Sexta, 14 Outubro 2016 09:22

Deserto sem céu - Conto letárgico dos sentimentos

Escrito por
Avalie este item
(6493 votos)

Uma borboleta repousava em minha pele marcada. Já fazia algum tempo, mas sequer percebi, e quando me dei conta fui abruptamente surpreendido com uma sensação áspera. A letargia incomodava ocasionalmente em situações assim. Segui minha rotina – Todos os dias intensamente iguais – Perdida nos mares, submergida numa constante apneia. Às vezes me perguntava: Como vim parar aqui? Mas, momentaneamente pensava no que li num recorte antigo de uma velha revista: “Minha alma gélida congelaria o inferno”. Refleti, e não encontrei significado, desconheço essas crenças, acredito no que me toca, por mais que eu raramente sinta, no que vejo, mesmo embaçado. Entretanto, tenho esperança, tenho dúvidas. Uma bipolaridade inerte numa mente nada criativa e muito confusa. Em meio ao caos e a fumaça era possível ignorar o cheiro de sangue e morte dando atenção às lindas árvores de cerejeira. Suas flores encobriam os roubos, assassinatos e horrores de uma cidade constantemente em evolução. “Viva a democracia, a Constituição, aos bons princípios. Viva a revolução. Viva a liberdade de expressão.”

Era um dia como qualquer outro, um dia simples na rotina de um homem comum. Um homem que respeita a lei e a ordem. Um homem que repara nas repetidas rupturas climáticas, e mudanças constantes nos humores de seus próximos. As pessoas davam uma calorosa recepção de alegria, e no mesmo instante, iniciava-se uma tediosa chuva de tristezas e conflitos internos, da euforia à raiva. Pequenos sorrisos transformavam-se em dor e sofrimento! Subjetivamente é tudo que sei fazer, me perco facilmente, sou desatento (muito, muito mesmo), então, me pego observando as mais simples características humanas, tentando me adaptar e reservar algo em minha curta memória. Amnésia consome os sentimentos mais que os próprios momentos. Porém, hoje é dia de mudar. Comer minha deliciosa refeição industrial, beber minha cerveja e celebrar a decadência, só que em vez de dobrar à esquerda, dobrarei à direita. Mudança complexa depois de perder a carteira de novo, errar as chaves da porta, e esquecer o bule de café fervendo outra vez. Como consigo fazer isto? É deprimente. – PORRA – Gritar é fácil, silenciar a raiva e desespero de ser tão distraído é a parte difícil.

Repito: a honestidade sempre me permeou, com os bons valores morais e sociais. Mesmo que minha vida pareça confusa com inexatidões e desvios de memória, tenho certeza que sempre me esforcei pra me manter na linha. Certo? Preocupado com o mundo, culto e cheio de esperança, mesmo tão cético procuro buscar o melhor em qualquer situação. Contudo, desta vez, minha fé não bastaria. – Haha, Fé? – Eu deveria ter mais ilusões. Acreditar em milagres poderia me livrar de inúmeros equívocos. Foi nessa inexatidão que me perdi de uma maneira jamais conjecturada. Minha pressa e minha falta de atenção me fizeram cometer o maior erro da minha vida. Ser amante das músicas clássicas e apreciador das mais variadas artes não seriam suficientes para me purgar. O barulho do corpo por debaixo das rodas. O tinir dos ossos se partindo. Um som horrendo de músculos dilacerando-se. O carro derrapou sobre o corpo espedaçado, as manchas de óleo cintilantes confundiam-se com as de sangue, enquanto o pneu esfumaçava a estrada, ao som de Mozart. Ouvi com convicção ruídos de um cadáver dissipando-se enquanto meu carro seguia, e senti a brisa fria na tarde de sol. No ar, o doce aroma da morte. Lembranças da minha vida inteira tomaram conta da minha mente, e consequentemente ela trapaceia. Inunda-me com falsas esperanças, como se minha vida sempre tivera sido linda, plena e tranquila. Porém existe uma lembrança real: “– Eu te amo. Você sente o mesmo por mim? – A garota de pele alva não parecia responder de maneira sincera, mas o silêncio parecia me consumir”.

Observo no horizonte esfumaçado as belas árvores cor-de-rosa. Minha distração passara dos limites. Não percebi, mas na continuidade a brisa extinguiu-se. Meu carro arrebatou um cadáver e chocou-se no mais belo lastro florido da cidade. Vi plumas negras. Meu corpo gelou, e algo me tocou com a suavidade de uma pétala de girassol pairando entre o outono e a primavera. Pareceu-me por um momento que minha pele havia ficado macia e a letargia havia me abandonado. Um formigamento constante e torturante devorava-me, assim como um medo obscuro. Mas nada comparado ao que estava por vir. Pairava sob as folhas secas de outono. Vi a menina correndo, e meu carro destroçando seu corpo rúptil perante as rodas, seu sangue de tom roseado espalhou-se pela lataria fosca, e pelo asfalto esburacado. Então meu carro chocou-se na majestosa árvore da pequena cidade inebriante. Subitamente meu corpo estava pendurado de cabeça pra baixo numa sala vermelha. Implorei, chorei e berrei até arder minha garganta e meus olhos quase saltarem pra fora. Tudo que desejava era que fosse um pesadelo. Um dos piores sonhos ruins da minha medíocre estadia no planeta azul. Um desses pesadelos que lhe tiram o ar e lhe fazem acordar com o medo de não ter acordado, mas no fim, você está vivo. Contudo, desta vez não era um pesadelo. Meu desejo de despertar com as buzinas e sentir o cheiro do ópio ao meu redor tiveram fim.

