Quarta, 16 Novembro 2016 20:18

Amor de Verão

Escrito por
Avalie este item
(1 Voto)

Olhava para aquela pequena e notava nele mesmo um afeto tão forte e convincente que parecia impossível que ela não o sentisse também. Como se seu sentimento fosse algo palpável fora de uma subjetividade interior e fechada. Acreditar que ela não percebia e não participava de algum modo do mesmo sentimento seria o mesmo que acreditar que não viam, juntos, aquela parede ali, a dois metros de distância.

Mas, logo em seguida, o desespero tomava conta dele: racionalmente, embora não o sentisse, chegava à fatal conclusão de que tudo estava dentro e escondido em si; que ela nem sabia que alguém a olhava; que seus mundos estavam, sim, fechados: o dela separado e distraído; o dele coberto, evidente só para si mesmo e, logo, inexistente para aquela mulher que nunca vira antes. Aquela mulher que amava intensamente por esses trinta minutos. Aquela linda pequena com quem esperara, três pessoas atrás, sua vez na fila do banco.

Voltando sozinho e quieto pensou que nem sequer a parede existiu para a linda enquanto ela estava no banco. Por acaso ele notara todas as cadeiras, cortinas, mesas, lâmpadas, interruptores, detalhes do chão, da sala em que esperavam? Lembrou-se do rostinho fino, do narizinho bem desenhado e um pouco arrebitado, da pele branquinha fazendo contraste com os cabelos negros. Por acaso não era possível que alguém também o tivesse verdadeiramente notado - notado como ele vira a pequena, não o olhar sem significado e exploração que mal direcionamos a anônimos que cruzam nosso caminho como pano de fundo e paisagem. Por acaso não era possível que ele também estivesse alheio à um mundo do qual fazia parte? Novamente pareceu-lhe muito incrível que algumas pessoas vissem algumas coisas que outras não pudessem ver. Ela tinha a mania de morder a bochecha por dentro fazendo um biquinho encantador para o lado; aqueles lábios finos e bem desenhados. Não seria o caso de invadir o mundo do outro e fazer aparecer evidente a realidade? Certamente se houvesse dito "ei, moça, olha essa parede" passariam a notar a mesma coisa. O que estava só para ele tornaria-se para os dois. Dois mundos conectados. Ou o mundo único dela agora aumentado. Entra no carro, fecha a porta, porém não dá a partida. Olhando através do para-brisas não olha para as coisas que estão lá fora. Do coque que ela fizera caiam duas mechas sobre o pescoço magro. Será que seu sentimento seria tão fácil de mostrar para ela como a parede? "Ei, moça, olha esse carinho que sinto por você". Talvez ela não conseguisse ver. "Talvez"? Certamente ela não conseguiria ver. É preciso ter o olho treinado para essas coisas. Lembra que quando era criança recebia da mãe a tarefa de limpar as calçadas. Findo o trabalho, a mãe vinha inspecionar. Era incrível como ela conseguia ver tanta sujeita que a ele passara despercebida. Com o tempo aprendera a limpar melhor, aprendera ver a sujeira que antes deixava para trás. Hoje em dia, não pode ver o chão de seu apartamento sujo sem que sinta um impulso quase incontrolável de limpá-lo. Não sabe se a comparação funcionaria nesse caso. Pode ser que ele mostrasse para ela seu sentimento, mas ela o desprezasse. E daí que há sujeira? Não interesso-me por limpar! Mas será que notar a mesma sujeira que a mãe notara não incluía já perceber uma sujeira que deveria ser limpa? Será que se ela conseguisse ver o mesmo sentimento que ele teve não teria fatalmente que ver algo belo e doce? E para ver a mesma coisa, não teria ela que sentir a mesma coisa? Será que se conseguisse fazê-la ver, seria impossível para ela permanecer impassível ou sentir aversão? Afinal de contas, não sentira algo de indiferente e desprezível. Não foi isso que vira. Lembra-se de um filme em que o ex-namorado maníaco prende e amordaça a pobre moça desesperada. A explicação que ele sempre repetia, algo como: "eu só quero que você veja que eu te amo. A gente foi feito para ficar juntos. Por que você não acredita que eu te amo?" Talvez desesperasse o maníaco o fato de que não viam o mesmo sentimento. Ele via amor puro, ela via loucura. Será que se, em uma situação ideal de comunicação plena, os dois tivessem tido a oportunidade de mostrar um para o outro o que viam eles acabariam encontrando uma experiência comum? Parece que sim, parece impossível que duas pessoas - um dizendo que a parede é totalmente lisa, o outro que é toda áspera - continuem olhando e mostrando (veja aquele canto todo enrugado, passe a mãe e veja como não machuca) um ao outro sua percepção sem que acabem por ver a mesma parede. A não ser que fechem os olhos durante a discussão. Será que se tivessem tempo juntos, situação ideal novamente, a pequena acabaria por convencê-lo que seu carinho e amor não passam de mal-entendidos? Levanta os olhos que havia posto sobre o volante, a vê saindo de uma loja a uns 200 metros e caminhando em direção ao ponto de ônibus. Meudeus que linda! Não que ela tivesse aquela beleza deslumbrante e chamativa que faz todos os homens virar o pescoço. Provavelmente ela não ganharia nenhum concurso de miss Brasil e nem apareceria em nenhum comercial de televisão. A beleza dela era algo mais particular, algo mais único, algo que tinha impressão que só ele via - quanta contradição! Não deveria todo mundo conseguir ver? Não importava. Ele via e a achava mais bela que a miss, mais bela que a moça da televisão. Um tipo de beleza mais profunda, não sabe explicar. Que linda! Agora ela espera no ponto de ônibus. A oportunidade perfeita, até parecia que estava dentro de uma obra de ficção. A vida não tem dessas coincidências... Mas fazer o quê? Ir até lá e oferecer uma carona? Instantaneamente vê com que olhos ela o olharia, como ele apareceria em sua visão. Não se identificava com aquele que a moça veria quando ele se aproximasse dela. Aqueles homens que ficam importunando cada mulher que vêem e tentam criar cantadas baratas: inconvenientes e desprezíveis! Não, não queria aparecer para ela o que realmente não era. Como ser diferente e mostrar-se de verdade? Não era a primeira parte dessa pergunta que aqueles oportunistas baixos sempre se fazem - um modo diferente de surpreender a preza? O ônibus dela chegaria a qualquer momento. Se de algum modo pudesse realmente conversar com ela, se pudesse francamente fazê-la ver ou pelo menos mostrar o que via... O ônibus chega, ela é a quarta ou quinta na fila. O primeiro, o segundo, o terceiro entra. Quantas cantadas importunas a pobre não tem que ouvir todos os dias? Um bando de machos brutos e no cio rodeando a delicada flor. Ela sobe os degraus, a porta se fecha. Ele ainda tem um movimento impulsivo de ligar o carro, seguir o ônibus, ver onde ela desembarcará... Afinal de contas, o que sentiu não era coisa ordinária; precisava fazê-la ver. Mas aí sua mão larga a chave, reclina-se novamente no banco. Ela lhe mostraria com um simples olhar quão absurdo e inconveniente era seu sentimento. De certo modo, ela já o fez. Ele agora olha o ônibus que se afasta cada vez mais. Parece ainda conseguir divisá-la - linda! linda! - lá dentro.

Lido 276 vezes

Mais recentes de Tiago Kondageski

Mais nesta categoria: « Abrigo Amor de Verão »

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.