Sexta, 14 Outubro 2016 10:40

A Caça

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Naquele dia luminoso, Maga resolveu usar sua melhor roupagem para ir à caça, como dizia.

Cantarolava feliz, deliciada com a brisa tépida que perpassava por seu corpo, desalinhando seus fartos cabelos ruivos. Os pássaros, alvoroçados, voavam de árvore em árvore, num trinado incessante. A natureza mostrava-se inquieta e excitada, como diante de grandes expectativas amorosas. Claro, era primavera!

Já pronta, Maga cruzou o portal e se dirigiu à cidade próxima, com seu andar felino, de enlouquecer qualquer um. Pegou uma carona em um carro que ali passava, cujo motorista encantou-se com sua beleza. Que fêmea! Pensou ele. - Mas ela o desprezou. Ele queria saber mais e mais dela e já estava ficando inconveniente, assim, Maga o fez parar na lanchonete próxima ao posto de gasolina.

Entrou e pediu simplesmente um copo de água. Causou sensação, como sempre. Um por um os homens presentes se convidavam para sentar junto a ela, mas Maga, gentilmente, não aceitou nenhum, alegando que estava à espera de alguém. Era outro tipo de caça que ela procurava.

Apenas um homem não se levantou de onde estava e nem sequer a olhou. Lia atentamente um jornal enquanto bebericava cerveja. E ali ficou sem se importar com sua presença.

Maga foi ficando nervosa com esta situação totalmente inusitada para ela. Se aquele homem parecia não ligar para ela, era ele mesmo que ela queria.

Acercou-se dele e lhe cravou as unhas em seus ombros desnudos. O rapaz levantou a cabeça surpreso, levantou-se e também colocou suas fortes mãos nos delicados ombros dela. Maga estremeceu, deliciada, apreciando o raro tom de âmbar dos olhos dele e como suas pupilas se dilataram ao vê-la tão de perto.

- Leo é meu nome – disse ele e ambos sentiram uma corrente elétrica passar de um olhar para o outro, com força e urgência. Urgência dos desejos que pairavam no ar, urgência quase insuportável. E foi pura magia e tamanho encanto que ambos saíram correndo até o portal e lá voltaram a ser o leão e a leoa de sempre. Estavam juntos para amar e caçar. A busca havia terminado?

Ah, isso nunca finda, porque a primavera chega todo ano, com suas selvagens reivindicações, odores e humores, reclamando o que lhe é de direito.

Por isso, Maga não permite que Leo se transforme em homem outra vez, porque conhece o poder de sua sedução, tanto quanto a força da natureza e principalmente a carência de outras fêmeas desacompanhadas.

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Suzana da Cunha Lima

Suzana sempre gostou de ler e escrever, desde menina. Mas foi apenas depois do 63 anos que se dedicou à literatura de maneira mais sistemática, visando a publicar seus escritos. O primeiro romance VIRANDO PÁGINAS, em 2008 e depois seguiram-se dois livros de contos: O AMIGO IMAGINÁRIO E SEMPRE VINTE ANOS. Um livro infantil: FADAS EXISTEM?colaboração com 10 contos em duas antologias: ÂNCORAS E O SEGREDO DE CADA UM. Este ano está preparando um livro policial.
Mora em São Paulo, tem três filhos e sete netos e uma família amorosa e unida, grande parte no Rio de Janeiro. Tem uma vida ativa e interessante, gosta de cinema e teatro e atualmente responde pela direção do Departamento Cultural do Clube Alto dos Pinheiros.

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