Quarta, 26 Outubro 2016 20:07

A Substância da Vida

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Amaldiçoada seja. Ele pensou.

E ela entrou pela sala. Afobada, nervosa, com os saltos das botas negras fazendo barulho no assoalho. Os seios ainda muito duros e róseos, camuflados sob a blusa de renda preta, emprestavam-lhe mais e mais juventude. Raivosa, neurótica, ruim de coração. Mas perfeita. Um sonho de se olhar e de se viciar de todo jeito. Pernas brancas como papel e duras como o gelo.

Gelo. Poderia ser seu sobrenome. O que lhe inundava as veias, a cor de sua alma, o líquido sem calor de seu sangue. Mas a pele muito alva revelava presença de glóbulos vermelhos, no ruborizar de sua face. E apenas isso. Nada mais atestava vida naquela mulher odienta. Ele pensava assim.

Colocou o casaco e a bolsa sobre a poltrona, e sentou-se arreganhando as pernas em posição de parto. Apenas para provocá-lo. Para incendiá-lo. Ou criar umas brasinhas em seu corpo destruído. Acendeu um cigarro e pôs-se a encarar. Com aquele risinho nojento, falso, miserável, crápula. Com a desfaçatez dos canalhas. Sorria com os olhos lânguidos, as pernas abertas, a calça de couro, o cigarro dentre os lábios. A juventude agressiva e não contagiante. Não contaminante. Juventude cruel dos que a possuem, majestosamente. E, com a voz rouca de garganta cheia de nicotina - o que lhe emprestava uma sonoridade sensual e mordaz- iniciou a melodia de sua fala.

- Vejo que ainda não morreu.

‘’Vejo que não morreu’’... Era a forma dela ofertar boa noite. Diariamente, ao chegar do trabalho, encontrava-o assim: sentado na sala perto da lareira e olhando para o teto, ou para o vago. Regozijando-se com sua autocrucificação. Um Jesus ensanguentado e vítima de um mundo pérfido e intragável. Diferente disso eram os dias em que bebia garrafas de vodca, a cair e ficar desmaiado por horas sobre o tapete. Era encontrado assim, pela manhã: jogado como uma folha de jornal amarrotada e molhada de álcool. A empregada o tentava acordar, e chamava o jardineiro para carregá-lo até a cama. E ainda se sentia o aroma do perfume vaporizado por toda a casa - rastro que a perversa deixava ao sair para o trabalho, em direção à luz da manhã - o largando desfalecido ali mesmo. E os dias sórdidos eram assim.

- Não morri não. Ainda não. Ele respondeu com a voz trêmula, mas agressiva.

E, com a mesma dificuldade de sempre, empurrou a cadeira de rodas para perto dela. Ele poderia ter uma cadeira automatizada, cara, de última geração, mas não queria. Ia empurrando, se arrastando pelas paredes todas já arranhadas, indo aproximando-se e, quanto mais se aproximava, mais enxergava aqueles dois faróis azuis que eram os olhos dela. Debeladores, lascivos, vis. Os donos da alma dele. A excitação pungente de sua vida, de suas noites, de seus pesadelos. O olhar de escárnio da beleza infinita da - ainda - juventude constelada dela.

Ao sentir a aproximação da cadeira de rodas, ela levantou-se e foi até a janela. De soslaio, observou o vulto daquele homem quase velho parado no meio da sala, com as pernas esmirradas como gravetos, e um cobertor no colo. Chinelos nos pés, olhos fundos esbugalhados. Corroídos. Inchados. Aquela visão do inferno. Vê-lo ali, sem o bater da vida, sem a alegria dos melhores momentos, era repulsivo. Ela tinha menos vinte e poucos anos do que ele, e detinha o direito ao frescor dos novos sonhos. Dona do poder de existir e de sugar o sopro da vida. Ele, não mais. Não queria. Não suportava.

Casara-se com ela, no broto dos dezenove anos da quase menina. E ele, já avançava na casa dos quarenta. Para ela, uma paixão de moça, diante da sabedoria e da maturidade do professor da faculdade. Para ele, o fascínio do corpo, da tez, da propriedade da pele. O sexo súbito e incontrolável, os gozos espetaculares, e os sussurros de uma voz quase infantil dotada de meiguice ainda não poluída. Como uma pulverização de eucaliptos, adentrando as masmorras das grandes bibliotecas empoeiradas e escuras onde ele vivia enterrado. Estudando, pesquisando, aprofundando-se, sofrendo das angústias do saber. Tornando-se, homeopaticamente, gordo e velho. Fumando e bebendo para suprir o que a alta filosofia não fazia por ele, não o convencia, muito menos, o curava. E, sem fé, perdia todos os rumos. O prazer e a nobreza da dor sempre o acompanharam. A dor, para ele, era destino certeiro dos grandes sabedores confinados em suas solidões, por deter a amplitude da mente. O mundo banal jamais o interessou. E ela, apenas aprendiz. Ela, tenra. Ela, com bicos do seio rosa-bebê. Ela, solar. Casaram-se na praia - por desejo dela - sempre natural e leve que era. E continuava sendo. Ele reclamou do início ao fim. Da areia, do sol, do calor, do vento. De tudo.

