Domingo, 16 Outubro 2016 23:15

Premonição de Ibrahim sobre um Futuro Sombrio

Escrito por
Avalie este item
(4 votos)

Em outubro de 2001, eu visitava Israel em plena revolta palestina. Antes da partida, muitos indagaram se eu não tinha medo da intifada. Inclusive meu então chefe, agourento, andou sondando substituto para a eventualidade deste que escreve ir e não voltar. Friamente eu mostrava os números da violência de lá e de cá, e respondia sim, ia apreensivo - deixava família aqui.

Sou precavido. Antes de embarcar, fiz curso. Eis o que aprendi. Em terra estranha, respeite a cultura local, apenas ouça, concorde e não dê palpite.

Mal cheguei a Jerusalém, pus em prática boas maneiras adquiridas. O primeiro judeu com o qual mantive contato deu logo seu depoimento espontâneo. Os hebreus, herdeiros de David eram os donos legítimos daquela terra. Decisão da ONU também conferia a eles a posse da terra prometida. Eram gratos ao Brasil na efetiva criação do Estado moderno de Israel. O condutor do táxi também puxou conversa. Afetuoso, quis logo saber se eu tinha filhos, mostrou foto dos filhos dele. Daí mudou o assunto. “Todo povo tem direito a terra, mas eu não tenho terra”. Descobri que naquele trecho do mundo a palavra “terra” era sagrada, então apoiei a convicção do judeu, a queixa do expatriado.

Lá eu soube que a ligação com a Cisjordânia estava fechada por conta do conflito, frustrando minha peregrinação a Belém. Teimoso, contratei um guia israelense para me levar até a divisa obstruída. Eficiente, encontrou solução melhor. Do outro lado da barricada um conhecido dele me aguardaria. Então você se dá bem com os palestinos, indaguei surpreso.

Se dar bem não é o termo, corrigiu. Mas negociava com “eles”, desde que o trato fosse em hebraico. Quem precisa de mim que se curve, completou.

Era um árabe cristão quem me aguardava ansioso lá adiante. O judeu acenou pra ele, apontando pra mim. Entre nós um soldado palestino se desdobrando em dupla função. Segurar um fuzil de mau jeito, verificar a documentação de quem podia entrar ou sair. Livrei-me do guarda no meio do zigue zague improvisado, e o árabe num gesto amistoso de se encontrar comigo ainda no corredor de controle, foi duramente barrado. Quando venci o labirinto de barbante e aço, me abraçou como se abraça um filho.

Fui sondando aos poucos, até que julgando seguro, lancei a pergunta.

- O que me diz deste conflito?

- É briga política. Não entendem que há um só Deus lá nas alturas.

Antes de chegarmos a igreja da Natividade, objetivo da incursão, ele me conduziu de carro por entre prédios antigos que guardavam cicatrizes de tantas lutas do passado. Visível também, a ruína econômica causada pela guerra atual. Comércio fechado, ambulantes desesperados tentando enfiar a todo custo alguma bugiganga pela fresta da janela.

Durante a refeição falamos amenidades. À mesa, pão, frango assado e pimenta. Experimentei a coisa ardida, queimei a língua. Meu anfitrião mastigava aquilo como se fosse pepino. A comunicação entre nós acontecia num terceiro idioma sem grande fluência, complementado por gestos. Quando chegou a sobremesa, curioso que sou, arrisquei.

- O que pensa dos judeus?

- Uns arrogantes é o que são!

- Então deseja a libertação?

Aí, a maior surpresa da viagem. Até desejava, mas não queria a independência. Não gostava “dos rudes”, com seu exército colossal. Mas o inimigo habitava todo lugar. Quem aniquilava também o protegia da vizinhança perigosa. A humilhação permanente seria preferível ao flagelo total. Havia em todo Oriente Médio um fundamentalismo latente à espreita para se impor na primeira oportunidade. Como cristão seria então degolado. Foi enfático, na fala e na mímica, e eu em silêncio, o rotulei de palestino exagerado.

Treze anos depois relembrei daquele almoço, ao assistir atônito a proclamação do Califado. Aproveitando-se da fragilidade militar de Síria e Iraque, fanáticos estabelecem à força o que chamam de Estado Islâmico. Num rastro de sangue e destruição, expandem fronteiras na marra, prometendo avanço até o Mediterrâneo. Neste ímpeto de ódio ao diferente, o que será do meu amigo Ibrahim?

Lido 226 vezes
Florentino Augusto Fagundes

Filho e neto de paranaenses, nasceu em Ribeira SP em 7 de fevereiro de 1961. Entre os treze e dezesseis anos trabalhou ajudando seu pai no Mercado Municipal em Curitiba, experiência que lhe rendeu a crônica “O Sabor da Maçã.” Mudou-se em definitivo para Curitiba em julho de 1977. Desde criança inventava estórias, embora não as registrasse. Escreveu alguns contos e uma peça de teatro na década de 80, os quais lhe renderam dois prêmios literários. Ainda nos anos 80 chegou a escrever um romance, que depois destruiu porque considerou horrível. Segundo ele, a editora Record foi generosa ao recusar a publicação relatando polidamente “seu material tem pouca literalidade”.
Daí decidiu investir na carreira e na família. “Só volto a escrever quando for doutor e meus filhos estiverem crescidos”, dizia quando algum amigo lhe cobrava a publicação do tal livro.
Graduou-se em Matemática, cursou especialização em Engenharia da Qualidade, concluiu mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica, tudo isso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR, onde é professor desde 1995. Além de trabalhar no comércio, foi bancário e empresário. Casado, é pai de um casal de filhos.
Assumiu oficialmente a condição de escritor, ao publicar a crônica “O Crânio” em sua página no Facebook no dia 2 de outubro de 2015.

Link: www.facebook.com/FlorentinoAugustoFagundes

https://www.instagram.com/florentinoaugustofagundes

Mais recentes de Florentino Augusto Fagundes

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.