Sexta, 14 Outubro 2016 02:16

Menino Sem Olhos

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O Menino brincava no começo do oitão, entre a garagem e a varanda, onde era iluminado. Jamais ia até o final do corredor e nem precisava. A bola sempre voltava. Ele a atirava com força contra a parede que sabia estar lá, embora não a enxergasse. O brinquedo era engolido pelas trevas e depois retornava, quicando em sua direção. Voltava mesmo quando ele a fazia rolar gentilmente pelo assoalho. Cachorro não era, nem gato, que a Mãe não permitia nem um nem outro. Nem que se fosse à rua, brincar com os garotos sujos de barro, palmas cheias de cola e vidro de empinar pipa; canelas comidas por outras canelas no jogo de pelota improvisada; roupas herdadas e remendadas denunciando brigas e reconciliações cotidianas.

Privado da presença de outros, aquele Menino brincava com a escuridão. E a escuridão jamais deixava de lhe fazer companhia. A Mãe sentia o coração mais leve ao escutar a bola rebatendo pelo chão. Antes ali do que fora de casa, com os moleques, os carros, o canal, os maruins, os palavrões, a sujeira, os mendigos, as moças salientes, as coisas do mundo. A casa era segura e ela o tinha sempre sob as vistas. Só não entendia que prazer ele tirava de brincar com uma bola velha de borracha, encontrada naquele mesmo oitão daquela casa antiga. O Menino possuía bonecos que caminhavam com suas próprias pernas miúdas, telas que se iluminavam e conversavam, pequenos aviões que cruzavam o céu baixo do seu quarto.

Mas só queria saber da bola.

Tac, tac, tac, ela ia, tac, tac, tac, ela voltava. E o Menino começou a perceber algo diferente naquela escuridão. Com o passar dos dias, era como se ela aumentasse, avançasse pelo corredor, adquirisse forma. O Menino atendeu ao chamado da Mãe e meteu-se sob as cobertas, pensando que era estranho, um escuro assim, que parecia que se mexia e respirava. Na noite seguinte, voltou ao oitão e encontrou o Menino Sem Olhos. Mais estranho ainda, uma criança feita de sombras, mas pelo menos era alguém com quem brincar. O Menino Sem Olhos não falava, não sorria e nunca deixava o corredor. Mas sabia brincar com a bola. O Menino não entendia como, já que o outro não tinha olhos, apenas escuridão, mas ele atirava e apanhava a bola, sem jamais parar. Tac, tac, tac, ela ia, tac, tac, tac, ela voltava. E assim, não estava mais sozinho.

A Mãe ia e vinha em seus afazeres, tão ocupada que parecia não ter olhos também. Tudo o que ela via era o Menino e sua bola, e aquele oitão mal iluminado, que dava a impressão de ficar mais escuro a cada dia, coisa esquisita e até preocupante, se fosse possível. E o Menino passava cada vez mais tempo, tac, tac, tac, esquecido do dever de casa, tac, tac, tac, ausente da mesa do jantar, tac, tac, tac, distraído quando lhe chamavam pelo nome. O Menino Sem Olhos não gostava de estar só, nem que o outro abandonasse a brincadeira. Já não era mais divertido, mas ainda assim, tudo o que interessava ao Menino era o bater e rebater da bola no oitão. E a cada dia que passava, parecia que o Sem Olhos se aproximava, se afastando do final do corredor e trazendo com ele suas sombras. O Menino então sentiu uma coisa no coração, que não sabia bem explicar o que era, mas era ruim, disso tinha certeza. Pediu para cessar a brincadeira. Sem falar, Sem Olhos respondeu. “Não”.

A Mãe agora prestava atenção. O Menino pouco falava e não lembrava mais como sorrir. E a cada vez que voltava do oitão, parecia mais pálido, mais distante e quieto. Menos vivo. E a Mãe sentia um frio vindo daquele corredor, um sereno que não circulava, mas se agarrava às paredes e ali ficava por toda a noite. E cada noite parecia mais longa do que a anterior. O Menino atirava a bola, o Sem Olhos a jogava de volta e estava tão perto agora que já podia enxergar as sombras escorrendo do seu rosto. Então, a Mãe mandou o Menino para a cama e caminhou até a passagem entre a varanda e a garagem. No final dela, aquela escuridão cega, aferrada ao reboco velho que se soltava sem nem fazer esforço. A Mãe deu um passo em sua direção e sentiu as sombras aumentando ao seu redor. Ansiosas. Voltou correndo para dentro de casa e abraçou o Menino febril em sua cama. E assim ficou até o raiar do sol. Acordou antes da criança e se pôs a trabalhar, como fazia todas as manhãs. O Menino ardia em sua cama e sempre que a Mãe punha a mão em sua testa molhada, ele respondia com um gemido e apertava a bola entre os dedos lívidos. À noite, levantou sem que a Mãe percebesse e cambaleou até o oitão.

