Segunda, 14 Novembro 2016 20:38

Poética do pó

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“Là où ça sent la merde ça sent l’être.”
ANTONIN ARTAUD

Ouvir os versos do cansaço
Fluindo por bocas miseráveis:
Eis o poema bruto, a única verdade!

Todo o resto são floreios sem sentido,
Delírios de um lirismo doente.
Doses, cuidadosamente administradas,
De uma poesia incapaz.

Não! Nunca a experiência da grandeza
Que esmaga, nem o suor falso dos atletas.
Quero procurar palavras leprosas
Que soem como uivos de agonia
Aos ouvidos acostumados aos sussurros,
Quase doces, das canções de amor.

Que leve o rosto ao chão
A bela musa e suje até o limite
A brancura de sua pele.

Busco a imundície do náufrago,
Do homem-pó, do espólio de Deus.

Limites do meu canto estúpido!
Acaso um par de olhos
Não pode matar a beleza da manhã?
Deixem que meu cabelo cresça,
Que me possuam os dejetos do corpo,
Que eu possa ser entranhas e coração
Para não morrer!

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