Quinta, 10 Novembro 2016 20:33

Visita Rápida

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Visita breve, nem guardei o nome da cidade. Tempo curto que valeu. Passando perto, a intuição mandou chegar. Avenida, calçada, comércio, gente caminhando num dia cinzento e frio. Até parece que estou na minha gelada Curitiba, pensei. Nada de extraordinário nesse lugar distante, já vi tudo, sigo em frente.

De repente a novidade.

Lojas fechando em pleno dia, todos corriam felizes pra fora, comerciantes e fregueses. Expressam entusiasmo num idioma estranho, ruidosos grunhidos de alegria.

Não julguei prudente fotografar aquela felicidade grupal, e você já vai entender por que.

Ao meu lado uma moça branquela saca a roupa apressada, despiu também a criança, talvez seu filho, quem sabe irmão. Ela só de calcinha, desenvolta no meio da praça, o menino todo nu. Prevenida, puxa uma toalha da bolsa, forra o chão e deita-se. Desinibida, mostra-se por inteiro. Insiste para que o pirralho deite também, percebo pelos gestos, já disse, não conhecia a língua deles. Ele prefere ficar em pé. Descobre algo incrível, um sósia virtual, espírito impenetrável se revelando em forma de projeção animada no piso duro. Mexe braços, pernas, rebola de todo jeito, e tudo se repete numa mímica escura na pedra fria. Pulam em sincronia, o moleque e a silhueta negra.

Velhos e jovens, se despindo sem pudor. Roupa descartada revelando ossos ou banha. Só eu trajado, descobri o motivo da nudez coletiva. Saudavam efusivamente a breve réstia de luz. Ficar pelado em público era imposição naqueles arredores da Europa, perante a visita fugaz do sol.

Pareciam religiosos devotados a glorificar a mística da luz, cultuando o Deus do fogo. Mas o fato é que o ritual atendia tão somente exigências do corpo.

Tão rápido como veio, o sol se foi. O calor sagrado que desceu do céu, pouco durou. Nuvens escuras se fecham de novo, encobrindo a claridade. O povo também volta a se esconder no interior dos agasalhos, divididos na alegria de ver o sol e a tristeza pelo rápido fim do calor.

Só o menino, birrento, não queria se vestir. Ainda nu batia o pé, esperneando inconformado pelo sumiço da própria sombra.

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Florentino Augusto Fagundes

Filho e neto de paranaenses, nasceu em Ribeira SP em 7 de fevereiro de 1961. Entre os treze e dezesseis anos trabalhou ajudando seu pai no Mercado Municipal em Curitiba, experiência que lhe rendeu a crônica “O Sabor da Maçã.” Mudou-se em definitivo para Curitiba em julho de 1977. Desde criança inventava estórias, embora não as registrasse. Escreveu alguns contos e uma peça de teatro na década de 80, os quais lhe renderam dois prêmios literários. Ainda nos anos 80 chegou a escrever um romance, que depois destruiu porque considerou horrível. Segundo ele, a editora Record foi generosa ao recusar a publicação relatando polidamente “seu material tem pouca literalidade”.
Daí decidiu investir na carreira e na família. “Só volto a escrever quando for doutor e meus filhos estiverem crescidos”, dizia quando algum amigo lhe cobrava a publicação do tal livro.
Graduou-se em Matemática, cursou especialização em Engenharia da Qualidade, concluiu mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica, tudo isso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR, onde é professor desde 1995. Além de trabalhar no comércio, foi bancário e empresário. Casado, é pai de um casal de filhos.
Assumiu oficialmente a condição de escritor, ao publicar a crônica “O Crânio” em sua página no Facebook no dia 2 de outubro de 2015.

Link: www.facebook.com/FlorentinoAugustoFagundes

https://www.instagram.com/florentinoaugustofagundes

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