Sexta, 14 Outubro 2016 08:48

Despertar

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Ela acordou de súbito. Seus olhos perscrutaram a escuridão. Nada se destacava ali, além do som de sua respiração ofegante e o toque surdo de seu coração contra o peito. Ela permanecia imóvel. Uma fina camada de suor lhe subia as costas até a nuca, onde se fundiam com as mechas escuras do cabelo. Ela apurou os ouvidos, mas o local parecia isolado. Suas mãos tatearam o próprio corpo e ela se descobriu vestida, sem amarras, ou correntes.

Seus olhos começaram a se acostumar com a escuridão, mas isso não a acalmou. Perguntas confundiam seu raciocínio e ela sabia que não estava segura. Se pôs de pé e sentiu um leve balanço no quarto. Algo bateu contra o chão, vindo de baixo. Ela tateou o piso, tentando decifrar onde estaria. Um balanço mais forte a acometeu e os ruídos ocos aumentaram, a jogando sentada ao chão.

Ela estaria em alto mar? Tentou pensar na cidade mais próxima com mar que tinha de casa, mas está ficava há centenas de quilômetros. Não seria possível.

Ainda no escuro ela tentou rebuscar nas lembranças como viera parar ali. Seus pés estavam gélidos pelo contato com o chão e agora ela buscava refúgio em um canto qualquer. Sua cabeça pesava a cada tentativa de acessar as memórias e de qualquer forma não havia nada lá. Ela precisava apenas sair dali. Talvez lá fora as lembranças voltassem.

Ela correu as mãos pelas paredes, desenhando um retângulo em volta de todo o quarto. Não havia interruptores. Na ala contrária a que acordara – ou seria exatamente onde acordara? – ela encontrou uma maçaneta. Girou em vão e então começou a esmurrá-la. Até seus gritos pareciam abafados, nascendo e definhando ali mesmo com ela, perdidos entre as paredes escuras e o chão frio.

Voltou para o canto e ocupou o menor espaço possível, tentando sentir a si mesma, as mãos percorrendo os braços opostos e as pernas junto ao peito.

Com os nós das mãos ela tocou o chão. Agora de novo, porém mais forte. O Som perpassava pelo chão e ecoava de volta em resposta para ela. Havia algo logo abaixo dela; o chão não estava gelado por ser cimento ou azulejo, era algo transponível, álgido... Vidro, veio a sua mente. Ela estava sob uma espécie de chão de vidro. Procurou por toda a extensão do cômodo, mas sabia que ali não havia nada com que pudesse forçar sua investida contra o solo. A sensação de falta de ar voltou a sublimar sobre ela.

Um ruído denso fez o quarto todo vibrar. Motores, ao que parecia. Em um instante uma luz se acendeu ao fim de um corredor estreito e baixo. Ela percebeu que a porta também era de vidro e conseguiu ver a extensão que a separava da luz distante. A próxima luz se acendeu e ela aproximou-se da porta, tentando ver se alguém viria do outro lado. As demais luzes foram se acendendo, ritmadas uma a uma, um estalido forte para cada nascer de foco; o corredor cada vez mais descoberto. Ela encostou-se ao vidro e um rosto apareceu ao estampido da última luz. Com o grito reteso na garganta, ela cambaleou para traz, seu corpo se chocando grave contra o chão. Ali no escuro de seu cômodo ela tentou não ser vista pela figura que estava atrás da porta.

Ele tinha os pés separados, calças escuras e camiseta branca, com manchas amareladas próximas a gola. A pele do pescoço parecia queimada e seu tom diferia do rosto. Mascava algo que ela não conseguia enxergar; Sua boca salivava em excesso, e nos cantos algo branco se acumulara. Ela não conseguiu encará-lo nos olhos, olhando apenas de relance para os cabelos emaranho e sujos.

- A luz do quarto, Benny – Ele gritou para o corredor vazio. A voz grave ecoando por todo o quarto e fugindo pelas estreitas paredes.

Ela sabia o que estava por vir. Olhou para o teto e foi cegada pela invasão da luz no quarto. Passou a mão sobre os olhos e a colocou em forma de concha para encarar o homem a sua frente, separado apenas por uma fina porta de vidro. Ele continuava parado espreitando. Colocou a mão no grande bolso da frente de sua calça e ela ouviu o tilintar de um molho de chaves. Ele ia entrar. Ela se pôs de pé e começou a correr por todo o quarto, buscando outra saída. Todas as paredes, o teto, nada oferecia uma chance. O quarto tremeu mais uma vez e os ruídos surdos emergiram do solo novamente. Foi quando ela deu as costas para a porta e fitou o chão de vidro. Dezenas de corpos se amontoavam abaixo dela, roçando uns nos outros, inertes, consumidos pela água do mar pouco a pouco. A cada onda seus escalpos bramiam contra a estrutura de vidro em clamor esconso.

Com um clique a porta se abriu atrás dela e ela pôde perceber o primeiro passo dele no quarto, a respiração densa em sua nuca, o hálito ofendendo seus sentidos e o toque morno dele em seu braço. Ela fechou os olhos em silêncio, o medo eclipsando suas ações e então pode por um minuto sentir o cheiro pútrido do mar decompondo os corpos abaixo deles. Logo ela estaria ali, tentando emergir a cada onda, suplicando em sons moucos à deriva.

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2 comentários

  • Link do comentário Jorge Eduardo Machado Sábado, 15 Outubro 2016 00:59 postado por Jorge Eduardo Machado

    A trama não traz qualquer reflexão nem apresenta um conflito minimamente identificável. É o mero despertar de uma vítima de um psicopata. Mas por que está ali? Quem é esse homem? Apresentar um dilema insolúvel é como dar ao leitor uma foto, quando ele esperava ver um filme. Ou seja, apresenta-se uma história estática, um simples exercício de sadismo. Mesmo na descrição, faltou algo; até agora tento entender como uma camada de suor pode subir pelas costas até a nuca, num claro desafio à lei da gravidade. A linguagem não é ruim, o que ainda rende algum elogio ao conto. Dei uma estrela.

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  • Link do comentário Jorge Eduardo Machado Sábado, 15 Outubro 2016 00:58 postado por Jorge Eduardo Machado

    A trama não traz qualquer reflexão nem apresenta um conflito minimamente identificável. É o mero despertar de uma vítima de um psicopata. Mas por que está ali? Quem é esse homem? Apresentar um dilema insolúvel é como dar ao leitor uma foto, quando ele esperava ver um filme. Ou seja, apresenta-se uma história estática, um simples exercício de sadismo. Mesmo na descrição, faltou algo; até agora tento entender como uma camada de suor pode subir pelas costas até a nuca, num claro desafio à lei da gravidade. A linguagem não é ruim, o que ainda rende algum elogio ao conto. Dei uma estrela.

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