Quinta, 27 Outubro 2016 20:04

O Salto da Fé

Escrito por
Avalie este item
(1 Voto)

A porta se abriu com um rangido nada discreto, O Delegado estava ao celular. Ele já esperava o Policial que se sentou na cadeira a sua frente. As mãos trê-mulas pegaram um cigarro no bolso do colete e um isqueiro, tentou acender o cigarro em três falhas tentativas.

O Delegado de modo diligente pegou o isqueiro e acendeu o cigarro do Polici-al, o corpo dele tremia convulso. O Delegado abriu uma gaveta em sua mesa, pegou uma garrafa de uísque e dois copos pequenos, e os depositou na mesa. Ele coçou a cabeça calva, era alto e forte, beirava os quarenta anos, vinte só na Polícia Militar. Serviu um dos copos e empurrou na direção do Policial.

— Diga-me, tudo que está no relatório... É verdade? — Ele arqueou as grossas sobrancelhas.

— S-sim senhor, t-tudo — respondeu lacônico o Policial.

— Mesmo assim, se estiver em condições... — fez uma pausa — gostaria de ouvir pessoalmente.

O Delegado se mostrava preocupado. O agente se recompôs. Bebeu um trago, deu mais umas baforadas e começou o relato como se estivesse revivendo o momento.

— O Garotinho ia pra Igreja do Sacrifício Divino... todos os domingos com sua família, era um garotinho bem esperto sabe — disse o Policial assoando o na-riz. — Tinha uns oito anos, é nessa época em que eles ficam bem teimosos. Mas esse parecia legal chefe — o Delegado afirmava com a cabeça que sim, nada dizia. — Menino de igreja. Seus pais eram devotos fanáticos...

— Nunca ouvi falar dessa denominação. Mas continue — pediu o chefe.

Tentando controlar o nervosismo, ele abriu o colete e tirou o quepe.

— Mas tinha uma coisa que o Garotinho achava estranho, as pessoas sumiam de repente da igreja, sabe o que quero dizer?

— Vagamente — o Delegado preparou mais uma dose para o Policial.

— Seus pais sempre respondiam que eles estavam no Céu. Aquilo era uma loucura, loucura! — O Policial começou a bater na cabeça com uma das mãos. — Homens e mulheres que completavam trinta e três anos desapareciam! M-mas ele queria descobrir, até eu queria descobrir se estivesse lá. Até que seu pai fez trinta e três anos — uma baforada cinzenta foi lançada no ar —, o que ele mais temia era perder os pais.

— O que aconteceu, o que ele fez? — perguntou o Delegado curioso.

— Bem no dia do aniversário do pai, ele foi até o Salão da Fé, é parecido com uma sacristia. Quando se completa os trinta e três anos, todos são levados pa-ra lá de onde nunca mais retornam... — nesse momento o Policial teve um ca-lafrio. — É triste pensar que ele viu tudo àquilo.

O agente baixou a cabeça e conteve as lágrimas.

— Continue sim — o Delegado ainda não bebera nada do uísque.

— Os fiéis são levados pelo Condutor, uma espécie de sei lá... Tipo um pastor ou padre, e os relatores. Eles não têm um líder máximo como o papa. Quando alguém é levado, os outros fiéis passam a rezar de olhos fechados, depois só retornam o Condutor e os relatores. — O Policial jogou a binga de cigarro no chão e a amassou com seu coturno. — O Garotinho então, muito esperto, se desvencilhou da sua mãe e foi escondido para o Salão da Fé. O que viu o dei-xou em choque. Ele saiu correndo da igreja e continuou a caminhar pelas ruas desertas. Pessoas o viram andar e falar sozinho. Minha viatura foi chamada, eu e meu parceiro de ronda o encontramos numa estrada de terra com os oli-nhos assustados, parecia até um animal sabe?

— Daí você e seu colega o trouxeram para o Conselho Tutelar — disse o De-legado protocolarmente.

— Sim nós o trouxemos, ele só falava no pai e na mãe. Eu e meu colega achamos que ele tinha se perdido ou seus pais tinham sofrido um acidente. Voltamos à igreja com ele. Um lugar bem ermo chefe. Só paramos numa cons-trução no fim da rua. Um armazém abandonado para ser mais preciso. — O policial suava ao relatar tais acontecimentos. — Mas dentro era uma igreja! De fora parecia um lugar abandonado, mas dentro, não devia nada a nenhuma congregação. Bem, não encontramos nada. O ambiente do lugar era diferente. Havia apenas uma cruz de madeira na parede atrás do altar. Tinha assentos para umas cem pessoas. Não havia imagens, nem esculturas.

O Delegado cruzou os dedos e os pôs abaixo do queixo de modo intuitivo.

