Sexta, 14 Outubro 2016 09:50

Boa Noite Vizinhança

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A velha senhora temia por sua vida. Não restava fôlego ou forças para resistir. Estava em sua própria casa... o perigo também.

Era de noite e ela se arrependia de ter voltado para sua residência. Podia ter chamado a polícia enquanto estava na casa da Bianca, mas seguiu os instintos de donzela em perigo e buscou pelo marido.

A perseguidora era jovem e conhecia a casa tão bem quanto ela. Seria impossível escapar. A vítima era tão idiota que correu para o segundo andar, encurralando-se.
Assim que determinou em qual cômodo a velha estaria, ela chutou a porta com uma força descomunal. Três golpes e a entrada se escancarou.

***

— Ai que horror! — Disse Maria Antonieta. Diante de si, estava Pelotas, seu gordo e peludo gato. — Astolfo, corre aqui. A velha afastou os olhos do animal, não podia encará-lo daquela forma.

Astolfo levou algum tempo para chegar ao fundo do quintal, aos oitenta e cinco anos de idade, não via motivos para ter pressa.

— Anda rápido, Astolfo, olha isso. A esposa de oitenta anos apontou e ele pôde ver a tragédia. O pequeno Pelotas estava estripado. A língua pendia para um lado da boca, os olhos esbugalhados e a barriga escancarada.

— É melhor você entrar, querida. Deixa que eu recolho o Pelotas e dou um enterro decente para ele.

— Aposto que isso é coisa do Marcos Vinícius. Aquele moleque adorador do tinhoso.

— Entre e me deixe cuidar dos restos mortais do Pelotas.

— Eu sei que foi ele. E sei muito bem que outros gatos morreram pelo bairro. Não acha estranho que da semana passada para cá, tantos tenham morrido? Isso é coisa do demo.

— Não são oito horas da manhã e eu tenho que aguentar você fazendo fofoca e ainda preciso cavar uma cova.

— Fofoca coisa nenhuma, só estou falando a verdade, esse menino é estranho e seis gatos já morreram. O número seis é coisa da besta.

— Besta fui eu ao casar contigo. — Astolfo falou baixo, e ela não ouviu. Após um pouco de caminhada e algumas inspiradas bem profundas, o senhor já estava cavando um túmulo para o Pelotas.

— Como é terrível ver o meu bichinho desse jeito. Parte o meu coração, é muita crueldade.

— Eu disse para se afastar e deixar que eu cuidasse disso.

— Aquele moleque… eu terei uma conversa séria com os pais dele.

— Você tem como provar que foi ele?

— Somos só quatro famílias nessa rua, no final do bairro. A Terezinha ama gatos tanto quanto eu e o filho é honesto e trabalhador. Mesma coisa é a Carla e o marido. Fico com pena da Bianca, aposto que ela vai se desesperar quando eu contar que o próprio filho matou o Chaveirinho.

— Não vá fofocar com os vizinhos e falar mal do filho deles, isso só trará problemas…

— Acho que a cova não está do tamanho ideal, Astolfo, melhora isso e faça uma cruz bem bonita para o nosso bichinho.

Velha dos infernos! Cala a boca e me deixa trabalhar, cassete! Pensou Astolfo enquanto terminava de cavar a cova do jeito que ela queria.

***

O garoto chegava da escola, a barriga roncava e o sol do meio dia estava ainda mais incômodo debaixo de sua blusa preta estampada com um pentagrama invertido e o nome impronunciável de uma banda de Black Metal.

— Eu vi o que você fez com o meu gato, estripou o coitado, você é uma cria do demônio, Marcus Vinícius! — Disse Maria Antonieta.

— Claro que sou! Satanás é meu senhor! E só minha mãe me chama por esse nome merda, pra você é Marquinhos Metal!

— Se eu fosse sua mãe eu teria te dado muitas palmadas quando menino e não seria um pagão satanista.

— Se você fosse minha mãe eu teria passado muito tempo tendo que buscar meu pai na esquina.

— Marcus Vinícius! — Gritou Bianca assim que saiu pela porta da casa. — Olha se isso é jeito de falar com uma senhora!

— Num fode mãe, essa velha é uma fofoqueira, chata do caralho.

— Para de falar palavrão e entra logo, vai ficar de castigo a tarde toda. Nada de computador ou vídeo games.

— Isso mesmo moleque insolente! — Completou Maria Antonieta.

— Vai se foder, velha do caralho!

— Marcus Vinícius! Vai ficar o resto do dia sem poder ouvir música também.

— Bem feito, vai ficar a tarde inteira sem nada pra fazer. Devia ter aprendido boas maneiras. Também pudera, mães não ficam mais em casa nos dias de hoje.

— Eu posso passar a tarde toda dançando pelado em volta de uma fogueira como o bom pagão satanista que sou.