A criatura que se aproximou de mim, carregava consigo uma espécie de lâmina ambígua, pois portava a sutileza de uma navalha, que outrora pertencera a um sádico, e continha o peso de uma espada usada apenas no momento da execução. Sentia seu fio percorrendo minha pele, abrindo feridas ora oblíquas, ora simétricas e peculiares. Sentia-me como um porco, mas não um porco qualquer, um porco destinado ao abate, onde seus restos putrefariam servindo de alimentos as larvas. Foi neste exato momento que percebi – Isso é real –, as dores tão intensas, me causavam desmaios constantes, no qual recompunha a consciência em questão de segundos. Mais vivo do que nunca, era completamente perturbador. Eu só queria acordar.

Almas soavam fervorosamente agonizantes. Observava seus olhares de desespero mais intensos que qualquer dramaturgia do meu mundo. Um homem de capuz aproximou-se, segurando a cabeça decepada de minha mãe, dizendo – Venha, vamos ver a neve –, antes que eu pudesse responder, ele tirou o capuz, vi o rosto pálido de meu pai, sorrindo, e o sangue que escorria de suas mãos aumentava constantemente o cheiro fúnebre da podridão. O choro de minha irmã mais nova sendo violentada e tendo seu frágil corpo esquartejado doía mais que as minhas próprias feridas. A consciência racional extinguia-se aos poucos. Só queria morrer. Mas como? Eu já estava morto, e sofreria lentamente, para sempre, ponderava eu, nos pequenos surtos que tinha, já que na maior parte do tempo ficava visualizando imagens perturbadoras. – Me perdi tanto que sem perceber cheguei ao inferno? – Eu pensava enquanto me mantinha lá! Porém, neste momento, estou apenas bebendo uma xícara de café, deitado sob os corpos empilhados de um deserto sem céu, banhado em sangue. Como foi que isso aconteceu?

Eu me distraí outra vez...

Lido 8436 vezes Última modificação em Segunda, 07 Novembro 2016 10:56
S. d. Castelly

S. d. Castelly, é um pseudônimo de Samuel Castro Borba, ambos completamente apaixonados por literatura e psicanálise. Envolvidos em turbulentas discussões sobre o universo e a mente humana, que às vezes se confundem, entre pensamentos estelares e estrelas pensantes.
Desde pequeno assíduo leitor, e apaixonado por ficção cientifica, suspense, fantasia e subjetividades implícitas em cada verso, em cada texto. Criando teorias para satisfazer-se e imaginar novas possibilidades para este entediante mundo.
Ademais, é comum, confuso e sonhador. Buscando nas palavras e nas letras os caminhos para sair desse labirinto chamado vida, da melhor forma possível.

8 comentários

  • Link do comentário Amábili Sexta, 13 Janeiro 2017 13:41 postado por Amábili

    Nhaaaa ele escreve mt bem!!
    Parabéns Samuelvis!! ^^ Continua!

    Relatar
  • Link do comentário Roberto Monteiro Terça, 08 Novembro 2016 00:11 postado por Roberto Monteiro

    O que eu não entendo é essa diferença enorme de votos do segundo lugar para o primeiro. Deve ter rolado uma campanhazinha nas redes sociais. Ambos textos são bons, não justificaria tamanha diferença.

    Relatar
  • Link do comentário L.A. Fernandes Segunda, 07 Novembro 2016 21:03 postado por L.A. Fernandes

    Ganhou o concurso merecidamente. Conto fantástico!

    Relatar
  • Link do comentário Anastácia Sexta, 28 Outubro 2016 04:14 postado por Anastácia

    Sua distração me deixou agoniada ao ponto de roer as unhas. Se tiver livro, já sei que perderei os dedos. Nunca pare de escrever. As pessoas precisam (sim u.u) ler as suas ideias.

    Relatar
  • Link do comentário Joana Sexta, 28 Outubro 2016 01:16 postado por Joana

    Muito bom!!
    Genial, obrigado por compartilhar no grupo, sério, tu merece o melhor!
    Boa sorte!!

    Relatar
  • Link do comentário Samantha Sábado, 22 Outubro 2016 00:43 postado por Samantha

    Parabéns, mandou muito bem, ótima história.

    Relatar
  • Link do comentário Leonardo Nyverck Terça, 18 Outubro 2016 16:37 postado por Leonardo Nyverck

    Li muitos contos do site, mas confesso que tive que dar a nota máxima para este, apenas pelo fato da"diferenciação".
    Não é apenas uma história comum e envolvente. Segue ao passo de uma boa leitura, sem cansar e despertando curiosidade!
    Sentimentos e pensamentos distantes tomaram conta de mim e acredito que me inserir no universo do eu-lírico e, de certa forma, senti uma angústia inata, um sofrimento, e até falta de fôlego. Como descrito, me senti submerso. Aflorei coisas muito além da descrição superficial, gerando uma empatia na impossibilidade de se dizer tudo o que se sente.

    Parabéns!
    O texto está muito bem escrito. Notei pouquíssimos erros na gramática.
    Siga escrevendo.

    Abração!!
    Att:

    Leony

    Relatar
  • Link do comentário Priscila Domingo, 16 Outubro 2016 03:12 postado por Priscila

    Muito bom o texto, crítico e nada cansativo, com um toque de uma confusão fácil de compreender e um pouco surpreendente.
    No final confesso que me deu um gostinho de quero mais...
    Como foi que aconteceu? Haha
    Abraços

    Relatar

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.