Sexta, 14 Outubro 2016 11:09

O Caçador de Histórias

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Hoje o dia esteve com as características que necessito para poder ganhar algum dinheiro. Passei o dia a apreciar com alguma angústia o tempo cinzento, um puro sinal que o verão acabara.

No entanto, preciso de dias assim, sombrios. Preciso de dias que me levam a caça de histórias bizarras. Já estou sem dinheiro e as contas se empilham, mais parecendo um baralho de cartas. Estou tranquilo, sereno pois, sei que daqui a uns dias já entra algum.

Bem, ainda é cedo mas tenho que ir andando, à procura de uma história bem contada. Antes de sair dou uma olhadela rápida no espelho. Não gostei muito do que vi mas saio seguro porta fora que é assim é que sou feliz.

Dirijo-me a zona de Dji D’Sal. O meu destino: Cova D’inglesa. Dizem que é um bom lugar para espairecer e sair da rotina. Outros dizem que, na calada da noite, por essas bandas grandes orgias são praticadas.

Escolhi este local porque, em tempo de chuva, só costumam transitar, todos aqueles cujas cabeças esvoaçam ideias de suicídio.

Circulei durante algum tempo, apreciando de longe o mar, observando as poucas pessoas que iam e vinham. Hoje estou sem sorte, não encontro ninguém que faz as minhas medidas. Vou até a rua da praia, no centro da cidade, ao menos lá é capaz de estar mais animado. Aproveito e vou até a barbearia Benfica há ver se melhorou um pouco este aspecto, ao menos assim dou uma aperfeiçoada no visual. Mal cheguei, o espaço estava a rebentar pelas costuras, não cabia ali mas um alfinete. Olhe, enquanto descontraidamente espero, vou beber um cálice de grogue ali no Boca de Tubarão.

Mal entrei deparei-me com dois indivíduos. Um bastante falador, o que indicava que o álcool já estava a trabalhar no sangue e outro mais calmo, introvertido sentado num canto. Escusado será dizer qual foi a minha escolha. Devo evitar os faladores pois, esses todos já conhecem as suas histórias.

Paulatinamente aproximei-me. Vai um groguito? Parece-me desanimado! E com este tempo, sem meio de aquecer, logo ficará constipado. Ele nada disse. Insisti uma vez mais. Um cálice meu caro. Ele abanou a cabeça num sinal positivo que estava de acordo. Bem, o contacto estava estabelecido. Ao segundo gole mais ainda, ao terceiro o grogue já não arranhava. Dizem que o álcool solta a língua, mas também entorpece. Demorou mais um cálice para completar a história que agora passo a contar…

Sabe, a culpa não é minha… foram as primeiras palavras daquele homem chamado joãozinho. Talvez pela estrutura média baixa. Logo de seguida perguntou-me: - O que faz. Olha eu nem sei, ando sempre de um lado para o outro sem saber ao certo o que realmente faço. E tu, questionei eu. – Bem, eu sou trabalhador. Se alguém precisar de algo é só me chamar que vou. Mas, ando triste, amargurado, angustiado. Sabe, sou muito rancoroso comigo mesmo.

Pronto, a confiança estava ganha. Respondi-lhe com calma. De certo o joãozinho terá os seus motivos para tanto rancor. Olhe a vida é assim as vezes estamos tristes outras contentes.

Quem és tu para falar da vida! Vocês os jovem nada sabem deste tema. Fiquei calado num puro sinal que estava de acordo com ele. Ao mesmo tempo eu ia olhando para o relógio, para dar um ar de quem estava com pressa. Só queria que desembucha-se a história depressa.

Sabe, a vida prega-nos sempre grandes partidas. E pior, quando menos se espera é que ela ataca. Pois, você não entende mas vou explicar.

Sou amante da boa música, da boa comida, do conforto, de meninas lindas. Com essa crise tudo descompensou. Já nem sequer tenho dinheiro para fazer condignamente as refeições. Calma, daqui a pouco isso já muda, não te preocupes. Respondi eu.

Vocês os jovens estão sempre nessa onda de positividade. Até parece que a vida é um arco-íris. Vocês não sabem de nada. Memoriou uma vez mais.

Ainda há dias prometeram-me um trabalho. Disseram-me que depois de feito a minha vida mudava radicalmente. Na altura pensei que disparate. Mas o que posso dizer é que mudou mesmo e não foi para coisa boa.

Não me lembro do que vi, apenas tenho recordações de sons, luzes, enfim. Sai de lá bastante atordoado e só dei conta do que tinha acontecido quando ouvi uma voz a dizer podes ir para a casa. Sabe, quando não se tem dinheiro faz-se de tudo.

Logo que cheguei a casa começaram a martelar os cantinhos do meu cérebro, obrigando-me a enfrentar a minha falta de parafusos. Sabe oh joãozinho tens de parar com essa mania de consumir drogas. Ontem quase que apagavas. Foi por pouco.

Apanharam-me e internaram-me. Deram-me uma serie de comprimidos mas não me dobravam. Consegui fugir há dias e cá estou eu a decidir o que fazer.

Tenho que matar. Quero ver sangue coagulado. Assim eles encarcerem-me de vez. Disse ele. Eu que já estava cheio de medo desta vez fiquei paralisado. Será hoje que o caçador será caçado. Suspirei para os meus botões. Ainda por cima alguém ganhava bom dinheiro a escrever a minha história.

Olhei para o Joãozinho, bebia ainda mais um cálice. Eu já tinha a minha história quase completa. Só faltava o desfecho. Antes de partir disse-lhe: - espero que a sua decisão seja a melhor para todos. Ele nada disse. Fixando o mar consegui ver o brilho da loucura naqueles olhos.

Regressei novamente à barbearia, mal entrei ouvi uma voz a dizer: Um bêbado caio no mar. E pensei. Agora sim! Já tenho o fim para esta história.

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