Segunda, 31 Outubro 2016 21:38

A Feira

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Pra mim seria folga naquela cidadezinha distante. Passei pelo comércio adquirindo umas coisas, cheguei de sacola cheia ao bosque amplo e calmo. Num banco confortável, sentado ali fiquei.

Estava concentrado na leitura quando irrompeu a ordem imperativa e raivosa.

- Conte uma piada!

Levantei os olhos, de tão perto, senti o bafo do indignado portando um porrete enorme.

- Vamos, conte uma piada, também queremos rir!

Entendi a conotação no plural, eu literalmente cercado pelos rapazes. Paralisado pela surpresa e medo, permaneci imóvel, de reação apenas fechei o livro, ainda com o dedo marcando a página.

À esquerda ao longe, meninas contemplando o panorama. Uma senhora se junta ao grupo que se aproxima devagar. No centro, reconheci pela saia branca, a garota que há pouco se interessou pelo meu livro. Ouviu o resumo sorrindo, gargalhando comentou.

- Nunca ouvi nada mais engraçado e maluco!

Então era isso, estava decifrada a motivação da tragédia. Sairia vivo dela?

O agressor, fazendo uso do cassetete, martela o livro três vezes. Desdenha a obra e me insulta.

- Retrato de Dorian Gray! A boneca comeu a língua?

As mulheres vinham devagarinho, pareciam saborear a cena da valentia covarde. Bolei rápido um plano que julguei bom, mas tive de abandoná-lo porque avistei um pelotão de homens apressados se aproximando perigosamente pela direita. O líder deles portava uma arma ostensiva na cintura, à mão um chicote dos grandes. Avaliei a situação. Eis aí a beleza da tragédia, violência crua da juventude que tanto admiravas: morrerei por te anunciar Oscar Wilde!

As mulheres poderiam me salvar da ira masculina se quisessem, mas não tinham pressa em fazê-lo. Otimista, porém, atualizei o cenário: com sorte saio vivo, depois de apanhar bastante. Balbuciei algo um tanto tolo.

- Irmão, se acalme irmão...

O bastão sibilou produzindo vento pouco acima da cabeça.

- Cala a boca que não tenho irmão FDP! Deslancha de uma vez a maldita piada, ou lhe quebramos na pancada!

A memória entorpecida pelo susto, não colaborava. Quando ia perguntar, simplesmente pra ganhar tempo, se havia preferência sobre algum tema específico, ouviu-se o estalido da chibata tal qual o estrondo de uma bomba.

- Abaixe esse cacete e caiam fora!

O homem armado esbanjava moral, os agressores recuaram submissos. A moça de branco capturou o valente num abraço firme, a senhora, incrédula questionou.

- O que estava fazendo Dioguinho?

Aliviado, agradeci.

- Obrigado, o senhor salvou minha pele.

Na resposta fria e calculista, confirmei na prática, a teoria de que são os interesses que movem o mundo, não as virtudes.

- Não fiz por você, foi pela cidade. Na véspera da tradicional Feira da Colheita, tudo o que não quero é um linchamento atrapalhando os negócios.

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Florentino Augusto Fagundes

Filho e neto de paranaenses, nasceu em Ribeira SP em 7 de fevereiro de 1961. Entre os treze e dezesseis anos trabalhou ajudando seu pai no Mercado Municipal em Curitiba, experiência que lhe rendeu a crônica “O Sabor da Maçã.” Mudou-se em definitivo para Curitiba em julho de 1977. Desde criança inventava estórias, embora não as registrasse. Escreveu alguns contos e uma peça de teatro na década de 80, os quais lhe renderam dois prêmios literários. Ainda nos anos 80 chegou a escrever um romance, que depois destruiu porque considerou horrível. Segundo ele, a editora Record foi generosa ao recusar a publicação relatando polidamente “seu material tem pouca literalidade”.
Daí decidiu investir na carreira e na família. “Só volto a escrever quando for doutor e meus filhos estiverem crescidos”, dizia quando algum amigo lhe cobrava a publicação do tal livro.
Graduou-se em Matemática, cursou especialização em Engenharia da Qualidade, concluiu mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica, tudo isso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR, onde é professor desde 1995. Além de trabalhar no comércio, foi bancário e empresário. Casado, é pai de um casal de filhos.
Assumiu oficialmente a condição de escritor, ao publicar a crônica “O Crânio” em sua página no Facebook no dia 2 de outubro de 2015.

Link: www.facebook.com/FlorentinoAugustoFagundes

https://www.instagram.com/florentinoaugustofagundes

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