da rua. Ao aproximar pude perceber o corpo de uma mulher. Não toquei, apenas observei, mas aquele corpo estava inerte e visivelmente sem vida. Não era o de uma festeira qualquer que acabou de beber em demasia e caiu sem forças no meio do asfalto. Coberto por um vestido longo de um vermelho que camuflava a mancha de sangue no peito fora abandonado pelo algoz sem qualquer cerimônia. Olhei para trás e para os lados em busca de algum movimento ainda que insuspeito. Nada. Os cães invisíveis latiam com mais força ao sentir minha presença. Mas eu estava ali quieto, sozinho, apenas olhando para um corpo inerte atravessado no meio da rua e com alguma história para contar. Certamente contaria, mas aos investigadores de plantão, não a mim. Leigo das técnicas criminológicas não saberia apontar a direção de onde partiu o projétil. A boca estava seca. A minha, não a do cadáver. Estava quente, a noite, e a vontade era de tomar uma cerveja bem gelada. Mas onde encontraria um bar aberto àquela hora? Bateu uma vontade de voltar para casa, mas lembrei de que na geladeira só havia água ou apenas garrafas vazias e geladas. Então desisti. Quis chamar a polícia ou ligar para o Instituto Médico Legal. Porém tinha esquecido o celular em cima da mesa. Se não me lembrei de pegar os documentos, como não esqueceria o celular? Sempre deixo o aparelho junto com a carteira e a chave do carro sobre a mesa. Cansado, fiquei de cócoras próximo ao corpo e apoiei a mão direita no scarpin negro da mulher quando, então, ouvi o som de uma sirene ao longe que se aproximava. Levantei. A viatura se aproximou e desligou a sirene. Desceram dois brutamontes com as escopetas apontadas. Paralisei com as mãos paralelas ao chão e a cabeça abaixada. Aproximaram e revistaram-me até o último pentelho do saco. Um deles me algemou e jogou-me como um saco de lixo no porta-malas. E eu, sem entender nada, apenas permaneci calado até chegar à delegacia. Apesar de ser um borra botas qualquer entendia um pouco de direitos e deveres. Vi pela janela da viatura quando cobriram o corpo da mulher. Aguardei em silêncio. E assim fiquei durante horas em respeito àqueles gentis soldados: quieto, em posição fetal e com as mãos presas para trás aguardando a chegada da perícia.

Suzana estava linda no último fim de semana. Usava um vestido curto de cor preta que deixava suas coxas à vista. A cor da pele levemente bronzeada com marcas claras de um biquíni que cortavam os ombros e desciam até o decote. Estava no metrô. O trem parava em cada estação e saía em um solavanco extasiante. Ela se desequilibrava toda vez que isso acontecia. Ao partir da estação Brigadeiro, sua bolsa caiu. As lantejoulas prateadas chamaram minha atenção. Ela ia abaixar para pegar o objeto, porém não me contive e em um ímpeto de gentileza abaixei primeiro. Levantei devagar com a alça na mão direita, tão devagar que pude sentir o perfume por debaixo de sua meia-calça. Os olhos dela faiscavam de gratidão. O rímel, o delineador e o contorno do lápis deixavam seus olhos pequenos mais vivos. Entreguei e ela sorriu. Descemos na Consolação. Já conversávamos como velhos amigos, porém mal havíamos nos conhecido. Destino? - pensei. Um pensamento aleatório, pois não acreditava nessas coisas. Suzana disse que ia ter aulas na faculdade, mas entramos naquele hotel de onde só saímos na manhã seguinte. O letreiro aceso na porta nos atraiu. Um êxtase hipnótico. A noite apenas começava. O sol ainda não havia desaparecido do céu por completo. Um vermelho forte como sangue misturado com um pouco de água circundava os arredores do teto da cidade como se fosse o prenúncio para aquela aventura. Apresentamos os documentos para a recepcionista e subimos ao quarto. Finalmente uma noite cheia de confissões e descobertas como nos tempos que ainda era jovem. Agora nos conhecíamos de fato. Pouco, mas profundamente. E acima de tudo a vida nos deu a oportunidade de mergulharmos em uma experiência de autoconhecimento. Cada um com o seu. Nunca imaginei que uma simples viagem de trem pudesse resultar em uma grande e espetacular noitada. Nem mesmo pensei que um dia eu pudesse aceitar um desvio desse tipo. Atraído pelos feromônios da fêmea à toca da raposa. Ela também não parecia ter deglutido muito bem o próprio impulso. Novidade atrás de outra, amanhecemos.

Quando Matilde me abandonou feito um cão sarnento no meio da rua, perambulei por vários dias sem destino por calçadas, vielas e viadutos. Aos poucos, após alojar-me em uma pensão barata, pude reestabelecer a cidadania. Durante o dia ficava entre a República e o Arouche vendendo cintos de couro sintético que comprava na região da Rua 25 de Março. Com aquele dinheirinho me alimentava, pagava a pensão, a conta do bar e com o que sobrava podia comprar o que dava na telha.

