Sexta, 14 Outubro 2016 07:55

O Boi da Cara Preta

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Mamãe cantava o Boi da Cara Preta todas as noites para eu dormir. Eu chorava porque esperava pelo Boi que nunca veio. Esperava que ele me arrancasse dos braços daquela mulher e me levasse para um mundo que seria só nosso.

Mais tarde nasceu minha irmã. Cara de Joelho chorava toda noite. Para resolver o problema, mamãe decidiu recitar O Boi da Cara Preta. Era o remédio para todas as noites. Assim ela se tornava especial não só porque gostava de ouvir, mas pelo fato da música aproximar as duas cada vez mais.

Numa noite, eu estava em meu quarto deitada, esperando ouvir uma cantiga de ninar vinda do quarto ao lado. Na janela os pingos de chuva desenhavam formas que se tornavam vivas dentro da minha cabeça. Eu via criaturas atingindo a vidraça e escorrendo sem sucesso para o seu destino: o abismo. Lá se transformavam em seres rastejantes limpando toda sujeira imposta pelos humanos. “A chuva representava a purificação, a limpeza da sujeira de hoje e das próximas que virão”.

— Que Diabos andas fazendo, Ana?

Uma voz estridente saiu como um trovão.

Quando chegou a escadaria, tinha certeza que se tratava de minha mãe. E quem poderia ser? Um amigo? Um monstro? O Boi da Cara Preta a quem sempre esperei? Não.

A voz se expandiu para o quarto e logo senti os fios de cabelos se tornarem um nó nos dedos de uma mulher. Ela tinha o rosto aquilino com espinhas que cobriam parte das bochechas e os olhos grandes redondos. Era minha mãe que me arrastava pelos cabelos, me obrigando a fazer tarefas domésticas. Descendo pela escadaria me lançou como quem lança um brinquedo para a cozinha onde já estavam posicionadas minhas ferramentas de trabalho: uma vassoura, um balde e um esfregão.

— Agora sim está em seu habitat natural. A mão encontra sua luva. Comece pela cozinha, depois vá para os quartos, a sala e termine no quintal. Eu vou para o casamento da minha irmã mais nova e volto assim que puder.

E dizendo isso despontou pelo quintal, apanhou um guarda-chuva e desceu a rua.

Pra mim era o começo de uma noite longa.

Sem escolhas, comecei varrendo a cozinha e depois passei o esfregão no piso. Limpei com sabão, lavei e sequei. Fui para os quartos e fiz o mesmo com os restantes dos cômodos. Apenas no quintal fiquei por uma hora mais ou menos. Quanto mais retirava água mais despencava dos telhados. Quase desistindo, a chuva parou.

Cansada fui para meu quarto tentar descansar. Desmontando sobre o colchão me despindo de toda sujeira, cochilei.

Não durou alguns minutos e ouvi um grito de uma criança. Pensei que estava sonhando, então tentei cochilar novamente. Não foi possível. Dois gritos após um soluço, percebi que se tornava um choro agudo e irritante. Era um pesadelo, só podia ser.

Aos poucos, me levantei com dificuldade. Cambaleando, cheguei ao quarto de minha irmã. Fui até o berço e encontrei ela berrando.

Tentei tampar sua boca com a mão, mas não houve efeito. Fiquei pensando no que podia fazer. Eu estava atordoada com o som.

— Vamos, Cara de Joelho. Pare de chorar.

BuáááÁH!

Lágrimas escorriam do rosto para os lençóis.

— Vamos!

Não sabia por onde começar. Tinha esquecido o que a mamãe fazia. Claro: “O Boi da Cara Preta”. Sim, é isso. Preciso cantar. Mas assim? Não.

Deixei-a por um momento no quarto e fui para a lixeira. Procurei maços de cigarros: o remédio que minha mãe usava para curar sua loucura. Juntei vários maços e coloquei num pote. Fui para o meu quarto e em frente ao espelho manchei o dedo indicador nas cinzas. Toquei a bochecha e desci até o queixo. Do queixo fui pintando o resto do rosto, cobrindo a testa e os olhos. Por fim estava com a cara preta.

