Terça, 08 Novembro 2016 11:44

A Viagem

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O prazer da viagem começou com bastante antecedência, quase um ano antes da data prevista para o seu início.

O grupo de amigos decidiu que seria agradável empreenderem uma viagem juntos. Já havendo laços de amizade, o entrosamento seria tranquilo e não correriam o risco de, lidando com pessoas desconhecidas, terem dificuldades de convivência.. O ritmo seria calculado por eles, sem pressões excessivas de horário e cada local escolhido poderia ser aproveitado ao máximo.. Afinal, as oito pessoas envolvidas estavam entusiasmadas com o projeto e impulsionadas, por motivos diversos, a espairecer além fronteiras.

Após as discussões iniciais em relação ao destino, escolheram a Itália e, nela, as cidades que mais os atraíam. Inúmeras reuniões foram feitas, ora na casa de um, ora na casa de outro, acompanhadas de lanchinhos animados com o típico café e pão de queijo bem mineiros.

O grupo de viajantes era composto pelo casal que comemorava Bodas de Prata naquele ano, pela cinquentona que , cansada de tentar arranjar um marido apelando para Santo Antônio (inclusive colocando-o de cabeça para baixo dentro da geladeira), resolvera mudar de tática e, amigavelmente, visitá-lo em Pádua; pela garota, aprovada no vestibular, que ia com a mãe festejar o resultado nesta viagem de sonhos. Também fazia parte do grupo o desembargador aposentado quase octogenário e duas irmãs com inclinações artísticas, uma para a pintura e outra para a literatura. Ambas esperavam encontrar a inspiração necessária para realizarem obras primas , um quadro e um romance que coroariam suas modestas carreiras de pintora e escritora.

Para evitar frustrações, os amigos planejaram visitas a museus, exposições e pontos turísticos previamente e com o auxílio dos modernos processos tecnológicos providenciaram ingressos e as passagens necessárias aos deslocamentos. Tudo preparado, o roteiro começaria em Verona, seguindo para Pádua, Veneza, Florença e Roma. De lá, partiriam rumo à escarpada Costa Amalfitana e, depois de observarem suas belíssimas paisagens voltariam a Roma fechando o ciclo para retornar ao Brasil.

O trajeto foi rigorosamente cumprido e a viagem, preparada com tanto cuidado, não poderia, em teoria, dar espaço a nenhum fato inesperado. Entretanto nunca se sabe o que a vida nos reserva e ela trouxe muitas surpresas aos viajantes que viram-se atingidos por mudanças radicais em seus destinos.

O casal que comemorava as Bodas de Prata começou a se desentender logo ao início da viagem. As brigas começaram por causa do desatino da mulher que, apossando-se do cartão de crédito do marido não conseguia lembrar que estava gastando em euros. Os ânimos foram se exaltando a tal ponto que resolveram não comemorar juntos as Bodas de Ouro e divorciaram-se logo ao regressar ao Brasil.

A cinquentona caiu nas boas graças de Santo Antônio. Enternecido por sua visita a Pádua, o Santo encaminhou-a ao desembargador que a viu com bons olhos e dela recebeu todo o carinho e afeto.

A jovem premiada pelo sucesso no vestibular, incompatibilizou-se com a mãe que não aceitou o seu namoro com o gondoleiro veneziano. Voltou para o Brasil, contra a vontade e imersa em profunda depressão.

As duas irmãs decidiram ficar morando na Itália. A pintora, na Costa Amalfitana, vai tentando, dia após dia,, retratar em seus quadros as encostas íngremes e a tonalidade incomparável das águas do Mediterrâneo. A escritora, imbuída da atmosfera romântica de Roma, passa horas no Museu, contemplando a estátua do “Fauno de Mármore” e relendo o romance de Nathaniel Hawthorne, nela inspirado. Busca, desta forma, encontrar o caminho para a tessitura da obra que pretende escrever um dia.

A viagem foi, para cada um dos membros do grupo, uma aventura que trouxe resultados surpreendentes, propiciando-lhes a incrível experiência da vida, cheia de acontecimentos imprevisíveis.

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Cecy Barbosa Campos

Natural de Juiz de fora, MG. Bacharel em direito e licenciada em Letras, com Mestrado em Teoria da Literatura. Profa da UFJF, onde lecionou Língua Inglesa e Literaturas de Língua Inglesa. Depois da aposentadoria dedicou-se à pesquisa de autores afrodescendentes, ministrando palestras e cursos livres.

Idade: 78

Profissão: Professora aposentada

E-mail: cecybcampos@gmail.com

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