Com o tempo a solidão parecia corroer por dentro do peito. Aliviava tensões na Rua Aurora. Deleites visuais, táteis, olfativos e físicos também. Em menos de um ano já havia comprado um carro velho. Vinte anos de uso pelo menos. Tinha arrumado um emprego como corretor imobiliário para locação de imóveis comerciais. A vida parecia ter melhorado quando reencontrei Matilde. Estava sentada sozinha no bar que eu frequentava com um copo americano na mão direita e uma Coca Cola KS sobre o balcão. Havia brigado com o namorado novo, Robenildo, e queria que eu compartilhasse um flashback com ela. Confesso que quase cedi, mas quando percebi, já havia virado de costas e saído sem olhar para trás com medo de me arrepender.

Parecia querer fugir de um compromisso de verdade. Algum tipo de trauma ou fobia me arrebatava quando percebia que algo de verdade pudesse vir a se concretizar. Havia sim uma possibilidade. Perdida em algum lugar no nosso paiol de sentimentos. Mas havia.

É que certas vezes, no meio da multidão, você olha para o lado e dá com os olhos nos olhos do outro sem saber se o outro olhou para o lado e deu com seus olhos ou se já estava te observando há algum tempo.

Nossa! Quantas vezes repeti a palavra “olhos” e seus derivados e nem dei conta. Se bem que nem sei se o verbo deriva do substantivo ou se vice e versa. Nem sei se é mesmo o caso de relacionar uma coisa com outra. A única coisa que sei é que estas coisas acontecem. Será algum sinal? Pode ser. Quem sabe tenha deixado de olhar verdadeiramente nos olhos de quem me olha com profundidade há alguns anos?

Relacionamentos superficiais existem aos montes por aí.

Em um dia de verão, o calor insuportável, uma rapaziada pouco mais jovem convidou para curtir a noite em uma boate no centro da cidade. Estava enturmado em uma roda de truco em volta da mesa tomando cerveja e acho que só por isso aceitei.

Foram flertes atrás do outro na pista de dança. Eu de camisa polo barata, calça jeans e tênis de marca que quase nunca usava. Faltava ocasião e naquele dia achei que havia chegado a hora. Sempre com um copo na mão e a mesma bebida sacudindo comigo.

-Pendura a chave do lado de fora do bolso e faz cara de rico! –sugeriu um colega da pensão.

Na manhã seguinte acordei com Bruna ao meu lado. Loira e dez anos mais nova que eu. Não sabia como tinha ido parar ali no meu quarto simples de pensão e parecia nem querer saber. Queria mais. Beijava-me feito louca e perguntava se havia algo para beber no frigobar. Disse que havia um Lambrusco aberto de duas semanas e ela aceitou. Secou a garrafa antes das dez da manhã. Falou que ia dar um pulo em casa para pegar as coisas e voltava em seguida. Não acreditei. Deixei que fosse embora e comemorei mais uma aventura. Antes de anoitecer ela voltou. Três malas cheias de roupa e algumas sacolas com suas coisas. Fiquei sem reação e a deixei entrar.

Quando dei por mim Bruna já estava instalada em meu quarto em situação marital comigo há pelo menos três meses. Havia passado o período de experiência e talvez por isso a ficha caiu. A relação era aberta, sem cobranças ou envolvimento financeiro.

Claro que o relacionamento não deu certo. E concluí que nunca daria mesmo. O motivo era simples: ela pegava mais garotas do que eu. Sempre brigávamos por este motivo. Aos finais de semana saíamos para uma balada, bebíamos e enquanto eu jogava conversa fora com os amigos, ela desaparecia. Era sempre por volta das quatro ou cinco horas da manhã, cansado de procurar por ela, voltava para a pensão e lá estava ela deitada na cama com outra. E geralmente era com a garota mais gostosa da noite. A frustração batia pesado, pois quando eu chegava, já estavam caídas, as duas em sono profundo e eu era obrigado a encher o colchão de ar que havia comprado na liquidação do hipermercado e dormir ali mesmo ao pé da cama. Pela manhã a moçoila acordava assustada e dizia que já tinha de ir embora. Depois saía pela porta para nunca mais aparecer.

Entraria em depressão profunda se não desse um basta na situação. Um dia eu cheguei e estavam na cama ela e mais duas. Mas a gota d´água foi quando recebeu uma proposta para trabalhar como gogo girl em uma boate. E aceitou. Pedi então que pegasse suas coisas e fosse embora. Ela disse um monte de desaforos e foi, sem titubear. Não esperava uma atitude dessas, então fiquei arrasado. Foi o único dia que saí para beber de verdade em plena luz do dia. Entrei em um bar, sentei e o balconista perguntou se queria beber alguma coisa. Respondi que sim.

-Quer beber o que?

-Arsênico. – respondi, tamanha era a minha desilusão com o ser humano naquele momento. Mais especificamente com as mulheres. Nietzsche ficaria com pena de mim.