Fui até o quarto pronta para cantar a cantiga de ninar. Me aproximei do berço e olhei nos olhos da minha irmã. Ela desviou o olhar, mas como estava em um berço eu abaixei a cabeça para que ela não me perdesse de vista.

Senti que era o momento:

“Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega esta criança que tem medo de careta.”
Mas ela não parava de chorar.
Não adiantava.

— Eu sou o Boi da Cara Preta, irmã. Me reconhece? — Trouxe suas mãos para tocar a tintura do meu rosto. —Vim para te livrar desse inferno.

Seu olhar era de pânico. Estava colocando toda sua vitalidade no grito. Lágrimas já faziam parte de sua vestimenta. E cada vez que eu cantava, tornava as coisas piores. Minha voz não aguentava mais cantar.

— Pare de chorar! Pare!

Posicionei a mão em sua boca, mas ela me mordiscou em resposta.

Procurei algo que pudesse abafar o grito e encontrei um travesseiro. Coloquei-o sobre sua boca, escondendo parte do rosto e pressionei para abaixo com força. O choro foi se perdendo em uma respiração forçada. De repente, ela parou de se mexer. Não estava mais respirando.

— Ana, que diabos andas fazendo?

A voz totalmente reconhecível entrou no quintal e depois saiu para a cozinha.

“Maldita seja...”

Do jeito que estava, corri para o banheiro sem que ela percebesse.

— Como está Lucia?

Os passos seguiram para o seu quarto, depois para o quarto de Lucia.

Alguns segundos um grito.

— Que diabos Ana, isso é sangue? ... Não, não pode ser! ... Tem sangue no travesseiro. Está saindo do nariz de Lucia! Que droga é essa? Cinzas? Você fumou aqui? Não está respirando! Ana você matou Lucia? Sim, Ana, você matou Lucia! Assassina!

Meu coração queria sair da garganta. Assim que ela começou a me chamar de assassina eu tranquei a porta do banheiro.

Ouvi gavetas sendo abertas e fechadas. Ela procurava por algo e não encontrava.

— Ela chorava sem parar, tinha de fazer alguma coisa. Eu cantei O Boi da Cara Preta para ela como você fazia. Eu fui o Boi da Cara Preta. Eu ia levar ela fora desse mundo.

Finalmente ela chegou em frente a porta.

BuUUM!

Ela começou a esmurrá-la.

— Maldito seja o dia que você nasceu! Maldito seja meu sangue que corre em suas veias! Maldita! Você matou a minha vontade de viver. Arrancou meu coração. Não vivo sem ela. Estou perdida por sua causa. Lucia! Lucia! Onde está minha filha?

Esgotou-se e desabou no piso, desmaiando.

Quando o silêncio reinou, tomei coragem para sair do banheiro. A porta abriu lentamente e assim pude ver sangue nas mãos de minha mãe. Ela estava de frente deitada para a porta. Na aproximação ela saltou e me pegou pelo braço.

Fui atingida por um tabefe que me obrigou apalpar as vestes. Minha mão encontrou um objeto perfurante e quando voltei ao encontro dela pelo solavanco, desferi um golpe de baixo para cima. Rasgou-se a pele e penetrou na carne, deixando um buraco profundo.

Em estado de choque, mamãe ficou olhando para o ventre até banhar-se de sangue. Atordoada caminhou até mim, tropeçando e me agarrou pelo pescoço.
— Restam poucos minutos mamãe. Este é o fim para nós. Você está sangrando e não terá forças para me estrangular. Pensou que estava me livrando de monstros, mas acabou por criar um. Eu seguirei meu caminho e construirei meu mundo... sozinha. Não brinque... com os monstros... dos outros.

A força antes empregada no início foi se perdendo. Quando desfaleceu vi uma careta em seu rosto. Foi ai que entendi que ninguém viria me buscar. Eu era o boi dos meus sonhos.

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