E quando lá chegou, encontrou o corredor iluminado, do começo ao fim. As trevas haviam se dissolvido, fugido da luz amarela das lâmpadas novas. A Mãe, que as havia trocado durante o dia, agora pensava que havia sido mesmo muito boba, em achar que havia algo de mais ali. Era um corredor como qualquer outro e o Menino também percebia isso. Voltou para dentro, risonho e falante, brincando com todos os seus brinquedos ao mesmo tempo, como se os visse pela primeira vez. A Mãe achava graça e pensou até em deixa-lo sair para a rua, com os moleques, os carros, o canal, os maruins, os palavrões, a sujeira, os mendigos, as moças salientes, as coisas do mundo. Talvez amanhã. Nessa noite, ficou junto do Menino enquanto ele bulia no boneco, na tela e no avião e em tudo o mais que ele havia esquecido enfiado naquele oitão. Quando, exausto, pôs-se a dormir, a Mãe o carregou até a cama e ficou ao seu lado, perdida em um cafuné há muito desacostumado. Foi para o seu quarto, ajeitou-se para o sono que agora viria reparador e apagou a luz.

Em sua pequena cama, o Menino se revirava, agoniado. Via coisas em seus sonhos que não entendia. Coisas escuras e disformes, que se arrastavam e se contorciam, sombras deslizando sobre sombras. Debaixo da coberta, apertava a bola com força, sentindo um peso sobre o peito. Ao abrir os olhos, ele estava lá. Sem Olhos o observava com sua escuridão, o rosto junto ao seu, as trevas se derramando de suas órbitas. E tudo aquilo que o Menino havia visto em seu pesadelo agora escorria para dentro dos seus olhos, como vermes negros que se enterravam em suas pupilas. Gritou sem emitir som algum, gritou e gritou e gritou até que a escuridão se tornou o seu mundo. Na manhã seguinte, a Mãe o encontrou sentado em sua cama. Não sorria e nem falava e os olhos eram trevas que ela não suportava encarar por muito tempo. Os médicos vieram e partiram, perplexos e pesarosos. Inúteis. O Menino nunca se sujaria de barro com os moleques nem correria atrás da pelota. A luz lhe havia sido roubada.

Toda noite, a Mãe chorava baixinho até dormir, enquanto o Menino sentava em sua cama. Já não diferenciava dia e noite, despertar e adormecer. Mas não estava mais sozinho. Das trevas ao seu redor, vinham outros Meninos Sem Olhos envoltos em sombras. E toda noite eles jogavam jogos terríveis e belos na escuridão que era eles mesmos. E entre um soluço e outro, a Mãe escutava, abafado pelas paredes e pela dor, tac, tac, tac. Tac, tac, tac. Tac, tac, tac.

Tac.

Lido 1593 vezes Última modificação em Segunda, 07 Novembro 2016 10:56
Frederico de Oliveira Toscano

Frederico Toscano é Bacharel em Gastronomia pela UFRPE, Mestre em História pela UFPE e doutorando em História pela USP. Escreve textos de humor e ficção especulativa e já contribuiu para as revistas Mensch, Somnium, Trasgo e outras, também de abrangência nacional, além do blog O Recife Assombrado. Em 2015, recebeu o Prêmio Jabuti, em terceiro lugar na categoria Gastronomia, pelo seu livro de História da Alimentação “À Francesa: a Belle Époque do Comer e do Beber no Recife”, lançado no ano anterior, pela CEPE.

