Sexta, 14 Outubro 2016 06:15

A menina do ponto de ônibus

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David não sabia o que ele mais gostava na garota sentada no ponto de ônibus. Se lhe perguntassem, ele poderia dizer que eram os cabelos, loiros e cacheados, que reluziam ao sol da manhã como fios de ouro. David podia sentir o perfume da vasta cabeleira da menina, mesmo não se sentando tão perto dela. Ela cheirava a morango.

O menino também poderia responder que aquilo que ele preferia em sua colega de espera eram seus olhos. Eles eram castanhos, mas de um castanho tão claro que é raro de se ver. Se recortados e colocados em outra pessoa, os olhos seriam misteriosos, até mesmo sinistros. Mas nela, com seu ar de placidez e doçura, aqueles olhos passavam apenas serenidade.

David não sabia o nome da menina. Eles não se falavam. Ela usava o uniforme de uma escola católica, uma das mais bem conceituadas em qualidade de ensino. Era pontual, chegava sempre entre 06h31 e 06h34. Seu ônibus chegaria, em média, às 06h40. Eram os minutos mais preciosos para o dia de David.

No ponto de ônibus sempre havia mais gente. Apesar de cedo, das ruas vazias e da sensação geral de sonolência – até o sol parecia se arrastar sem convicção nos céus – havia outros estudantes, como eles, e muitos trabalhadores. A garota raramente se sentava. Ficava sempre na beira da calçada, com os olhos atentos aos números dos ônibus, ansiosa para que o seu chegasse. Quando conseguia se sentar, ela até abria um livro. Era só charme, pois ela ficava desconcentrada, com medo de perder sua locomoção.

Apesar da obrigatoriedade de usar uniforme, a menina se mostrava vaidosa. Usava sempre pulseiras, brincos e, apesar de criança ainda, passava um batom, em tom claro, para realçar seus lábios. Tudo com muita delicadeza. David, na tentativa de ser notado, também tentou chamar sua atenção com adereços. Às vezes usava até um chapéu, uma boina que ele herdou do pai. Tentava deixar os sapatos impecáveis, limpos e bem engraxados. Quando estava sem o chapéu, penteava bem os cabelos de forma a torná-los bem alinhados, o que não era tarefa fácil.

Mas, por mais que o menino se esforçasse, a garota não o notava. Ela estava concentrada demais, seja em suas leituras ou na espera de seu ônibus. Às vezes seu olhar até passeava pelo ponto de ônibus, mas o menino, com seu sorriso amarelo, torcendo para que ela lhe retribuísse o cumprimento, ficava sempre no vácuo.

Para piorar, David era tímido. Uma timidez de doer o peito. Quando a garota fazia menção de olhar para ele, já estava gelado, sem ação. Por mais que ele ansiasse por se aproximar dela, de ter sua companhia, mal se sentia apto para um contato visual. Muito menos para um diálogo. Ficou, dessa forma, cultivando um ingênuo amor platônico. David lamentava os feriados, fins-de-semana e férias, pois era datas que o afastavam de sua amada.

Os anos foram se passando e a menina cresceu. Não ficou muito alta, mas seu corpo foi ganhando curvas de moça. Os longos cabelos cacheados foram cortados, num penteado mais moderno. O batom discreto de outrora foi substituído por outros, de cores mais vivas. Ela já não lia no ponto de ônibus, era mais comum vê-la com o celular na mão, conversando com as amigas. Talvez até com amigos, David especulava, desconfiado. Mesmo o horário de suas aulas mudou. Agora, a menina estudava à tarde e pegava o ônibus por volta de 12h20. Portanto, o cenário agora era outro: embora fosse o mesmo ponto de ônibus, a agitação do horário de almoço fazia todos parecerem famintos ou com pressa. Para sorte de David, ele também mudou seus horários e continuava saboreando a companhia silenciosa de sua amada.

Tirando isso, pouco havia mudado para o garoto. Ele continuava tímido, recolhido ao seu canto no ponto de ônibus. Chamar a atenção da moça já nem passava por seus planos. David estava resignado a admirá-la, apenas. Havia perdido a pretensão de manter algum contato com a guria. Inclusive porque, quanto mais adolescente ela se tornava, menos acessível parecia estar.

O garoto, porém, continuava só tendo olhos para ela. David, ao vê-la apontando na esquina, já se agitava todo. Acompanhava os seus passos, um por um, até que ela chegasse ao ponto. Ele gostava do jeito que ela andava, o corpo empinado com classe, o olhar decidido, um leve balanço de cintura.

Um dia, porém, enquanto a observava, ela ainda do outro lado da rua, David viu um homem estranho. Ele também acompanhava os passos da garota. O homem devia ter cerca de 40 anos, cabelo raspado, braços peludos e mãos grandes. Poderia estar bêbado, drogado. Tinha aspecto de sujeira.

A garota seguia seu trajeto normal, não havia visto o homem. Quando chegou perto dele, o sujeito lhe disse algo. David, de longe, não pode distinguir o que era. A menina se assustou. O homem, porém, continuou seguindo-a, dizendo coisas às suas costas. Ele fitava, hipnotizado, seu quadril e suas pernas.

Num avanço brusco, o homem tentou apalpá-la. A garota conseguiu se esquivar e correu. David, também. Em sua miudeza, apesar de toda timidez, ele se lançou para tentar ajudar sua amada. Lutaria com o homem, se preciso. Precisava protegê-la. A menina, desesperada, correu até a rua, os olhos arregalados. Ela não viu o ônibus vindo em sua direção. O motorista não teve tempo de frear. A pancada a jogou longe.

Enquanto o homem corria em outra direção, David se aproximou da garota. Ele tremia como nunca. E não era pela visão, o sangue escorrendo do corpo retorcido. Era por ser ela. A expressão da menina estava congelada num semblante de pânico.

Mas os olhos da menina se mexeram. Não os do corpo, mas seus olhos verdadeiros. E desta vez, como nunca havia ocorrido antes, ela pôde ver David. Apesar de suas lágrimas, o menino a ajudou a se levantar. Apresentou-se, descobriu que ela se chamava Úrsula. A garota precisaria dele a partir de agora e David ficou feliz por poder ajudá-la. Abriria mão da timidez por isso. Por ela.

Hoje, ainda que não possamos vê-los, eles estão lá, em suas esperas no ponto de ônibus. E por mais que suas conduções estejam demorando, ao menos eles têm um ao outro.

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Luís Fernando Amâncio

Moro em Belo Horizonte, onde fiz graduação e mestrado em História pela UFMG. Sou autor do livre "Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas" (Ed. LiteraCidade). Atuo, atualmente, como colunista no site Digestivo Cultural.

E-mail: luis.amancio@gmail.com

Link: www.twitter.com/fernandoamancio

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