Segunda, 28 Novembro 2016 23:36

O tenor em dó menor

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Não, doutor, eu não sei e nem vi quem foi. Não, não sei de nada. Sim, eu estava lá. Mas é como se eu não estivera. Doutor, imagine uma garrafa de vodca e mais um tanto assim (uma mão cheia de dedos) de cerva... pois é, doutor, aquele lá poderia ser qualquer um numa garrafa de pinga, mas eu não sei se era eu. Por isso, seu doutor, não sei lhe responder quem foi, não sei se vi, não sei se fui, não sei se cantei. Sim, seu doutor, eu canto. Sou tenor. Não, doutor delegado! Sou um terror apenas quando me convém. Eu sou TE NOR.

Tenor, o cara que tem a voz mais fina no coral. Desculpe, mas eu vou chorar, doutor. Desde que entrei naquele coral é só desgraça que me acontece. Tá bem, doutor, vou parar de chorar. Não, não sei onde estava o regente. Regente, doutor. De orquestra é que se chama maestro. De coral é regente. Não, não vi aonde fora o Pascoal antes da apresentação naquela maldita igreja. Por falar nisso vou lhe confessar aqui, pois ao padre eu não me animo confessar. Na falta de pinga, quase bebi a água benta daquele recipiente que fica na entrada do templo. O restante do coral ia entrando e os católicos se benzendo com a água e eu pensei comigo: vou tomar esta água batizada, vá que dê um barato legal além da meia dúzia que já tomara. Claro, doutor, vou parar de divagar. Vamos lá, o que o Sr. quer saber que eu ainda não lhe contei? Ah sobre o Pascoal? Parece que ele tinha caso com uma das integrantes do Vozes de Cristal. É brega, eu sei, mas esse era o nome do coral. Ah o nome da moça? Irina. Não é urina, doutor. É I RI NA! Escrivão, o doutor é meio surdo? Perdão, doutor, eu tava perguntando as horas pro escrivão. É o que a mulherada dizia e o homirio também, doutor. Se tem gente que acha mulher fofoqueira, homem, doutor, quando sai fofoqueiro, ninguém segura a língua. Como eu ia lhe dizendo, sim corria a boca pequena e a bocarra, também que o caso dos dois começou quando houve uma viagem a um festival de corais em uma cidade que não sei o nome, pois eu ainda não era integrante do Vozes de Cristal. Eta nome brega este coral, seu escrivão. Sim, doutor, o que o senhor perguntou? Ah! Se fazia tempo que eles tinham o caso? Não sei, apenas ouvia os boatos. Mas pelos olhares que eles trocavam enquanto se apresentavam, ainda estavam na lua de mel. Mas convenhamos, doutor, que mal gosto tem aquela moça. Ter um caso com o Pascoal, que tava mais pra papai noel? Mas, como dizem por aí, gosto e cu... cueca, doutor, eu ia falar cueca. Desculpe. Tem algum goró por aqui, doutor? Ah, não pode, tá bem. É que naquela cela a água com gosto de ferrugem não mata a minha sede, doutor. Tá, mas o senhor quer que eu cante? Aqui, sem o resto do coral, sem o Pascoal aquele xexelento para reger? Cantar no sentido figurativo, agora entendi. Mas não quero cantar, nem no figurativo nem no literal. E tem mais, doutor, Pascoal não merecia a Irina. Irina, como o senhor sabe, é nome russo. E parece que a coitadinha vinha de uma região do RS onde tem uma colôniade russos. Dizia ela que era uma terra boa. Boa para produzir russas, o senhor não acha? Desculpa, doutor, não vou mais fugir do assunto. Se eu me apaixonei por Irina? Quem? Eu? Capaz, doutor, apesar de solteirão, eu tinha meus perrengues com algumas “meninas” por aí... sabe como é... uma pinga vai, uma vodca vem e de repente a gente tá trocando copos. Sobre Irina? Bem, como posso dizer... desejar, não desejava, tinha uma vontade louca de tomar uma vodca russa, direto na fonte, vamos dizer assim. Mas tinha o Pascoal no meio. No meio de nós dois, doutor. Aquele projeto de papai noel mal acabado não arredava pé e um dia me pegou cantando a Irina. Não, doutor, cantar com a Irina era o que eu mais fazia. Neste dia eu estava cantando a própria, tentando conhecer o interior de uma garrafa de vodca russa. Mesmo que russa brasileira, para mim era uma russa legítima. E que voz doutor! Não quer saber da voz dela? Tudo bem. Pois é, realmente fiquei meio caidinho por ela. Mas daí a matar o Pascoal? Não, eu não faria isso. Pelo menos que eu me lembre, eu não faria isso. Opa, doutor, ou eu faria? Deixa eu ver: depois que entramos na igreja, que eu me lembre, tentei tomar a água benta e o Pascoal me repreendeu. A Irina achou graça e pediu para ele deixar pra lá. Eu achei que ela tava a fim de mim. O Pascoal notou e me chamou a atenção novamente. Xiii, doutor agora que a desgramada da cachaça tá abandonando os corno, tô me lembrando vagamente que o Pascoal tentou me retirar de forma discreta da igreja, quando percebeu que eu tinha uma Perestroika na cabeça e meia dúzia de litrão a me comandar. Onde ele me deixou? Na sacristia. Foi lá que encontraram o corpo, doutor? O senhor acha que fui eu? E estas imagens que o senhor tá me mostrando, deste padre fugindo que o senhor tá vendo aí no vídeo? Peraí, esse padre bêbado tentando correr é parecido comigo. Como doutor? Sou eu? Maldita modernidade nem em uma igreja um cristão pode passar desapercebido. Irina, tu chegando por aqui! Não, eu não me lembro de ter sampado Nossa Senhora na cabeça do Pascoal. Se eu gosto de ti? Agora não sei mais, se eu gostava, acho que não valeu a pena. Acho que se eu gostasse de ti de verdade, não teria trocado uma verdadeira delícia russa por aquela vodca meia boca que comprei no boteco do alemão. Doutor, vai me processar por homicídio ou por papainoelicídio? Sim, doutor, brincando numa hora dessas. Ferrado, ferrado e meio. Sim, eu sei, tô vendo a Irina chorando e me xingando por ter matado o grande amor da vida dela. Mas e bêbado tem coração? Só se o coração fica localizado dentro de uma garrafa. Sai pra lá, seu advogado incompetente, nem pra defender um bêbado tu presta. Se eu matei, foi por amor, mesmo que inconsciente. Quem mata por amor tem mil anos de perdão. Errei o ditado? Ora, vai te catar. O ditado é meu e eu digo como quiser. Tchau, Irina, bem diziam que coração de bêbado não tem dona. Ai, doutor, tá apertada esta algema. Mas mais apertado está o meu coração, viu Irina? IIRINA, VAI ME VISITAR NO PRESÍDIO! E leva umas branquinhas.

Lido 386 vezes Última modificação em Segunda, 28 Novembro 2016 23:39
Paulo Ismar Mota Florindo

Formado em Ciências Econômicas, especialização em Marketing e Recursos Humanos, participa eventualmente de concursos de contos ou poesia, já tendo sido publicado em antologias. Escreve por hobby e porque gosta de compartilhar seus textos.

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