Sexta, 14 Outubro 2016 09:41

No fim do Mundo

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Tudo começou no dia do culto. Eu estava na fazenda da minha Avó e caminhava em direção a igreja acompanhada pela minha tia. A igreja não fica muito longe da casa, apenas alguns metros. Em um determinado momento avistamos próximo ao mata-burro¹ uma grande multidão, vinham caminhando lentamente e na frente das pessoas via-se um homem de cabelos grandes e que aparentemente era seguido pela multidão. Quando olhei aquilo perguntei a minha tia. Ela não soube dizer quem eram. Entramos, nos sentamos, fizemos a primeira oração. Então eles chegaram. O homem, o primeiro a entrar, caminhou pelo corredor até o púlpito², me perguntei se seria ele que atenderia o culto naquele dia. Dito e feito, ele subiu e começou a falar. Eu não entendia nada, pois a igreja havia se enchido e as pessoas que o seguiam glorificavam alto e aparentemente glorificavam a ele. Logo minha avó chegou e sentou-se ao nosso lado. Eu virei para ela e perguntei se ela conhecia aquele homem, ela disse que não. A situação estava estranha. Decidi ir ao banheiro. Saí e fui refletindo, foi então que a ficha caiu. Me lembrei do livro de apocalipse, parei em frente à janela e escutei o que o homem dizia. Ela se dizia Jesus. Me arrepiei. Tinham algo muito errado acontecendo. Fui depressa ao banheiro, enchi um copo com água e bebi o mais depressa possível. E comecei a pensar, se aquele homem, tinha cabelos grandes, se dizia Jesus, estava sendo seguido e adorado, mas meu coração não confiava nele. Só podia ser…

O anticristo.

Me desesperei, como é que avisaria a minha avó, tínhamos que sair da igreja e avisar aos outros. Mas como, sem fazer alarde? Entrei em um box e me sentei sobre a privada. Tomei uma decisão, não importa como, vou entrar lá e tirar minha avó e minha tia o mais rápido possível e depois vemos o que fazemos. Respirei fundo, mas já com as pernas bambas fui caminhando lentamente até entrar na igreja. Fui para o nosso banco. Elas não estavam lá. Não sabia aonde elas tinham ido, pois as bolsas continuavam lá. Talvez elas tenham ido ao banheiro. Voltei para o banheiro, mas elas não estavam lá. Voltei para a igreja, e o culto acontecendo. Olhei em volta, nada delas. Então presumi que elas estavam lá fora. Fui procurar. Quando eu saia fez-se um silêncio, me arrepiei de novo. O homem dizia para trazer as crianças até ele para que ele as abençoasse. Comecei a andar depressa. E quando sai, o alívio veio até mim. Bem, minha avó e minha tia não estavam lá, mas a lua estava e era vermelha como sangue, por um instante pensei que ela sangrava. Sai caminhando, voltei a casa e nada delas, para falar a verdade, não havia ninguém. Não sei se havia como me desesperar mais. Peguei o carro, tentei ligar e minha irmã não atendia. E meu pai dava caixa postal. Quando tentei ligar para outra pessoa, o telefone parou. Travou que não funcionava mais. Eu detesto dirigir, mas admito que se alguém atravessasse meu caminho, morríamos os dois, porque eu não estava dirigindo bem. Segui pela estrada, os animais corriam desenfreados e fiquem me perguntando quem havia soltado as vacas uma hora daquelas e a noite. Cheguei na cidade em pouco tempo. Desde que sai da fazenda não conseguia tirar o culto da cabeça. A coisa estava feia. Por alguma brincadeira do destino, segui o caminho automaticamente para a faculdade, quando me dei conta, estava em frente ao prédio onde tenho aulas. Pensei em retornar, mas alguma coisa estava estranha, o lugar estava todo aceso em um domingo à noite? E mais, haviam muitas pessoas correndo para dentro do prédio. Quando desci do carro para perguntar a alguém o que estava acontecendo. Percebi que a maioria das pessoas que corriam para o prédio eram crianças.

