Sexta, 14 Outubro 2016 09:30

Os Visitantes

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Eu não tinha medo do escuro. Não sou covarde. Não ria de mim. É, eu sempre durmo com as luzes acesas agora. Você também dormiria, também teria um monte de lanternas e luzes de emergência. Você não sabe o que eu passo.

Depois que li este livro maldito, eles não param de vir. Seja lá quem foi que começou com essa brincadeira infernal, acabou com a minha vida e com certeza eu não fui o único. Eu também não vou ser o último.

A primeira visita foi discreta. Digo a primeira porque foi a primeira que eu percebi alguma coisa estranha. Veja bem, eu moro sozinho, mas nunca perdi o hábito de trancar a porta do quarto. Minha mãe não entendia o conceito de privacidade, então eu precisava me guardar de alguma forma. Enfim, foi com muita surpresa que encontrei a porta do meu quarto entreaberta quando cheguei do trabalho. Mas sabe como é a correria entre trabalho e faculdade... me convenci de que não tinha trancado a porta direito.

Na hora, a história me passou rápido na cabeça, deu um frio na barriga, mas ri para a sala vazia, liguei a televisão e tentei ignorar a sensação ruim. Não dormi bem naquela noite. Ficava acordando com a sensação horrível de que tinha mais alguma coisa comigo no quarto, mas me obriguei todas as vezes a continuar com os olhos fechados até dormir de novo.

Dois dias depois aconteceu outra vez. Cheguei do trabalho e a porta do meu quarto estava entreaberta, a porta do guarda-roupa escancarada. Gelei por dentro. Não consegui dormir. Enquanto rolava na cama, ouvi eles chegando pela porta do banheiro: os passos arrastados, quase impossíveis de ouvir; uma batida suave na porta; o som da maçaneta girando devagar. Pulei da cama aos berros, acendi a luz do quarto. Não consegui abrir a porta. Fiquei lá de pé contra ela pelo que pareceu uma vida. Voltei pra cama e esperei amanhecer.

A partir daí, deixei as luzes acesas sempre que ia dormir, mas eles continuavam vindo. Eu encontrava a geladeira aberta, as portas dos armários com frestas mesmo sem que eu os tivesse aberto. Mas eles não desistem. Estavam somente esperando.

Faltou energia enquanto eu dormia. Acordei com o som das batidas. Abri os olhos e encarei a escuridão. A única luz era um reflexo fraco da lua. Meu coração acelerou. A batida se repetiu e a porta do meu guarda-roupa tremeu. Depois começou a se abrir, a mão escura e magra deslizando pra fora. Entrei em pânico, corri pra fora do quarto. A porta do banheiro entreaberta me deixou ver outro deles lá na escuridão, a porta do armário também aberta deixava a mão de dedos compridos caindo para fora, arrastando o corpo. Quase arranquei a maçaneta tentando sair de casa. Depois disso comprei as lanternas e as luzes de emergência, mas eu sabia que era só um paliativo.

Procurei o livro nas minhas coisas. Na verdade, era um tipo de caderno. Capa dura, preto, escrito à mão. Chamo de livro porque a primeira página tinha o título. "A Corrente". Também contava como alguém tinha sido perseguido por eles. Por que eu li isso?! Devia ter deixado onde eu encontrei. Nem sei se fui o único a ler.

Eu entendo porque o autor escolheu esse título. É como as correntes de internet. Você precisa passar à frente. Como uma pirâmide. Eles vão primeiro atrás dos últimos a entrar no jogo, depois vão atrás dos que os iniciaram e assim por diante.

Você tem que me entender. Eu não aguento mais. Não consigo mais dormir, quase perdi o emprego. Fico sempre vendo vultos com os cantos dos olhos, perco a calma sempre que vejo um armário, tenho crises de pânico quando o vento empurra as portas. Não me resta outra alternativa. Eles vêm durante a noite, se estiver escuro. Vêm através das portas. É realmente como um jogo. Eles querem te pegar. Você não pode deixar. Só há três regras: a primeira é que o jogo nunca acaba; a segunda, você precisa escrever uma história para colocar outros no jogo e ficar seguro; e a regra número três é que saber as três regras faz de você um jogador.

Me desculpe. Por favor, você precisa entender que eu não faria isso se não estivesse desesperado. Meu conselho é que mantenha as luzes acesas. Sempre tranque bem as portas, isso te dá um segundo a mais antes deles saírem. Boa sorte.

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