Quinta, 13 Outubro 2016 12:49

Nem Sempre o que Parece, É

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Quando chegou em seu quarto, que dividia com mais três numa república de estudantes, a zeladora do prédio foi procurá-la. Haviam deixado um número de celular para ela ligar. Não reconheceu aquele número. Estava tão cansada, tão traumatizada pelo que havia acontecido, principalmente pela perda de sua bolsa com tudo de importante que estava dentro, que a única coisa que queria era tomar banho, beber alguma coisa quente e desmaiar na cama... esquecer!

Estava com saudades de casa! Desde que viera para o Rio estudar e se preparar para o vestibular de Medicina, não havia ainda voltado para sua casa, para sua terra natal. Era longe. No interior de Belém. Seus pais tinham dado a maior força, contribuíram com a pequena poupança que haviam feito para seus estudos e se despediram felizes. Sua única filha seria uma grande médica. Estavam orgulhosos. Ainda eram jovens, tinham saúde, moravam num pequeno sítio de onde tiravam seu sustento plantando e vendendo orgânicos, desde que um Agente Comunitário havia feito palestras e ensinado como fazer e cuidar de uma horta dentro desse conceito.

As vezes se falavam por telefone. Onde eles moravam ainda não havia sinal para celular. E sempre que sobrava um dinheiro, mandavam para ela. Já haviam se passado dois anos. Estava economizando para fazer uma surpresa para os pais. Mas queria chegar já tendo passado no Vestibular. Queria dar essa alegria para eles...

Esses pensamentos iam povoando sua mente, e ia relembrando todos os acontecimentos marcantes até então de sua vida, enquanto a água escorria pelos seus cabelos, pelo seu corpo jovem, tão cheio de vida, de esperança, de amor. Havia conhecido Roberto numa balada onde fora por insistência das amigas. Era muito nova, muito ingênua, sem nenhuma experiência. Ele, um rapaz bonito, sedutor, sabia que teria que conquistar sua confiança aos poucos. E era isso o que estava acontecendo. Há seis meses. Nos fins de semana. E, a cada vez que se encontravam, pequenas conquistas aconteciam, uma carícia no rosto, um beijo apenas insinuado, um roçar da mão, assim tipo sem querer, nos seios fartos... Uma vez, ele a fez provar uma bebida da qual nem lembrava o nome, mas a fez engasgar, apesar de se sentir leve, flutuando, meio tonta... e sentiu seus braços apertando seu corpo ao dele.... Foi também nessa vez que reparou que um rapaz estava observando fixamente os dois... Depois, em outro final de semana, além da bebida, ofereceu um cigarro. Nunca havia fumado antes, mas para agradar, fumou. E gostou. Se sentiu diferente, se sentiu bem. E novamente observou que o outro rapaz estava olhando. Ela e Roberto só se encontravam nos finais de semana, na balada. Ele nunca a convidava para sair, nem aparecia onde ela morava. Achava estranho... Parecia que não queria se expor .

Passou um tempo sem sair, se preparando para a prova do Vestibular. E o grande dia chegou. Foi uma prova extremamente cansativa, difícil, mas ela estava muito bem preparada, acreditava que havia passado. Estava ansiosa para saber se havia conseguido a vaga. Foi para a balada com as amigas e ele estava lá, esperando-a. Pareceu feliz em revê-la. Depois de dançarem, beberem e fumarem, ele a convidou para darem uma volta. E, sentados num banco da praça, ele perguntou se queria experimentar o pó mágico. Ela recusou surpresa, ofendida e decepcionada. Quis ir embora. Mas ele não deixou. Forçou-a a ficar até que ele terminasse. Ela sentiu que estavam sendo observados.

Resolveu que não iria mais a balada. Tinha a sensação que estava andando por terreno perigoso. Foi até o local para saber do resultado de seu Vestibular e, quase não cabendo em si de tanta alegria, ficou sabendo que havia conseguido sua vaga na melhor Faculdade de Medicina. Com o cartão de inscrição dentro da bolsa, teve vontade de dizer para os que estavam dentro daquele ônibus que ela havia passado no Vestibular, que iria ser uma grande médica... Olhou em volta e se assustou porque viu Roberto, mais uns três ou quatro tipos muito esquisitos e também aquele rapaz sem nome, estranho, que também ia a balada e que tocou o sinal para descer. Passou por ela, roubou sua bolsa e quando já ia descendo ela levantou rápida e saiu em disparada atrás dele, em busca de sua bolsa onde estavam todos seus documentos importantes, seu cartão de inscrição, seu missal cheio de santinhos de sua primeira comunhão, sua...... o barulho de uma enorme explosão desviou sua atenção e a fez parar com a perseguição.


O ônibus de onde havia saído era uma enorme bola de fogo. Haviam colocado uma bomba dentro dele. Começou a tremer sem parar... estava em choque... Depois de um certo tempo, foi acudida pelas pessoas que assistiam horrorizadas a cena. Conseguiu que um motorista de taxi, penalizado, a levasse em casa. Estava transtornada.

Quando saiu do banho, a televisão do quarto estava ligada com o noticiário extra. O incêndio do ônibus havia sido queima de arquivo entre traficantes. Há um certo tempo estavam sendo monitorados pela polícia. E a bomba foi a solução encontrada por eles. Testemunhas disseram que uma mulher tinha conseguido sair antes da explosão e estavam tentando localizá-la para entregar a bolsa que tinha deixado cair.

Esperançosa, ligou para o número do celular desconhecido e a voz de um homem, que se identificou como policial avisou que estava com sua bolsa. Pediu o endereço e foi entregar. E o homem que também tinha saído do ônibus? ela perguntou. Não havia homem nenhum. As pessoas afirmaram que apenas uma mulher tinha saído. Eles sabiam que além dela, dentro do ônibus estavam quatro traficantes. E disse, se despedindo, que ela deveria ser uma pessoa muito protegida por Deus por ter conseguido sair.

Sentada em sua cama, foi tirando tudo da bolsa. Chaveiro, documentos, artigos de toalete, pente, remédios, seu cartão de inscrição, dinheiro, seu missal. Estava tudo ali. Ela não podia acreditar que aquele rapaz tão mal encarado não havia roubado nada. Pelo contrário, simulando um roubo, fez com que ela corresse em sua perseguição e saísse do ônibus, salvando assim sua vida. Mas o mais intrigante é que ninguém o tinha visto e, pensando bem, nas duas vezes em que o tinha encontrado na balada, parecia que só ela o estava vendo, apesar dele estar na pista de dança, sem dançar, prestando a atenção apenas no que estava acontecendo entre ela e Roberto.

Quando já ia guardando tudo de volta na bolsa, sentiu que no fundo havia alguma coisa.
Um santinho que havia caído do missal mas que, olhando bem, não era nenhum dos que ela guardava.

Era um com a imagem do arcanjo Miguel e, junto dele, uma pena branca.

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Christina Mariz

Desde muito nova gostava de ler. Quando fiz Faculdade de Turismo, já mais velha, nas aulas de Português senti o gosto para escrever. A professora estimulava os alunos a desenvolverem a imaginação, a criatividade.Há dois anos, comecei a comentar textos de amigos virtuais e esses textos eram muito curtidos.

Então surgiu a oportunidade, através do Curtoconto ,de poder fazer parte, através de estudos acadêmicos, da biblioteca virtual que estavam organizando.

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