Comecei a me sentir tonta, mas me recompus e corri para entrar no prédio. Desci as escadas, fui ao subsolo (o meu lugar preferido, onde gosto de ler, porque é calmo e vazio). Não estava calmo e vazio naquela noite. Haviam crianças lá. Elas se escondiam embaixo da escada, peculiar esconderijo, eu diria. Não esconde nada. Me aproximei e algumas quiseram correr, mas eu disse que estava tudo bem e que só queria fazer uma pergunta. Questionei o porquê eles se escondiam? Eles me disseram que um homem de cabelos grandes estava roubando crianças e sumindo com elas na frente dos pais. Quando ele levou todas as crianças dos seus seguidores. Pessoas estranhas começaram a levar crianças de suas casas. Diziam que estavam levando para o mestre deles. Por isso elas fugiram de casa antes que eles chegassem. Não por acaso a maioria morava perto da universidade. Eu senti medo, tanto medo, que sentei e fiquei com eles perplexa. Foi sentada ali debaixo da escada, que me dei conta de que o apocalipse havia começado.

Eu e as crianças acabamos adormecendo. Quando acordei me senti tão confusa que tive vontade de chorar. Perguntei as crianças se eles queriam vir comigo. Elas não quiseram, queriam procurar os pais. Então decidi ir com eles. Quando saímos do prédio, algo havia acontecido. A noite não havia acabado, o céu negro possuía dois astros. Uma lua vermelha e um sol opaco, que não brilhava. Tudo estava tão estranho, que as minhas pernas só tremiam. Fui com as crianças até as suas casas. Alguns pais estavam lá, outros não. Simplesmente sumiram. Os pais que sobraram acolheram as crianças sem pais.
Peguei o carro, liguei, mas antes chorei no volante. Porque meu Deus, porque? Eu não cansava de me perguntar. Respirei fundo e decidi...eu não sabia o que decidir. Eu só me sentia perdida. Voltar para a fazenda? Ir na casa da minha mãe? O que devo fazer? Orei um pai nosso. Liguei o carro e segui adiante. Fui em direção a casa da minha mãe. Cheguei, desci, gritei. Ninguém apareceu. Vasculhei a casa, abri guarda-roupas, olhei embaixo das camas e nada. Sai da casa em desespero. Decidi voltar para a fazenda. Quando fui caminhando as ruas ora estavam desertas, ora tinham pessoas andando a esmo com cara de perdidas, muitas olhavam para o céu. Outras choravam, chamavam por pessoas. Me senti tão impotente. Acelerei o carro, mas eu não previa o que me esperava a frente. Eu estava a cem por hora. Um bezerro irrompeu na estrada e tentei desviar. Capotei o carro, bati na cerca, eu estava sem sinto. Fui arremessada, cai, bati o corpo no chão, rolei, sujei, sangrei. Quando voltei a mim, havia uma estaca atravessando minha barriga, eu perdia muito sangue, mas meu corpo não desfalecia. Eu tive forças para retirar a estaca. Me levantei e me dei conta de que não morri. Há uma parte no livro de apocalipse que diz que quando os mil anos chegarem, a morte abandonará os humanos, serão anos de tanta tormenta que eles desejaram morrer, mas não conseguirão. Eu não morri e agora tenho que caminhar. Olho para os dois lados da estrada e não sei aonde ir. Rumo para a cidade sabendo que não sei o que posso encontrar ali.

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Sara Meneses

Estudante de Psicologia na Universidade de Brasília, amante de ficção científica, ávida leitora, costuma se embrenhar pelos caminhos da escrita seja de poesia seja de contos e escreve no Blog “Recinto dos Poemas Meus”. Dona dos gatos Pietra e Leonardo, gosta de tocar violão sozinha no quarto e escrever poemas no ônibus enquanto volta da faculdade para casa. Amante da natureza, pretende ter uma fazenda. Sonha em publicar um livro, mas primeiro tem que escrevê-lo. É contadora de histórias no projeto “Livros abertos: Aqui Todos Contam!”.

Profissão: Estudante de Psicologia

Link: http://srpoemasblogger.blogspot.com.br/

1 Comentário

  • Link do comentário Eileen Domingo, 16 Outubro 2016 21:28 postado por Eileen

    Arrepiante e com total atmosfera de pesadelo e de fim de mundo. Gostei muito.

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