Idade: 35

Profissão: Professor e Pesquisador

E-mail: fredericotoscano@hotmail.com

Link: https://fredtoscano.wordpress.com/

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14 comentários

  • Link do comentário Maroel Bispo Sexta, 13 Janeiro 2017 14:21 postado por Maroel Bispo

    "E tudo aquilo que o Menino havia visto em seu pesadelo agora escorria para dentro dos seus olhos, como vermes negros que se enterravam em suas pupilas. Gritou sem emitir som algum, gritou e gritou e gritou até que a escuridão se tornou o seu mundo." Esse pesadelo que escorre para dentro dos olhos do menino traz consigo e para dentro de mim a ideia de coisas terríveis da infância que brotaram à nossa volta; Já esse grito que emitimos sem som são as agruras indescritíveis que permeiam nosso universo cotidiano, em que ninguém percebe nada daquilo que passamos, além de nós. Parabéns!!! Excelente conto!!! Curto em palavras, profundo em palavras e sentido!!! (Maroel Bispo, aprendiz de poeta).

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  • Link do comentário Roberto Monteiro Terça, 08 Novembro 2016 00:04 postado por Roberto Monteiro

    O que eu não entendo é essa diferença enorme de votos do segundo lugar para o primeiro. Deve ter rolado uma campanhazinha nas redes sociais. Ambos textos são bons, não justificaria tamanha diferença.

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  • Link do comentário Maria Mota Segunda, 17 Outubro 2016 21:39 postado por Maria Mota

    Muito bom. Gosto de textos que me transporte aos locais descritos. Acabei de acender todas as luzes. Parabéns Fred.

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  • Link do comentário Jorge Eduardo Machado Segunda, 17 Outubro 2016 13:22 postado por Jorge Eduardo Machado

    "Privado da presença de outros, aquele Menino brincava com a escuridão. E a escuridão jamais deixava de lhe fazer companhia." Como é bom receber no rosto uma lufada de boa literatura. Um conto triste, que nos emociona, ao mesmo tempo que aterra. Parabéns! Dei quatro estrelas.

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  • Link do comentário André Balaio Sábado, 15 Outubro 2016 23:40 postado por André Balaio

    Conto incrível, Fred! Parabéns!

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  • Link do comentário Sergio Leite Jr Sábado, 15 Outubro 2016 19:53 postado por Sergio Leite Jr

    Muito massa! Se garante demais. Parabéns!

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  • Link do comentário Helena Marinho Sábado, 15 Outubro 2016 13:54 postado por Helena Marinho

    Ai, Fred, que delícia ler isso. Em meio a arrepios e lágrimas que transbordaram dos olhos, me reconheci no texto: como criança que preferia brincar com as sombras a sair para encarar as coisas do mundo.
    Simplesmente adoro lê-lo e sentir o frio na barriga bom que dói.
    Obrigada!!!

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  • Link do comentário Alessandra Pereira Sábado, 15 Outubro 2016 08:11 postado por Alessandra Pereira

    Muito bom Fred.... amei a leitura ....visualizei tudim.....amei amei

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  • Link do comentário Adriano Portela Sexta, 14 Outubro 2016 16:31 postado por Adriano Portela

    Que conto arretado!!!
    Parabéns.

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  • Link do comentário Éricka Lecter Sexta, 14 Outubro 2016 16:14 postado por Éricka Lecter

    Parabéns, Fred!
    O conto está incrível, instigante e aterrorizante!
    Adorei a leitura. Obrigada!

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  • Link do comentário Maurício da Fonte Filho Sexta, 14 Outubro 2016 16:09 postado por Maurício da Fonte Filho

    Um corredor engolido pelas sombras, um menino que brinca, solitário: um conto onde o fantástico e o terrível caminham lado a lado. O autor reúne medos tangíveis e intangíveis (medo da coisa que habita no escuro; medo do destino de um filho adoentado), tecendo um contor assustador com uma linguagem que nos prende. Sensacional!

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  • Link do comentário Márcio Sexta, 14 Outubro 2016 15:44 postado por Márcio

    Dermedefendinha ver o menino sem olhos! Conto incrível e muitíssimo bem contado! Parabéns!

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  • Link do comentário Márcio Sexta, 14 Outubro 2016 15:38 postado por Márcio

    Dermedefendinha ver o menino sem olhos! Conto incrível e muitíssimo bem contado! Parabéns!

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  • Link do comentário Mauro Sexta, 14 Outubro 2016 13:06 postado por Mauro

    Muito bom! Escrita excelente! Parabéns, Frederico!

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