— Está repreendido!

— Cala a boca, velha burra. Desde quando satanista pode ser pagão?! Nem consegue perceber o meu sarcasmo.

— Vai deixar ele falar assim, Bianca?

Vou, velha fofoqueira e chata. Eu trabalho sim, e não tenho que dar satisfação pra gente intrometida feito você!

— Entra logo, Marquinhos Metal. — Disse a mãe olhando para o filho e escondendo um leve sorriso. Bianca deu as costas para Maria Antonieta e fingiu não ouvir a velha que continuava a tagarelar.

***

A senhora dormiu toda a tarde. Nenhuma música alta a incomodou. A noite estava estranha, não se ouvia nada na rua. Era melhor sair e conferir o que acontecia.

A casa da Bianca dava de frente para a sua e Maria Antonieta conseguiu ver que a porta da vizinha estava aberta. Aquilo era perigoso, era melhor conferir.

Assim que entrou pela porta, as pernas tremeram e o estômago não conseguiu segurar o resto do almoço. Ela vomitou na sala, logo que viu Pedro, marido de Bianca, estripado da mesma forma que Pelotas.

Devia se acalmar e chamar a polícia, mas tudo que conseguiu fazer, foi andar cambaleando até a sua residência.

— Astolfo, cadê você?

— Estou aqui na cozinha, querida.

Ainda desnorteada, Maria Antonieta viu uma jovem negra e forte entrar no cômodo.

— Não se assuste meu bem, sou eu, Astolfo, se bem que agora eu usarei outro nome. Provavelmente Cleide.

— Não... não é possível...

— Você estava certa, seis é o número da besta, os gatos foram sacrifícios, mas somente para me dar forças para uma magia muito maior. Eu matei toda a vizinhança. Sacrifiquei a Terezinha e o filho mais velho, depois foi a vez da Carla e o marido. Por fim, tivemos o Pedro e a Bianca.

Maria Antonieta não conseguia falar mais nada. Somente se moveu. Por impulso, subiu para o segundo andar.

— O Marquinhos Metal ainda está vivo, coitado. Aposto que levará a culpa por tudo isso. Que pena vocês terem discutido em frente à câmera de segurança deles.

Astolfo, agora com corpo de mulher, subiu as escadas atrás da velha. Ouviu a respiração dela atrás da porta do banheiro e a quebrou com facilidade.

— Por que está fazendo isso?

— Eu troco os anos de vida que restavam das minhas vítimas, por mais vida para mim mesmo. É uma magia de sangue que aprendi séculos atrás. — A velha o olhava estupefata. — Outras pessoas já tentaram, mas não conseguiram viver tanto quanto eu. Todos se deslumbram, querem ser ricos, acabam vivendo no limite e morrem de alguma forma. Por isso escolho vidas simples. Já fui mulato trabalhando em colheitas de café, cigano perambulando pela Europa, trabalhei em fábricas italianas, entre outras coisas.

— Você já matou seis, eu não preciso morrer.

— Eu vou te matar por prazer, velha fofoqueira dos infernos!

Foram as últimas palavras de Cleide antes de esfaquear a velha e sair daquela vizinhança.

Lido 2111 vezes Última modificação em Sexta, 14 Outubro 2016 21:24
Saulo Moreira

Servidor público, autor e amante de literatura, filmes, séries, animes mangás, HQ's e jogos. Adora suspense, gosta de terror e odeia violência sem propósito.

Link: https://www.facebook.com/saulo.moreira.90

6 comentários

  • Link do comentário Robson Gundim Sexta, 14 Outubro 2016 22:39 postado por Robson Gundim

    Parabéns Saulo! 5/5 com certeza o/

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  • Link do comentário Fernando Baldez Augusto Sexta, 14 Outubro 2016 21:53 postado por Fernando Baldez Augusto

    Muito bom

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  • Link do comentário Graci Sexta, 14 Outubro 2016 21:25 postado por Graci

    Excelente conto, autor tem muito talento e mereceu as 5 estrelas.

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  • Link do comentário otavio Sexta, 14 Outubro 2016 16:54 postado por otavio

    Muito, bom...também curto Terror Cult.

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  • Link do comentário Saulo Moreira Sexta, 14 Outubro 2016 15:21 postado por Saulo Moreira

    Gostaria de pedir desculpas aos leitores pela falta de formatação no texto. Enviei o arquivo em PDF e ele continha os parágrafos e os travessões de diálogos nas posições corretas. Acredito que o problema ocorreu ao copiar o texto do PDF e postar no concurso.
    Mandei email para o Curto Conto, espero que ainda seja possível formatar. No mais, desculpem, espero que não estrague a leitura.

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  • Link do comentário Alessandra Sexta, 14 Outubro 2016 14:10 postado por Alessandra

    Adoro essas coisas sanguinárias!
    Adorei o conto!

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