Sábado, 15 Outubro 2016 23:05

Paixão animal

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- Palhaço eu não sou...

Dorval cantarolava uma antiga marchinha de carnaval, como quem quisesse justificar seu sentimento de impotência diante daquela tragédia que estava sendo o seu dia. Pensou, amargurado pelos fatos:

- Aquela vaca vestida de gente pensa que sou um palhaço, que sirvo apenas para diverti-la. Ela esquece que sou humano, tenho sentimentos, sonhos e planos. Ninguém pode destruir nossos castelos, tal uma criança deixa sua construção de areia ser levada pela maré alta...

Distraído e atormentado pelo seu pesadelo diurno, Dorval atravessa a rua, olhando apenas para sua dor. Um carro buzina e Dorval consegue apenas olhar para o céu, cinza, apesar de não haver uma nuvem sequer naquele claro dia de primavera.

Dorval acorda, com uma sensação estranha; e, ao seu redor, enfermeiro, médico, rostos familiares e outros nem tanto. Tenta erguer-se, mas está um pouco fraco, debilitado e, principalmente, curioso. Por que estaria naquele hospital, com tanta gente ao seu redor, uns fazendo festa, querendo abraçar-lhe? Outros tão curiosos quanto ele? Virou-se para o lado e mirou uma senhora simpática, de sorriso largo e braços abertos e pensou: Mamãe, o que a traz aqui, há tanto tempo que eu não te via.

Nem imaginava o Dorval, há quanto tempo ele não via o mundo.

Dorval então pergunta por que está naquele leito de hospital. Começa uma confusão verbal e ele não entende nada, pois todos querem responder-lhe. O médico irrita-se e pede que se acalmem, do contrário todos sairão do quarto. Com a ordem restabelecida, o próprio médico explica para o Dorval. Tu estavas atravessando uma rua, quando foste atropelado por um carro. Passaste mais de sete meses em coma, e agora voltas à consciência.

Dorval olha estarrecido para todos e brinca: então sou prematuro, de sete meses. Riso geral da platéia improvisada. Dorval olha ao redor e procura por alguém, tendo uma sensação de vazio. Começa a lembrar-se, desejando ter esquecido para sempre, daquela que fora a algoz dos seus sentimentos.

Pensou: porque tive que lembrar logo daquela desgraçada? Por que? Poderia ter ficado com amnésia, pelo menos desta parte trágica da história. Mas não ficara. Este coração bobo e frágil aos encantos destas deliciosas criaturas, tinha que trazer à tona deste mar de confusão, logo a lembrança daquela mulher. Droga!

Dorval, meio atônito, lasca de primeira uma pergunta, não muito simpática:

- E aquela vaca? Aquela bruxa desalmada, aonde tem estacionado a vassoura?

Calma, meu filho, diz a sua mãe, com aquela aura que emprestam às mulheres de sua espécie. Ela está presa, aguardando julgamento.

Presa? Por que? O que ela fez? Matou mais alguém de desgosto e desilusão?

Não, Dorval, ela está presa por tentativa de homicídio. O que? Foi ela, então, quem me atropelou? E eu, aqui pensando ser um idiota e desatento.

Mamãe, novamente com sua candura, meio a contragosto, diz para Dorval:

- Filho, infelizmente, tu estavas desatento e quem te atropelou foi um táxi, apressado como todos os “Sennas” pilotando bólidos cor de laranja.

Dorval continuava curioso, mas agora com um ar de vingança, satisfeito com a possibilidade de ver aquela vaca num curral. Queria saber o porquê da prisão da dita cuja. Foi quando uma das pessoas presentes lhe contou o motivo:

- Ela estava de caso com um homem casado já há alguns meses. Quando retornava de um encontro, ela ao volante, extasiada com o seu amor, ainda “caliente”, não notara um carro que a seguia. Continuou em direção da casa do amante. Porém, chegando próximo ao destino, deu-se conta que estivera sendo seguida e foi aí que seu lado instintivo e animal aflorou. Reduziu a marcha, deu meia-volta e jogou o carro para cima do seu perseguidor, acertando em cheio no meio da porta do condutor. Com o carro todo arrebentado, dispara em fuga, deixando a vítima a mercê da sorte. E que sorte, pois sofreu apenas ferimentos leves. Por
infelicidade da moça, houve testemunhas, apesar do horário. E agora, ela aguarda julgamento no presídio, pois foi presa em flagrante e nem o amante testemunhou a seu favor.

- Mas, e quem era o pobre coitado do carro atingido, mamãe?

- Era apenas o atendente do motel, que fora devolver a bolsinha que ela esqueceu no quarto, aquela em couro imitando pele de vaca.

Foi uma gargalhada só naquele quarto em que Dorval voltou à vida e, espera-se que também tenha voltado ao juízo, e esqueça aquela que ele chamava de vaca.

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Paulo Ismar Mota Florindo

Formado em Ciências Econômicas, especialização em Marketing e Recursos Humanos, participa eventualmente de concursos de contos ou poesia, já tendo sido publicado em antologias. Escreve por hobby e porque gosta de compartilhar seus textos.

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