Sexta, 14 Outubro 2016 06:04

O Outono da Inocência

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The very atmosphere was redolent of death. The peculiar smell of the coffin sickened me; and I fancied a deleterious odor was already exhaling from the body. I would have given worlds to escape — to fly from the pernicious influence of mortality — to breathe once again the pure air of the eternal heavens. Edgar Allan Poe, “Berenice”

I
Segunda-feira, outubro. Dia quente. Talvez chova; talvez não. Preparei um delicioso almoço para minha mulher. Ela está linda, tem a pela alva e me olha como se eu fosse o seu próprio desejo. Amo-a, assim, a cada instante e com toda a alma, para além do que é possível dizer. Ela não tem fome, é sempre assim.

II
Hoje acordei sem vontade de existir. Fizemos amor, fumamos juntos e esperamos que um amigo qualquer nos convidasse para sair. Eu a vesti quinze vezes e a despi outras tantas, procurando a roupa que se adequasse perfeitamente ao seu novo tom de pele. O convite não chegou, assistimos TV e fomos dormir.

III
Só podia olhar para ela. O meu universo tem se tornado cada dia mais parecido com a palma das mãos da mulher que venero.

IV
É o fim de uma tarde alucinante, nos reinos onde jamais ousei pisar. Minha vida noite adentro, delgada, intangível. Minha eleita, a mulher que amei no abismo da alma humana, ser a quem sonhei dar o que concebia como felicidade. A perfeição individual que só se realiza no outro e que escapa, sempre. Mas ela era outra e eu o mesmo. Cada vez que deitava ao lado daquela criatura doce, a única que realmente me conheceu, meu corpo se diluía no dela. Só aquele corpo frio poderia arrefecer o inferno no em que meu espírito ardia.

V
Ela estava deitada, despida, enrolada em um lençol branco. E o calor invadia o quarto, o cigarro aquecia ainda mais o ambiente. Pairava um cheiro de café, vindo do apartamento vizinho. Tive fome e pensei e quis sair: lá fora, na rua, no caos do mundo. Minha fêmea continuava ali deitada, imóvel e pálida, com um esboço de sorriso na boca roxa.

VI
Não nos vimos durante a tarde. Às oito horas a levei para a banheira. Sua pele adquirira um tom diferente, azulado. Percebi então os ferimentos: na cabeça, no abdômen e no pescoço. Aquilo a deixava com uma expressão um pouco abatida, mas nada que pudesse corromper sua beleza profunda.

VII
Enfim, na manhã de hoje, resolvi sair para comprar comida. Quando saí do apartamento notei a presença de muitos vizinhos perto de minha porta mas – sem lhes dar maior atenção – desejei bom dia e me dirigi às escadas, com a pressa que só os amantes conhecem.

Ao voltar, vi desabar o mundo. O prédio estava completamente cercado, policiais, por todos os lados, um aglomerado imenso de pessoas que assistiam perplexas a algum estranho caso. Não tive coragem de me aproximar. Saí, sem destino, pensando o pior, quando vi que um policial com uma máscara abria a janela de meu apartamento.

VIII
Tarde da noite, entre as árvores, eu corri e corri. Não queria mais ver o sol ou a manhã, e carregava a vida, em frangalhos, nos bolsos. Queria que não tivesse acontecido, desejava ardentemente o irreversível e me perdia no jogo de luz e sombras que a cidade me impunha. “Fraco! Acorde! Covarde!”, aqueles gritos ainda me estourando a cabeça. Lembranças do dia cinza que abraçou minha tragédia. E ainda, ainda viva, aquela vontade imensa de ser Deus e de poder matar o tempo com um beijo divino. Era minha culpa. Acordara tarde e já não havia o que fazer. Eu a feri e a deixei agonizando por dias ao meu lado, possuindo-a quando ela já quase não respirava e mesmo depois. Deus! Como pude? No fim ressurge a sanidade.

A única alternativa era perder-se na única possibilidade: apertar o gatilho... adormecer. E ser, ao fim de tudo, o mais vil dos mortais. Ser aquele que não estava lá e que não soube da verdade que era dita. Não presenciei a partida daquela alma, não pude tocar uma vez mais o corpo que lentamente apodrecia em meus braços. Não pude ser senão culpado. Arrisquei tudo e perdi. Percebi, no outono de minha inocência, que a vida parecia-se com o aquele velho jogo infantil no qual escolhíamos prendas desconhecidas com os olhos vendados.

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