Apagou o cigarro no vidro da janela. De costas, ainda. Ele, imóvel na cadeira, olhava para os pés magérrimos dentro das meias. Mortos. Mórbidos e fracos. Havia uma grande beleza quase Cristiana naquela visão- ele pensava.

Foi quando, de repente, seus olhos foram atraídos para uma estatueta de bronze sobre a cantoneira, e ele foi tomado por um desejo incontrolável de esmagar a cabeça dela. Poder ver o sangue jorrar e inundar o tapete onde ele dormia em prantos - e bêbado, no seu desespero - sem que ela se condoesse. Sem que se aliasse ao pacto implacável com a melancolia profunda. Mulher fútil e banal. Não compreendia. Não tinha alcance. Sua jornada era talhada por caminhos pequenos, com destinos óbvios e superficiais.

Queria para ela uma morte medonha e brutal, de preferência, que desfigurasse seu rosto impávido de porcelana. E aquele riso que não parava de rir. Riso dos rasos, dos comuns, dos que não conhecem o quanto viver é implacável. Que o azul incomparável de seus maquiavélicos magníficos olhos se tornasse nulo, pela cegueira. Que sua juventude derretesse. A estátua nem resolvia tanto.

Ela não o olhava, mas sentia o calor do corpo dele, a alguns passos. E lembrava-se de como amava a inteligência dele. Do tanto que havia aprendido com tudo o que ele falava. O que ele contava, e o que ensinava. As horas sobre a cama, onde ela era apenas uma boneca estúpida com sexo pulsante de mulher e, ainda, com uma pureza interior que ele sabia capturar e desbravar. Lembrava-se dos significados que encontrou para a vida, depois que o conheceu. Do nada que sabia e de tudo que aprendera, em todos os dias ao lado daquele homem.

E lágrimas quentes se represavam em seus olhos, prontas a explodir. Uma vontade imensa de chorar, de cair, de se jogar. Vontade de se guardar no colo dele como um feto desnutrido, uma planta implorando rega, e sentir o perfume cítrico do início, que não existia mais. Pois ele recusava-se a tomar banho e permanecia muitos dias com a mesma roupa. Deleitava-se com aquele sofrimento e com aquele desterro de tudo.

Contendo o choro, foi até a janela olhar a noite seca lá fora. Desejo que ele a tomasse nos braços e que a amasse com furor. Que dissesse que a amava. Que a beijasse como antes. Que pedisse ajuda. Ela não lhe daria sua pena, nem sua compaixão, jamais. Mas abriria os braços para acalentá-lo; não como a um bebê, mas como a um homem profundamente amado.

Então, respirou bem fundo - na intenção de confessar sua dor. Pelo fim do amor deles, e do amor dele por ele mesmo. Linda, nevada, e com a turquesa dos olhos inigualáveis inundada de lágrimas, virou-se para ele. Sentia coragem, e um amor imortal trancado e abatido no peito. Sentia tudo. Sorria docemente, mas com o rosto encharcado. A estatueta de bronze permanecia no lugar, mas a gaveta onde ele guardava a arma estava aberta.

O tiro foi certeiro. E ela caiu. Mas com os olhos ainda moços, ainda ingênuos, banhados em lágrimas - abertos e arregalados - o fitando. Os belos olhos vivazes, ainda não estavam mortos.

Ele alcançou a garrafa de uísque e o isqueiro dela. Acendeu uma única vez.

E, finalmente, tornou negros os olhos mais azuis que conheceu na vida.

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Gisela Lopes Peçanha

Natural de Niterói, RJ. cantora, compositora, escritora.
graduada em musicoterapia pelo conservatório brasileiro de música do RJ.
recentes primeiros lugares em concursos literários: concurso José Cândido de Carvalho- Niterói, RJ/2015; prêmio Rubem Alves-feira nacional do livro-ribeirão preto, SP/2015; concurso de contos da universidade metodista de Piracicaba, SP/2015; concurso de poesias poesiarte, RJ-2016; concurso de poesias de bauernfest-petrópolis, RJ-2015.

Profissão: Cantora, Escritora

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