Terça, 25 Outubro 2016 22:29

Badra

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A noite foi agitada. Não pude pregar meus olhos por sequer um segundo, devido à sensação de culpa. Na cama ao lado, Trondira se virava de um lado para o outro. Decidi perguntar:

– Está tudo bem?

Ela virou-se, assustada, e disse:

– Sim. Só estou me lembrando do ocorrido. Que coisa mais horrível, não é mesmo?

– Horrível mesmo. Lility era legal. Sabia conversar, me escutar. – Contei arrependido.

– Sabe que nunca imaginei que falaria comigo? – Falou Trondira, espantada.

– Mas por quê? Você parece legal! – Animei-a.

– Sei lá, ninguém nunca teve coragem de falar comigo nesta nave. Sei que sou estranha, que sou incomum. Ninguém tem vontade de saber o que existe por trás do “diferente”. – Desabafou, deprimida.

– Mas é verdade, tudo o que é diferente assusta um pouco. Não deveria ser assim, mas é o que acontece. – Lamentei – Mas me conte: Por que os seus cabelos são tão diferentes?

– Ah! Isto aqui serve para eu conseguir respirar no meu planeta. – Contou.

– Que incrível! Você faz um tipo de fotossíntese?

O dispositivo de voz interrompeu nossa conversa:

– Oh! Vejo que os dois já estão se entendendo! Daqui a pouco iremos para as feiras intergalácticas. Espero que aproveitem! Encontrem-nos daqui dez minutos na sala de reuniões.

Olhamo-nos. “Como era possível Gava anunciar um passeio como se nada tivesse ocorrido? Estamos em luto!” Levantamo-nos e fomos até a sala de reuniões. Todos se encontravam lá. Gava começou a dar um cartão para cada passageiro, explicando:

– Este cartão contém 800 créditos espaciais para cada um. Vocês gastarão este dinheiro nas feiras intergalácticas. Esta é a prova da igualdade!

Todos comemoravam. A nave pousou em Saturno, sede das feiras. Era a primeira vez que estávamos em terra. Colocamos uma espécie de capacete retangular de açolástico que continha gás pressurizado. Descemos da nave, ansiosos, e ficamos maravilhados com o céu negro de Saturno, que possibilitava a visão de seus anéis e de sua grande lua, Titã, de cor parecida com um fruto da Terra: o caqui.

Milhares de seres estavam naquele local. As barracas eram estruturadas em Açolástico, cobertos por um plástico e tinham desde alimentos até objetos religiosos.

Cada um foi para um lado. Decidi dar uma olhada nos alimentos. Lá, comidas típicas de diversos planetas eram vendidas dentro de latas. Decidi comprar uma lata que continha cinco unidades de cachorros-quentes. Fui atendido por um robô de cabeça retangular de vértices arredondadas – igual a Gava – que me cobrou 50 centavos espaciais (representado por KL$0,50).

Após a compra, dirigi-me a um estande tecnológico, onde comprei um incrível celular touchscreen dobrável por apenas KL$200. No estande religioso, símbolos de diversas religiões eram predominantes. Nele, comprei a cruz cristã. Perto de mim estava Trondira. Ela comprava outra cruz, chamada Ankh, que representa a imortalidade na linguagem hieroglífica egípcia e é semelhante à cruz cristã, mas apresenta uma alça no topo dela.

Após mais algumas compras, retornamos à nave. Gava consultou nosso saldo: Alguns gastaram tudo, outros quase nada. Com essa informação, exclamei:

– Galera, vocês não estão percebendo que esta é a prova de que a igualdade não existe? Todos receberam uma quantia igual, mas cada um gastou de forma diferente, fazendo com que alguns ficassem com mais e outros com menos. Ou seja, por mais igualitária que uma sociedade seja, as desigualdades sociais continuarão existindo!

Todos me olharam, indignados. Gava sinalizou para o mudinho, enquanto ele chegava cada vez mais perto de mim. Só no momento em que chegou totalmente perto de mim percebi do que se tratava. Ele segurou meu braço com as suas mãos, que espalhavam um muco escorregadio. Gava apertou um botão, que fez com que o chão abaixo de mim desabasse e eu ficasse sozinho no espaço, a olhar algumas estrelas bem distantes de mim em meio a um céu negro e assustador. Não sentia mais meu corpo, e meus olhos estavam quase secos. Não podia respirar e perdi a visão. Sabia que morreria em menos de dois minutos.

Repentinamente, ouvi um ruído de motor. “Eles voltaram! Perceberam que cometeram um grande erro!”. Algo me sugou, fazendo com que caísse em uma superfície plana. Alguém disse Badra, ou algo parecido, e eu desmaiei, em choque.

 

Série Kahelium:
1ª Parte Kahelium
2ª Parte Taresh
3ª Parte Lility

Lido 316 vezes Última modificação em Terça, 25 Outubro 2016 22:36
Beatriz Antonieto Fernandes

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1 Comentário

  • Link do comentário Nelson Lyra Terça, 25 Outubro 2016 23:36 postado por Nelson Lyra

    Gosto muito da sua forma de escrever, e da sua imaginação.

    Relatar

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