Sexta, 14 Outubro 2016 11:26

Paragrafo Onírico

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Toni estava feliz, verdadeiramente feliz. Estacionou o velho jipe na beira da já desfalecida estradinha de terra e seguiu a pé, o sol resplandecia às 15h e algumas poucas nuvens indicavam que o dia continuaria belo e acomodado. A distancia, já podia ver o Vale da Corcova, vale de tantas boas memórias e aprendizados, irresoluto em sua beleza e imutável em sua serenidade. Era muito simples se deixar levar pelo lugar, se desenhando como uma colcha de retalhos, a grama raspava em seus joelhos, grama alta, alta do tipo que vive e cresce e respira, preenchida em seus meios pelas mais diversas cores de flores, estendendo-se até onde os olhos alcançavam. No horizonte, os dois famosos montes da Corcova que desenhavam o vale, entre eles um lago. Toni se lembrava de quando ele e seus primos corriam por essa colcha de retalhos e chegavam ao lago no que parecia ser apenas alguns minutos, e despreocupados, se atiravam na água doce, onde ficavam até a lua os expulsar, desenhando sonhos nas nuvens e rindo um dos outros até que não houvesse mais risadas em sua caixa de risadas. Toni estava feliz, verdadeiramente feliz.

Andrade estava bem hoje, descansado, aproveitava aquela confortável paz pós-almoço para checar as salas. Salas, pensava, eram mais como celas. Mal-iluminadas, amarrotadas e cheirando a memórias, podiam ser acessadas pela porta, sempre trancada, ou pelos largos vidros fume que perfaziam uma verdadeira jaula de zoológico, Andrade odiava ficar próximo a elas e só fazia a checagem quando acompanhado. Aproximou-se então da saleta 3b, Vitor, um guarda jovem e parrudo, já olhava pelo vidro fume para o paciente ali dentro:

-O que será que eles ficam pensando tanto?- Vitor questionou, de braços cruzados, olhando para a sala.

Andrade nunca gostou de perder tempo olhando para os homens dentro das salas, sentia que eles poderiam suga-lo para a loucura antes mesmo que percebesse.

-Pobre Seu Antonio, acho mesmo que nunca vai sair daqui. –continuou o parrudo e deu algumas batidas no vidro, buscando o gordo homem sentado de costas na sala.

Toni assustou-se, no vale da Corcova começava uma tempestade, o morro desmoronava-se e a estrada de terra onde estava seu jipe começava a rachar, como num terremoto.

Antonio assustou-se e largou sua velha colcha no chão quando um guarda parrudo bateu no vidro de sua sala, sentiu-se num aquário.

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