Sexta, 14 Outubro 2016 10:08

Travessia entre Vidas

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A seguir vocês lerão uma carta datada do século passado que por motivos desconhecidos não foi concluída. Ela foi encontrada no quarto de um jovem que passou parte da sua vida atormentado por surtos psíquicos incompreensíveis até sua morte.

“Segunda-feira, 24 de setembro de 1917

Me chamo Sebastian Vaz, tenho 19 anos. São agora 18h. Resolvi escrever esta carta (e espero que esta chegue até você!) devido ao que vem me ocorrendo nos últimos dias. Deixo aqui registrado o que poucas pessoas acreditariam se eu lhes contasse... Então, escrevo agora como uma forma de garantir que saiba de tudo, caso o pior venha a acontecer. Espero que as outras cidades da região não estejam sofrendo dessa mesma desgraça. E se estiverem, rogo aos mais diversos santos que possam existir: Rogai por nós.

Na semana passada, dia 16 de setembro, visitei o Recôncavo da Bahia, para ser mais exato, uma pequena cidade chamada Cachoeira. Minha ideia era ir até a ponte D. Pedro II, tão admirada por muitos, construída ainda no período colonial sobre o Rio Paraguaçu (coitados!, não sabem que maldição veneram). Eu e minha irmã, Maria, decidimos aproveitar o tempo enevoado para fazermos algumas fotos no local, o que nos parecia incrivelmente agradável e motivador devido ao clima frio e ao cenário bastante sombrio. Não estávamos ali à toa, até porque horas como essas não é bom para se estar em lugar nenhum, pois, é sabido que é à noite que o mundo se mostra como é: Perverso. Viemos de longe e estávamos procurando um emprego no jornal da cidade, mas para isso, queríamos fazer uma matéria sobre esta, acreditávamos que iríamos conseguir os nossos cargos na primeira tentativa. Na verdade, nunca fui um homem religioso ou de acreditar nessas coisas todas, nesse mundo sobrenatural. Mas, depois do que vi, queria poder arrancar meus olhos, se isso fizesse com que eu esquecesse daquela cena.

Ao chegar no local, vi um corpo nu seguindo o leito do Rio. O peito estava aberto, suas costelas quebradas perfuravam seu dorso e um dos olhos estava fora da órbita, continuando preso somente devido ao nervo óptico. Era uma mulher, com vestes de princesa, o que me fez sentir uma sensação de horror e estranheza enorme. Chamei minha irmã para ver aquilo, ela rapidamente fotografou e me puxou para começarmos a fazer as outras fotos e sair dali o quanto antes, eu não tinha o que contestar, apenas assenti e a segui. Além do mais, a polícia poderia chegar a qualquer momento e não queríamos ser acusados de nada e nem chamados para testemunhar coisa nenhuma.E não parou por aí, uma série de acontecimentos se iniciou desde então.

As fotos que revelei me assustaram. Não fazia sentido todas aquelas jangadas que desciam rio abaixo, estavam meio a névoa e repletas de olhos e sorrisos medonhos. Não havia nada disso naquela noite, ou então a neblina havia me traído e resolveu esconder para si todos esses perigos, esperando que algum pobre coitado, como aquela mulher, fosse ao seu encontro. E o pior: eles apontavam para mim. Alguns, inclusive, me estendiam os braços, como se me convidasse para dançar.

Até agora só não consegui compreender o porquê. Bem longe, do lado de fora da janela, sei que eles me vêem dentro do meu quarto, todos os dias, desde que isso começara a me ocorrer, fazem companhia a mim e a minha vela que ilumina o ambiente, que sem demora, vem a extinguir. Tenho medo de que esses dias não tenham um fim, e que assim como a tinta que banho a pena de escrever que levo em minha mão, meus momentos de terror também acabem lentamente. No momento em que escrevo esta carta, sinto sua presença, meus olhos se recusam a olhar para os lados, e minha mente pérfida a todo instante me traz aquela cena.

Na tentativa de esquecer ou até mesmo de fugir, deito-me frequentemente na minha pequena cama de solteiro que fica ao lado da escrivaninha que utilizo para escrever esta carta a vós, leitor. Morfeu por muitas vezes não foi tão piedoso comigo e não me permitiu ter um bom sono, mas fez com que eu me arrependesse de ter tentado dormir. Ontem a noite, quando uma mão gelada me tocou, fiquei pasmo, trêmulo, e senti cada pêlo meu arrepiando. Em poucos instantes fiquei sem reação, apenas a mente dizia “fuja”, mas meu corpo acabou por me trair e já não tinha força para nada. Quando finalmente consegui convencer o meu corpo a se virar, pude ver que era só a minha irmã. Ela estava com medo e não conseguia dormir sozinha.

Além disso, desde aquele dia, Maria tem visto e sofrido com ataques de alguns espíritos, seu corpo por vezes fica imóvel enquanto diversos espíritos a atacam, em uma das ocorrências ela me relatou que os espíritos não tinham forma, eram de uma tonalidade escura e faziam-na sentir um medo absurdo, depois disso marcas apareceram em seu braço e é evidente pelo seu rosto que a tristeza e o pavor já tomaram conta dela, irreconhecível. Numa segunda vez, ela me disse que um dos espíritos lhe sussurrou no ouvido, com uma voz fria e sarcástica: Dependência e morte! Eu apenas os sinto, uma energia muito negativa que me consome aos poucos, tenho evitado sair do quarto e me enclausuro aqui o máximo que posso. Meus pais chegam cansados do trabalho e quase nunca os vejo, também não faria sentido para eles tudo isso que tem acontecido, minha mente está confusa. Estou ficando louco, assim como minha irmã. Eu já não posso dormir, com medo de que os espíritos atormentem meus sonhos e, no entanto, quando estou acordado, eles me consomem.

Não sei mais distinguir o que é real, imaginário ou loucura, tudo está separado por tão fina linha. Hoje pela manhã minha irmã abriu a porta do meu quarto e ficou me olhando por algum tempo, até que, por fim, me chamou e pediu para que eu a acompanhasse até seu quarto, havia algo que queria me mostrar, mas que, segundo ela, só daria para ser visto de sua, dela, janela. A acompanhei e cada degrau que subia me cansava muito e, quanto mais alto ficava, mais meu corpo pedia por socorro. Antes de continuar, preciso dizer-lhe que sei que a minha alma não pertence mais a mim, e por isso te imploro, pegue essa carta e faça com que todos saibam o que está acontecendo.

Maria me chamava, me chamava, me chamava… mas eu já não a enxergava, a respiração me vinha aos sustos, meu rosto recebia uma corrente de ar muito forte, eu parecia estar caindo em um vazio imenso. Relutei contra a insensibilidade que se espalhava pelo meu corpo e quando com dificuldade abri os olhos, bem ao meu lado, segurando a minha mão direita estava el…”

Até hoje não se sabe a quem era destinada a carta e nem a quem ele se referia ao final. O jovem acreditava viver no século passado e sofrer com perseguições dos espíritos da família real.Testemunhas relatam que viram um jovem escalando a ponte D. Pedro II gritando e pedindo para que deixassem sua irmã em paz. Quando encontrado, seu corpo seguia sem vida o leito do Rio Paraguaçu. A irmã a quem ele se referia nunca existiu.

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Sebastian Vaz

Profissão: Estudante

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