— E os fiéis?

— Ninguém, tudo vazio. Mas pareciam ter saído muito apressados, haviam deixado suas bíblias nos assentos — gesticulando muito, o agente explicou: — O que chamou nossa atenção mesmo foi que a igreja tinha isolamento acústico. O som não incomodava a vizinhança, as casas ficavam um tanto longe da igreja. Circulamos pelo local e encontramos o Salão da Fé atrás do altar. Havia duas entradas laterais. Mas nada podia ser visualizado até que se desse uma volta completa. Lá encontramos uma porta para o salão, e o que encontramos nos deixou enojado. Um homem seminu com a garganta cortada numa enorme poça de sangue... era o pai do Garotinho.

— Daí você chamou o rabecão e isolou a área. Mas e o que se descobriu do menino e da igreja?

O Policial limpou o suor da testa que caia em bicas com a manga da camisa.

— O Garotinho passou uma semana em acompanhamento psiquiátrico. En-trou em estado de choque e tinha pesadelos constantes. Ele teve um surto e acabou se atirando da vidraça do terceiro andar do abrigo em que estava — as veias no rosto do Policial se tornaram salientes e azuladas. — No banheiro do seu dormitório, ele desenhara uma cruz com seu próprio sangue. Não tínha-mos sua identidade e ninguém veio identificar o corpo. Não tardou para sa-bermos os nomes de alguns possíveis frequentadores da Igreja do Sacrifício Divino. Uma Bíblia continha um número de celular, o SI da polícia fez o resto. O que o Garotinho tinha dito ao psicólogo foi estarrecedor. Ao entrar sorratei-ramente no salão, viu o pai se matar cortando o próprio pescoço enquanto gri-tava ‘Pela glória do senhor Jesus Cristo’... era horrível o estado do corpo chefe, ele ficou vários minutos gorgolejando e esguichando sangue feito um porco no chão.

— Ele se suicidou? — indagou o superior num tom surpreso.

— Sim. Nessa igreja a maior demonstração de fé, o que te leva pro Céu é se matar, mas tem uma idade específica e uma ritualização, trinta e três anos, a mesma idade de Jesus... — a visão do Policial começava a falhar. — Essa igre-ja é originada de uma antiga seita cristã medieval, que foi revivida a partir dos anos 80. Alastrou-se pelo mundo todo. Ninguém sabe quem recomeçou o mo-vimento... estamos a investigar, eu estou investigando! O Brasil tem várias igre-jas, bem discretas, conta com alta proteção de pessoas influentes.

— Mas e o tal “Condutor” e os “relatores”?

— O Condutor é a pessoa que realiza as tais missas... — O agente sentiu uma leve pontada no peito. — Os relatores são as pessoas que ajudam em tudo, como o obreiro das igrejas evangélicas sabe. Recolhem o dízimo, os pertences dos suicidas, ajudam a família a se mudar para evitar perguntas dos vizinhos, tem seu serviço funerário próprio... Mas eles não se suicidam. Eles dizem que sua penosa missão é garantir o desejo de Jesus, o sacrifício dos fiéis para puri-ficar suas almas, e assim entrarem no Céu!

— Prefiro ficar com a alma suja — o Delegado tentou ser engraçado, sem su-cesso.

— O resto já é sabido pelo senhor, temos vários endereços, mas sem o Garoti-nho para fazer o reconhecimento é impossível identificá-los, o mandato de pri-são foi revogado pelo juiz. O caso foi dado como encerrado por falta de pro-vas... — O Policial não conseguia terminar de falar devido uma crise de tosse.

— Ok Policial! Você parece muito envolvido pelo caso, deixe estar, nos iremos resolver isso de agora em diante. Tire uns dois dias de folga. Dispensado.

Ele levantou-se com o dedo em riste na cara do Delegado, sentia-me abafado. Tentava livrar seus pensamentos da história, em vão. De repente a respiração começou ficar entrecortada, as pontadas no peito aumentaram. Os braços se contorceram e sua pele ficou fria, embora suasse como se estivesse numa sauna. Seu corpo se dobrou com o peso e caiu encima da mesa.

Com esforço ele tentou pedir socorro para o Delegado que cruzou os braços e o assistiu estrebuchar enquanto caia no chão. O Policial notou que a dose de uísque do Delegado continuava lá, intocada, ele não havia bebido nada!

Uma hemorragia nasal começou em seu nariz, as pupilas se dilataram, uma baba de saliva e bile escorreu fétida da sua boca. O Delegado então se apro-ximou de seu ouvido e disse-lhe:

— O Ministério da Saúde adverte Policial, curiosidade demais mata.

Lido 296 vezes
Mais nesta categoria: « Paris Saudosismo »

1 Comentário

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.