Sexta, 14 Outubro 2016 11:38

Um por todos

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No povoado de Circus, Assobié acabara de desembaraçar o episódio que vinha convulsionando o cotidiano da população local. À época da ocorrência, há séculos, as informações não venciam as distâncias com tanta facilidade. Então, foi só por coincidência que Timo, o mercador vindo da aldeia Solidarius, pôde ouvir tudo sobre o mistério sobrenatural elucidado pelo estrangeiro. Impressionado com as habilidades de Assobié, foi imediatamente procurá-lo para repassar suas próprias notícias.

Timo esperava se deparar com um homem de aparência fascinante, porém, as expectativas não se confirmaram: descobriu um indivíduo grisalho, de traços e porte tão mundanos quanto os seus, trajando vestes simples e completamente pretas. Havia, no entanto, uma marca de personalidade no semblante de Assobié que existe somente naqueles para os quais o destino reserva feitos notáveis – e isso era visível até mesmo para o modesto comerciante.

Sem perder tempo, inquiriu se Assobié era alguma espécie de exorcista, ao que recebeu a resposta: “Algumas pessoas julgam-me exorcista, outras, investigador. Serei aquilo que for necessário para resolver um mistério impossível, desde que a solução promova o bem a alguém de coração benévolo”. Admirado com aquelas palavras, Timo contou a história de um menino de onze anos chamado Caul, o qual residia com a mãe em Solidarius. Sem mais nem menos, Caul passara a sentir dores fortíssimas, além de experimentar alucinações. Alguns de seus conterrâneos diziam que o garoto havia ficado louco, mas a maioria acreditava que a alma dele fora reivindicada por um demônio poderoso.

Intrigado com o relato e preocupado com o rapaz, Assobié proclamou que partiria imediatamente. Enquanto juntava sua bagagem, escutou as recomendações de Timo sobre o percurso até Solidarius – o mercante descreveu os atalhos a se tomar para chegar ao lugarejo em menos de meio dia. Antes de prosseguir, retorquindo aos agradecimentos do recém-conhecido, o híbrido de investigador e exorcista conferiu ao comerciante um misto de conselho e elogio:

“Não te permitas transitar pelo caminho do autosuplício. Se eu puder servir de algum alento ao jovem Caul e à progenitora dele, isso só terá sido possibilitado por tua índole valorosa e gentil, estimado Timo.”

Andando solitário, imerso em uma obstinação feroz, Assobié alcançou Solidarius logo após a aparição dos primeiros raios solares, na manhã seguinte. Tentando vencer o abatimento pelo cansaço, bradou para si mesmo: “Vamos lá, Caul, aguente firme! Já estou próximo! Removeremos essa tempestade negra que paira sobre ti!”.

No vilarejo, Assobié inquiriu diversos aldeãos sobre onde morava Caul, dos quais obteve réplicas como: “O fedelho é cria do Diabo! Fez minha colheita apodrecer. Não ajudaremos amigos da besta!”, “Para o inferno com aquele rapaz! Ruindade atrai ruindade, essa é a lei.
Como meus joelhos doem! Para o inferno com aquele rapaz!” e “Já não basta perder meu pai, ainda tenho que suportar a presença de um monstro? Vá embora!”.

Por um brevíssimo instante, Assobié permitiu-se contemplar a hipótese de Caul ter culpa naquela história. Logo mudou de ideia e teve um pensamento enigmático:

“Muitos são os que carregam a marca das trevas sem ter a mínima ciência de que o fazem. Em casos não raros, acreditam testemunhar obras da perversa criatura, quando o que enxergam não passa de um reflexo do seu interior.”

Resoluto, continuou tentando - até que alguém apontou o casebre certo. A mãe do menino atendeu. De todos os infortúnios que se manifestavam fisicamente na mulher, foi a inconfundível mágoa estampada no semblante dela aquilo que mais impactou Assobié. Só depois de muita argumentação, o visitante conseguiu convencer a moça de que realmente desejava auxiliar Caul. Ainda um pouco receosa em expor o filho para um forasteiro, a mãe contou que o garoto sempre fora um pouco cabisbaixo, abatido, mas nunca nada perto daquela situação. Esse imenso sofrimento se iniciara aproximadamente no mesmo período em que se descobriram pedras preciosas nos arredores de Solidarius, a qual foi invadida por pessoas buscando fazer fortuna. Após essa conversa, entraram no quarto do rapaz.

Apesar de limpo e organizado, o apertado cômodo exalava depressão. Com as cortinas fechadas, uma única vela iluminava parcamente o ambiente. No centro, uma criança jazia deitada na humilde cama de palha. Estava imóvel e não se via sinal de respiração – o único indício de vida era o suor que empapava sua roupa e fazia sua face brilhar sombriamente. Mesmo através daquela luz fraca, Assobié pôde verificar os vestígios do martírio nas feições contraídas de Caul. De repente, o jovem convulsionou, e, de sua trêmula goela, um grito horrendo jorrou. Durante os segundos nos quais aquele urro perdurou, nada mais existiu no quarto; nada senão uma aura de prolongado sofrimento. Então, o menino pareceu perder as energias. Soluçava e, entre solavancos, sussurrava sentenças desconexas.

“...não recebi mensagens dela...”
“...ajudaremos amigos da besta...”
“...mamãe, me perdoe...”
“...ruindade, essa é a lei...”
“...o canalha nos roubou...”
“...basta perder meu pai...”

Ainda que estivesse perplexo com a circunstância, as peças se encaixaram na cabeça de Assobié: nem todas aquelas expressões lhe eram estranhas, pois ouvira algumas recentemente. Chamou a desconsolada mãe para a sala, a qual não conseguiu mais se conter, lamentando:

“Já não tenho mais esperanças de escapar dessa tortura que nos consome! Se não fossem meus instintos de mãe, não conseguiria presenciar alguém sendo desgraçado por tanto tempo. Diga-me, há maldade no espírito de meu menino?”

“Maldade nenhuma, minha senhora! Na realidade, teu filho é a criança mais doce desse mundo. Tão bondoso o menino é, que põe à frente da própria sanidade o bem-estar de todos esses cafajestes que não cansam de desaforá-lo.”

“Mas como? Não entendo...”

“Com relação ao como, não pretendo fingir compreensão. Entretanto, ouso afirmar que desvendei o fator causador de toda essa tormenta em Caul. O pequeno sofre aquilo que todos os outros dessa aldeia sofrem. Cada aflição, da menor à mais devastadora, que passe pela alma de um de seus conterrâneos, também passará pela alma do garoto. É isso mesmo, ele sente em seu âmago as desgraças que transitam pelo coração dos demais colonos que aqui residem. É presumível que o calvário tenha se intensificado com o recente desenvolvimento de Solidarius e a consequente multiplicação de sua gente. Não deixes de reparar no seguinte: o pesar que assola a senhora pela condição de teu rapaz acaba por agravá-la.”

“É ainda pior do que supunha! O que farei?”

“Meu único conselho é igualmente simples e complexo: a chave para a felicidade está em ser feliz. Muda-te com o teu filho para um lugar isolado o quanto antes e desfrutai da companhia um do outro. Sede tão alegres quanto vos for possível. Desvenda como fazer com que cada sorriso puro de teu garoto apague boa parte do desânimo na tua consciência. Assim, espero, os resultados falarão por si sós.”

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Vinícius Machado

Apelido: Luis Henrico Martins

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