O balconista, coitado, fez de desentendido e foi atender outra mesa. Eu nem liguei. Fiquei ali por horas apoiado sobre o braço sem pensar em nada. Anestesiado.

Após me sentir um lixo por vários dias, comecei a ter saudades da época em que conheci Matilde à beira de uma piscina em um clube público. Nem o cheiro (de cloro misturado a mijo) da água faz apagar da memória aquela doce lembrança. Nem o suor das pessoas que pediam licença para conseguir um lugar ali e refrescar o corpo de um calor de quase quarenta graus que fazia naquele dia me faz esquecer a sensação dos nossos lábios que se tocavam pela primeira vez ali mesmo. Ela com bafo de enxaguante bucal vencido e eu provavelmente cheirando à cerveja debaixo daquele sol escaldante e sobre aquele piso lodoso, sem falar na pele já vermelha que fritava no mesmo compasso dos hambúrgueres na chapa da lanchonete do clube, num beijo sem gosto que só a convivência conseguiu temperar. Marcamos de nos encontrar no dia seguinte nas escadarias da Catedral da Sé. Era um Domingo. Eu não tinha carro e a convidei para caminharmos até o Anhangabaú. Lá conversamos sentados em um banco e comemos um cachorro quente completo dividido ao meio para os dois. A convidei para uma sessão no cinema, mas naquela região só encontramos salas que exibiam filmes pornográficos. Percebi que Matilde ficava vermelha só de me ver olhar para aqueles cartazes que ficavam colados nas paredes perto das bilheterias. Resolvi não arriscar um convite para entrar.

Percebi que ela realmente estava interessada em mim porque apareceu quando marcamos o segundo encontro mesmo sabendo que eu não tinha carro.

Ser pobre não é desculpa para não ter algo a oferecer. A gente pode distribuir amor. É de graça, faz um bem danado e ainda por cima é tudo de que o mundo precisa agora.

Matilde ficou casada com Robenildo por quatro anos. Estávamos mais uma vez debruçados sobre o balcão daquele bar quando ele ficou olhando para ela como se estivesse hipnotizado. Cheguei a levantar da mesa, mas ela me segurou dizendo que não estava ligando para aquela situação. Robenildo virou meu melhor amigo. Contive-me porque estava em liberdade aguardando o julgamento. Nenhum rancor daquele dia. Tempos depois descobri que havia formado outra família. Tinha uma tatuagem no braço esquerdo: JENNIFER. Podia ser o nome da mãe, da esposa ou da filha. Mas, não. Era o nome da travesti que ele comia.

Estava desinteressado de tudo. Sem fome, sem sede, sem vontade de sair e sem libido.

Nestas horas tenho inveja de quem acredita em Deus.

Mas Matilde reacendeu algo em mim.

Suzana era morta.

Literalmente.

Acho que já havia esquecido.

Mas ainda tinha algo a pagar. Algo que não devia. Mesmo não sendo o assassino de Suzana, era quase certo que ia ver o sol nascer quadrado por uns bons anos.

Não sei como, mas quando a polícia quer, encontra argumentos por todo lado.

Só havia uma certeza dentro de mim:

Queria viver ao lado de Matilde pelo resto dos meus dias.

Dormir de conchinha, viajar para a Praia Grande...

Mas estava algemado na frente do juiz e aguardava o veredicto. Estava crente de que a penitenciaria do Estado seria o meu destino, mesmo convicto de que era inocente, mas também batia uma intuição de que nem o melhor dos advogados provaria o contrário. Ansiedade, talvez.
Havia alguma ponta de esperança? Sim. Havia.

O juiz iria com a minha cara e mandava abrir as algemas.

Estava prestes a bater o martelo quando ela apareceu acompanhada de dois soldados da polícia militar na porta dos fundos.

Estava com o vestido azul royal que dei de presente em seu aniversário de cinquenta anos e uma bolsa vermelha cuja a alça atravessava o corpo e contrastava com todo o resto.

Ela entrou. Eu levantei. Ela aproximou-se e me abraçou. As lágrimas desceram pelo seu rosto.

-Desculpe! –disse Matilde. Encarou a plateia, os advogados, o juiz e fitou-me de leve. –Tenho uma revelação. Eu matei a Suzana.

Lido 333 vezes Última modificação em Terça, 11 Outubro 2016 12:48
Carlos Antonholi

Carlos Antonholi nasceu na cidade de Araras, São Paulo, em 1972. Sua formação abrange a habilitação de ator pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul e Letras pela Faculdade São Bernardo. É dramaturgo com algumas peças encenadas e poeta. Escreve contos e poesias, com foco na literatura minimalista. (microcontos, haicais e pequenos poemas - vide links)
Publicou o livro de poesias BALCÃO DE ALMAS E DE CORPOS (2012 - edição do autor) e AS GARRAS DE NINA, (2013, romance juvenil, editora Multifoco)

Links: www.micropoetricidade.blogspot.com
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https://twitter.com/frestadajanela

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