Quinta, 13 Outubro 2016 22:10

O Ovo

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O filho acompanhava interessado o pai na lida dos ovos. A fragilidade das cascas o fascinava, gostava de protege-las do atrito ou choque.

Eram acondicionados na incubadora até eclodirem pela força da vida que surgia.

Naquele dia o menino estranhou.

- Pai, e esse ovo diferente? Vamos pôr pra chocar assim mesmo?

Para o rude criador de aves, um ovo levemente disforme.

- Por que não? Ovos são ovos.

Para alguém sensitivo, algo perturbador.

- Esse ovo não parece normal. Não só pelo tamanho... Sabe Deus o que vai nascer daí...

- O de sempre. Não se importe, variação acontece. Tranque de uma vez esta porta, acione o aquecimento.

A lâmpada incandescente iluminou diretamente aquele ovo distinto, e o menino hipnotizado, não conseguia se desgrudar da superfície ligeiramente translúcida. O ovo parecia vibrar, algo dentro dele se mexia. Assustador.

- Vai acabar queimando a vista, olhando assim pra luz. Vamos, que o trabalho espera.

A cada dia o menino se deparava com o ovo em acentuada transmutação.

- Ainda cismado com o ovo?

- Tem uma coisa dentro dele que olha pra mim, venha ver.

- Estou ocupado. Quem dera fosse um avestruz.

- Esse ovo é do mau. Do mau!

Um novo dia chegou com a triste novidade.

- Pai, pai, os ovos sumiram da chocadeira.

- Então nossa granja aumentou antes da hora.

- Não, está vazia. É verdade, confirme se ainda duvida!

- Ora. Não percebe que o visor é pequeno? Decerto os pintinhos encalorados estão nas bordas, buscando uma fresca.

- Uma semana antes? Veja, vazia e silenciosa.

O pai observa em ângulos diferentes, admite.

- Aparentemente está vazia, alguém retirou o que havia aí, seja ovo seja pinto.

- Quem seria pai? Apenas nós dois trabalhamos no galpão!

- Não sei, mas alguém entrou aqui durante a noite...

- Olhe o lacre pai, intacto. A porta do barracão também estava trancada. Melhor deixar assim até o que estiver aí dentro morrer sozinho. Essa chocadeira gerou coisa ruim. Se afaste daí pai!

- Vamos acabar com esse mistério, vou destravar a fechadura.

A visão de um ser apavorante saltando da chocadeira fez o menino gritar.

- Nãããão!!!

Instigada pelo grito, a porta se abriu sozinha, num estrondo.

Quando o silêncio se fez e os dois se refizeram do sobressalto, uma coisa horripilante saltou veloz sobre o homem. No susto ele se jogou de lado, tentando desviar-se do agressor. Inútil. A coisa parecendo criatura do outro mundo se realinhou em pleno ar e catou-lhe os dentes no rosto.

Se tinha dentes, ave não era. Monstro agressivo cravou fundo presas venenosas na feição do homem que berrou de dor. A coisa arrancou-lhe a pele e fugiu desengonçada.

Enquanto o pai transfigurado uiva de dor, o menino tenta enquadrar o monstro no porrete. Teve algum sucesso, acertou uma paulada em cheio na coisa, que expeliu esguicho viscoso, largando a refeição que mastigava – o couro do granjeiro.

O pai perdeu o contorno da face, agora uma bola ensanguentada, o globo dos olhos balançam dependurados por nervos flexíveis. Consciente porém. A cuspir sangue, ordena numa voz irreconhecível.

- Mate a coisa, mate a coisa.

A coisa sumiu.

- Acho que matei!

Não matou, a coisa vive.

Crescendo rápido, sente fome o tempo todo. O sabor do sangue fresco abriu-lhe o apetite pra nova dieta. Desprezando ovos que lhe garantiram boa nutrição na chocadeira, agora refinou o paladar, preferindo carne humana.

Lido 723 vezes Última modificação em Quinta, 13 Outubro 2016 23:43
Florentino Augusto Fagundes

Filho e neto de paranaenses, nasceu em Ribeira SP em 7 de fevereiro de 1961. Entre os treze e dezesseis anos trabalhou ajudando seu pai no Mercado Municipal em Curitiba, experiência que lhe rendeu a crônica “O Sabor da Maçã.” Mudou-se em definitivo para Curitiba em julho de 1977. Desde criança inventava estórias, embora não as registrasse. Escreveu alguns contos e uma peça de teatro na década de 80, os quais lhe renderam dois prêmios literários. Ainda nos anos 80 chegou a escrever um romance, que depois destruiu porque considerou horrível. Segundo ele, a editora Record foi generosa ao recusar a publicação relatando polidamente “seu material tem pouca literalidade”.
Daí decidiu investir na carreira e na família. “Só volto a escrever quando for doutor e meus filhos estiverem crescidos”, dizia quando algum amigo lhe cobrava a publicação do tal livro.
Graduou-se em Matemática, cursou especialização em Engenharia da Qualidade, concluiu mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica, tudo isso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR, onde é professor desde 1995. Além de trabalhar no comércio, foi bancário e empresário. Casado, é pai de um casal de filhos.
Assumiu oficialmente a condição de escritor, ao publicar a crônica “O Crânio” em sua página no Facebook no dia 2 de outubro de 2015.

Link: www.facebook.com/FlorentinoAugustoFagundes

https://www.instagram.com/florentinoaugustofagundes

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