Quarta, 12 Outubro 2016 14:50

Medalha de Ouro

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Aquele foi um verão diferente. Tão logo me vi livre dos compromissos do clube olímpico, arrumei as minhas malas e me dirigi para o litoral. Lá estava a nossa casa de praia, à minha espera. Fui levado por uma tremenda crise existencial, pois havia rompido um noivado de dois anos com a Lígia, com quem tivera um relacionamento muito prolongado. Ultimamente as crises de ciúmes dela para comigo estavam chegando ao descontrole e, sem alternativa, fui obrigado a me decidir.

Tomado de profunda solidão, deixei o clube, os amigos, a natação e ela, que junto comigo havia me acompanhado a tantas vitórias olímpicas. Dividimos muitas alegrias, tenho certeza!

Assim, ainda meio machucado, achei que a praia, o mar, seria o lugar ideal para eu me refazer. À tardinha ou ao amanhecer fazia longas caminhadas pela praia e, conversava comigo mesmo, tentando organizar melhor as ideias. Havia recebido uma proposta para ir ao exterior em função da natação e me preparava para esta viagem.

Domingo, sol se despedindo do dia, eu caminhava pela orla. Sentei-me nas pedras após um mergulho e “caraminholando” ficava à mercê dos pensamentos vadios, soltos, vadios. Foi então que me dei conta de ver um corpo de mulher agitando nas águas, lutando contra a força das ondas violentas, ali, naquele ponto da Praia Brava,

Sem hesitar, entrei no mar e nadei vigorosamente em direção ao corpo, que quase sem vida, parara de se debater. Sozinho, lutei tentando trazer para a praia a moça desfalecida, ou quem sabe, morta. Foi, na verdade, uma difícil tarefa, pois o mar estava zangado e as ondas tremendas, em meio a fortes ventos prometendo ressaca.

Consegui finalmente chegar até as pedras e depois até a areia, quando só então pude perceber que se tratava de uma linda jovem. Cabelos longos, corpo escultural, uma pele alva e sedosa de quem pouco conhecia as artimanhas do mar. Percebi que seu coração ainda batia e dei-lhe o primeiro beijo, a respiração boca-a-boca, na intenção de salvá-la. Massageei- lhe o tórax, tomei seus pulsos, aquecia-a com a minha camisa e notei um leve pestanejar, uma promessa de reação, talvez. Senti-me um menino, consertando o seu brinquedo preferido, escangalhado. Abracei seu corpo indefeso, torci e acariciei-lhe os cabelos e percebi uma corrente de ouro no seu pescoço. Tomei a corrente e descobri uma medalha com a imagem de uma deusa grega e no verso, um nome gravado, HERA. Muito bem, eu já tinha uma pista da minha companheira naquela praia distante. Ficamos ainda ali por alguns minutos, depois a tomei nos braços e caminhando cheguei até o povoado e até a minha isolada casa de praia, numa vila de pescadores.

Acomodei-a ainda exausta no quarto de hóspedes, preparei-lhe um banho e um caldo quente. Ela se recobrava rapidamente. Passamos a noite sem ela nada dizer. Na manhã seguinte acordei e logo procurei tomar ciência do estado da minha protegida. Encontrei-a na sala vestida com as minhas roupas com uma aparência melhor.

Começamos naquele momento uma grande amizade. Hera estava de férias, hospedada numa pousada próxima. Como eu, buscava os segredos do mar para aquietar seu coração, depois de ter perdido o namorado em um acidente aéreo no Mato Grosso.

Entusiasmou-se com a aventura no mar e não teve como lutar contra ele, sendo vítima da sua fúria. Felizmente, eu, campeão de natação, coroado com muitas medalhas olímpicas, estava por perto e pude salvá-la para mim.

Hoje, dez anos depois, somos casados, temos dois lindos filhos, muito nos amamos e renovamos este amor a cada momento que Deus nos dá.

Dia desses, conversando com ela, confessei-lhe que, a mais importante medalha que eu havia recebido em toda a minha carreira era aquela que ela trazia no pescoço na hora do afogamento. Foi uma primeira pista que tive da minha Hera, dona da minha vida a quem dedico tanto amor. Coisa inexplicável do destino, eu creio. Mas o que muito nos importa ainda é a nossa ida à Praia Brava, santuário do nosso amor. Sempre que temos oportunidade, pegamos as crianças e nos instalamos na casa de praia para rememorar o nosso encontro. Afirmo que, aquela medalha de ouro, a da minha mulher, foi "Aquela Medalha Olímpica" que eu precisava para completar a minha carreira de atleta. Na minha cabeça coloquei uma imaginária guirlanda de ramos de oliveira pela grande proeza. Estava consagrado em Olímpia.

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Amélia Marcionila Raposo da Luz

Amélia Luz – nasceu em Pirapetinga/MG. Formou-se em Pedagogia – Administração Escolar e Magistério – Orientação Educacional – Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa com Pós Graduação em Psicopedagogia na Escola e Planejamento Educacional. Oficineira de versos leva às escolas a palavra poética despertando a juventude para a leitura e a poesia como meio de educar para a paz.
Membro Da UBE/RJ e outras associações literárias.

E-mail: amelialuzz30@gmail.com

Link: souamelialuz.blogspot.com.br

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1 Comentário

  • Link do comentário Cecy Barbosa Campos Terça, 08 Novembro 2016 19:49 postado por Cecy Barbosa Campos

    Medalha de Ouro é um conto interessante e bem escrito. Destaco a escolha do nome, numa alusão às deusas gregas.

    Relatar

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