Sexta, 14 Outubro 2016 02:42

Deixe todo o seu amor e seu desejo atrás de você

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Tem algumas coisas que ela jamais se acostumará nesta vida. Uma delas é o cheiro de urina que, entre tantos outros odores terríveis, para ela, é o que destaca, o que lhe impregna. Mas foi assim que aprendeu a viver por agora, para continuar a existir. Ela ignora. Ignora o arrastar claustrofóbico no cano pouco maior que seu próprio diâmetro. Ignora o rumo escuro que nunca tem fim. Ignora os animais vivos e mortos que se espremem entre ela e a imundice. Ignora a podridão por todo os espaços entre o concreto e ela. Ignora todas as coisas, menos uma única. A fome. A fome que a consome e a faz torcer para que os outros tenham tido mais sorte que ela. E isso significa ainda ter forças para lutar por um naco de comida. Subjugar e mostrar sua força sobre algum dos outros. Arrancar um pedaço de seja lá o que de seja lá qual deles. Matar sua fome. Comer. COMER! Um calafrio de adrenalina atiça sua nuca e seus pelos, como se fosse um verdadeiro animal, só de pensar e antever a disputa. E o arrastar continua, agora mais frenético. Passa o pensamento na sua cabeça de que não só a caça de um dos outros foi frutífera, mas que já houve um banquete. Que a festa já teve seu começo, meio e fim. Que ela não esteve no seleto grupo dos sem fome. Seu arrastar pelo cano continua, com intensidade de uma vida por um fio. A imundice acaba por escorrer pela sua boca e traz um gosto azedo, acre que lhe provoca ânsia. Mas é só isso que a revolução em seu estômago trás. Não há nada lá a quase dois dias. Nada que possa ser jogado para fora junto a podridão. Então, mais uma vez, ela ignora e continua. Ignora tudo. Só não ignora a fome.

A luz chega com o despejar no chão de água, dejetos, odores pútridos e ela mesma. Seu corpo indescritivelmente magro carrega ainda alguns poucos trapos, restos de roupas da vida e do mundo de outrora. Lá ao canto, onde uma luz intermitente de algum neon brilha fraca ela enxerga um emaranhado de pernas. Não sabe dizer quantos. Mas eles estão lá. Aos tropeços ela se levanta, uma criatura abjeta sob aquela fossa desgraçada e miserável. E quando chega perto reconhece neles a satisfação e a saciez. É tarde, como ela tinha medo. A caça já serviu a todos. Apenas aquela negra ainda se agita ali por perto mantendo perto de si um naco de alguma coisa. Ela nem mesmo consegue entender exatamente suas próximas ações, mas acontece. Ela está em cima da negra buscando desesperadamente em suas mãos aquele pedaço de qualquer coisa. Sons guturais de desespero e terror acompanham o ataque. Mesmo em posição de igual para igual já seria difícil que ela superasse a negra. Hoje é quase impossível. A negra já vem alimentada e com todas as forças a dias, ao contrário dela, que padece da fome e da inanição. A negra facilmente se desvencilha do abraço que embute uma dezena de arranhões e comprime a cabeça dela na parede mais próxima. Ela se contorce e esperneia urrando guturalmente, e a negra, com sua força e experiência de tantos confrontos a derruba no chão, comprimindo a cabeça dela agora com seu pé direito. Com a flexibilidade de uma ginasta do improvável, a negra, ainda comprimindo a cabeça dela com o pé, encosta sua boca próximo ao ouvido dela e emite um grito ainda mais gutural e mais alto que os dela. O recado está dado. Nem a fome é capaz de passar por cima desta derrota. A negra solta a cabeça dela, e ela se arrasta, derrotada, para um dos cantos escuros.

Nada mais resta ali hoje. Nada ali aplacará a sua fome. Dolorida e humilhada, ela se arrasta até o cano mais próximo e se entrega de volta a água que escorre com força neste cano. Se entrega a sujeira e aos velhos odores pútridos (onde o cheiro de urina é mais forte). O tempo passa e só pode ser medido no arrastar e no espremer úmido. O ar puro a alcança com fim da tubulação, levando embora um bom tanto dos odores malditos. E ela parece então encenar uma luta de nascimento daquela fossa lúgubre. Está fraca, enjoada. E desta vez o enjoo não vem da podridão. Vem de sua fome. O cansaço a vence e ela mal consegue se jogar em um dos cantos escuros da cidade. E ali apaga. Se soubesse ainda medir as horas, ainda assim não saberia dizer por quanto tempo esteve desacordada. Sabe apenas de um barulho, um som. No atordoamento de seu acordar não sabe dizer se é perigo ou a salvação. Então ela faz o que sabe fazer de melhor. Espreita e observa. E mal pode acreditar em sua sorte. Caça. Fresca. Disponível. FOME! Mas ainda que com toda esta excitação, ela consegue manter o controle. Aproveita as sombras. Avalia. Espera e, enfim, ataca. Em segundos está em cima do homem que cometeu o maior erro de sua vida e avaliava com o capô aberto e despreocupadamente o motor arriado de seu carro. Ela sabe como fazer. Ela não deixará esta caça escapar. Ela matará enfim sua fome. Ela facilmente subjuga o homem, que ainda reluta em entender que sua vida chegou ao fim. E ela faz aquilo de que nem se lembra mais do significado ou do porquê, mas o faz sempre que domina uma caça. Ela alcança o ouvido do homem e diz: "Deixe todo o seu amor e seu desejo atrás de você". E então nada mais resta. Nem mesmo a fome. Só o Êxtase.

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Heitor Chaves

O horror e o mistério sempre carregaram suas sombras sobre meus gostos. Ainda que siga a velha máxima de que um bom escritor deva ler de tudo, das bulas de remédios a postulados científicos, quando me sobra uma escolha, são estas sombras que ditam o caminho.

Idade: 39

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