Sexta, 14 Outubro 2016 09:14

Moça em Copacabana

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Tento atravessar a rua, sob chuva forte; meu lado esquerdo está ensopado. Na calçada em frente, vejo passar uma jovem sem proteção alguma, sombrinha ou boné, colegial indo para a casa naquele fim de tarde. Separa-nos a enxurrada, porque os bueiros, sempre entupidos, vazam aos borbotões. Ela dá uma olhadela indiferente em minha direção e, quando constata minha idade, assume por inteiro a indiferença. Também confiro a sua e, embora meu olhar seja menos desinteressado, logo desisto.

Tudo isso acontece quando nos relacionamos apenas pelo lampejo de um olhar, sem nem cruzarmos um com o outro: ela toma uma direção muito diferente da minha. Esta tarde é a mesma tarde: como pode conter igualmente nós dois? Ou será que não, que este dia se multiplica tantas vezes quanto as almas que se movimentam nele? Logo estaremos tão atrasados – ou adiantados – um em relação ao outro, que não haverá probabilidade de encontro entre nós. Somos mutuamente desconhecidos e anônimos.

Devo acrescentar que nossa relação, sob esta chuvarada, é dificultada pelo jornaleiro, que me alcança e, já ao meu lado, grita: – Mas que chuva, hein?! Assusta-me a obviedade do comentário e até a simples existência de palavras faladas.

Ainda à procura de um meio seguro de atravessar a rua, noto que é de manhã. A jovem, comedida, empurra um carrinho de bebê, com o marido ao lado. Vão às compras de sábado. Ou aproveitam o tempo fresco para passear, desenferrujar as pernas, dar alguma alegria à criança que agita os bracinhos, no fervor de ser transportado pelas imagens que passam.

Continuo ali, sem me decidir – não posso imaginar o que me espera do outro lado da rua, de calçadas bem tratadas, sem fraturas no cimento e com as pedrinhas da decoração muito bem alinhadas. Do outro lado, a jovem – mas não é, agora, tão jovem – caminha com passo apressado, decidido mesmo. Está só e parece triste, mas resoluta. A idade, talvez, produza nela a expressão de gravidade e desespero. Sem forças para seguir adiante, quanto mais expressar meus possíveis sentimentos de interesse ou solidariedade, observo as luzes se acenderem e um pedaço de lua surgir entre nuvens. Desce a noite. A moça, de vestido, sapato e tudo, entra mar adentro.

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Rogerio Luz

Professor aposentado da UFRJ, com artigos e livros publicados na área de teoria e crítica da arte, além de sete coletâneas de poemas. Ganhador do Prêmo Minas de Literatura, categoria poesia, de 2013.

Idade: 80

Profissão: Professor

E-mail: rogerluz36@yahoo.com.br

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