Quarta, 19 Outubro 2016 16:08

Ode à Pátria do Cruzeiro Resplandescente

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- “Vó”, “vó”, corre que vem tormenta!

Então, entre alardes de infância e rugidos proféticos das nuvens, recolheram-se na solidão do casebre. Fizeram das paredes sem cor pilares de monarquias antigas, o teto de zinco era Pátria do Cruzeiro Resplandescente, protegê-los-ia dos temores do mundo, dos choros distantes que nunca poderiam ver; uma construção de séculos nunca vividos, tijolos de lamentações e idílios nunca declamados. E, entre eles e o mundo, havia uma vidraça. Do brilho invisível do vidro enxergavam o mundo: nuvens negras se juntando e se desfazendo, dando voltas e revoltas na ausência azul dos celestes, só viva na cerração - filha tardia dos invernos destas terras -, onde as luzes laranjas dos postes flutuavam incertas no canto das vistas. Vistas viajantes, do úmido da grama resignada deste quintal - deitada no eterno sonho de ser grama -, ao outro lado da rua, à inquietude das taquaras - com seu verde tão triste -, no seu debater em ventanias proféticas e sua amargura sem rosto nem corpo, só do vento e do existir. Tão frio o vento que fazia até tremer os ossos de quem já vira 60 invernos, que dirá sobre quem só vira três? Com pupilas feitas de tormentas, esse neto diminuía no sofá, escondia-se naquele duro cantinho de existência - sem ninguém para chamar, só ele, temente alma. E sua avó? Perdida na vastidão atrás de seus óculos: tantos foram os anos que a levaram a ser assim - em suas nostalgias de sóis mais belos -, tantas foram as inimagináveis decepções, as horas cinzas que se arrastavam, as saudades tão doídas; assim ela diminuía em seu canto do sofá - alheia em devaneios. Ambos unidos pelo rugir das nuvens distantes, um rugir dum cão solitário no meio de rua, invisível aos transitantes, insistente em ser cão sozinho, vagante e esquecido. Um esquecimento frio, de tantos e tantas Quaresmas, que se esfumaçaram nas memórias inconscientes do povo. Mas ali, só se esfumaçava a cerração no negro das nuvens. Insolentes como eram, nem formavam os Velhos Heróis que nos salvariam do Chumbo, nem sonhos sobre lares na secura da Terra, nem a glória de Angras e as Serras do Sul, só restava um pesadelo vagante no céu tardio. Cheio de temores, que a ninguém fariam sentido, nem mesmo a ele: eram abstrações de madrugadas tão vazias, da possibilidade de uma possibilidade, daquele nunca falado, dum rugido baixo dentro da cabeça - agora gigantesco e funébre no céu da tardinha.

Do crepúsculo escondido, estouravam os pingos. Um a um, caíam sem ordem no zinco! Estouravam, estouravam! Explodiam sem rima ou razão, sem a ordem universal da Grande Nuvem de Magalhães ou das profundezas de Mariana; milhões de cães sem dono latindo à solidão do casebre e aos transitantes apressados e encharcados das calçadas de concreto. Seus passos no estourar das poças d’água entre ventanias gritavam palavras incompreensíveis, uma linha aguda impossível de se decifrar, voltas tristes de erros nunca entendidos. Oh, Sísifo! Ensina-nos teu viver! Tantas crônicas não remendam as feridas de nossas almas. Mesmo assim, tentava - por Deus, tentava - se imaginar brincando com as caravelas de papel nas pocinhas da chuva; a desbravar o Cabo da Boa Esperança, mas a indiferença dos trovões para consigo, os estouros dos pingos, tudo estaria ali, com ele ou não, era um mundo em que habitava também, mas que não habitava-o. Eram longes e iguais, como uma lágrima no Atlântico. De pensar nisso tudo, observava as sombras - nascidas de lâmpadas amarelas - no seu representar a casa: ele, sua avó, o velho sofá, todos em sua inconstância naquela parede sem cor - vinham as tormentas cantando réquiens para ninguém. Se abraçou na pele fria da avó, as mãozinhas de crianças agarravam o carinho distante duma mulher endurecida pelos anos.

- “Vó”, a Mãezinha do Céu “tá” braba com nós?

- Não, meu neto, chove porque chove. Não é bonito?

Encostou a cabeça na avó e desceu num sonho, num temor da solidão daquele pequeno casebre. Lá fora, chovia a tristeza de todos as vidas: do mundo de tormentas e de nuvens negras que lavaram infinitos significados, que lavaram infinitos sonhos e que foram a alegria de infinitas infâncias! Sonhou que chovia.

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Vinícius Ferreira

Pessimismo nascido de otimismo é cinismo. Otimismo nascido de pessimismo é lucidez.

E-mail: Batataelocalh@hotmail.com

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