Quarta, 30 Novembro 2016 16:17

Agorafobia

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Desde criança decidi que seria astronauta. Eu não sonhava em ser astronauta como as outras crianças, eu estava decidido a ser. Enquanto outras crianças brincavam, eu assistia documentários sobre o espaço. Enquanto todos meus amigos liam Harry Potter ou Senhor dos Anéis e discutiam qual era a melhor obra, eu lia Neil de Grasse Tyson, Carl Sagan, Stephen Hawkings... Li tudo que pude sobre a Apollo 11, fui até apaixonado pela Margaret Hamilton durante toda a adolescência e sonhava em encontrar uma garota que amasse o espaço e a ciência tanto quanto eu. Isso só foi acontecer quando estava no terceiro semestre de engenharia aeroespacial no ITA, mas isto não vem ao caso.

Não posso dizer que fui apoiado pelos meus pais, eles tentaram como podiam para me fazer desistir desse curso, eles realmente estavam preocupados pela falta de vagas no Brasil para este segmento, e para eles que o mais longe que foram foi a Bahia trabalhar na NASA era algo impossível, ir para o espaço algo impensável. Além da capacidade de imaginação de alguém que nunca entrou em um avião.

No entanto sem fazer nada além de estudar consegui entrar na AEB (Agência Espacial Brasileira) antes de me formar e depois de atuar cinco anos na mesma já estava trabalhando em seus projetos mais ‘ousados’, como diziam meus colegas de trabalho. Mas meu sonho ia além, e me candidatando para toda e qualquer vaga da NASA, finalmente consegui ingressar na instituição, isto com apenas vinte e quatro anos. Eu disse que eu casei com a Cintia? Aquela garota que conheci no ITA? Enfim, nesta mesma época tivemos nosso primeiro filho, o que foi uma barra para mim e eu não podia perder tempo com isso enquanto batalhava para conquistar meu objetivo.

Trabalhando doze horas por dia, consegui ser a pessoa que subiu mais rápido na agência nos últimos trinta anos, aos vinte e nove anos me candidatei para ser o astronauta da missão mais arriscada já realizada com um humano a bordo. Iriamos para a lua de Saturno examinar os indícios de vida que conseguimos captar com robôs. Desta vez precisávamos de alguém lá. Seis meses de testes e fui selecionado, o primeiro astronauta não estadunidense. Fiquei realmente empolgado até o dia do lançamento da espaçonave, naquele momento senti muito medo. Falei das brigas que tive com Cintia? Ela entrou com os papéis do divórcio, dizendo que ‘eu sempre precisava de espaço’. Ironia do destino a dupla interpretação desta frase na época que irei finalmente sair da zona gravitacional do meu planeta.

Procurei não pensar em nada que não fosse os procedimentos necessários para a viagem durante todo o lançamento, e tudo ocorreu teoricamente bem. Mas sabe, vocês já devem ter pensando como o universo é infinito, não é? Imagine quando você está numa capsula minúscula no meio do nada. Para qualquer lado que eu olhasse havia um nada tão grande. Quer dizer, você via aquelas luzinhas de estrelas, aqueles planetinhas minúsculos, mas tudo mais longe que posso exemplificar. Conversava constantemente com a base, e muitos dispositivos eram barulhentos de propósito, no entanto um silêncio penetrava meu crânio. Um vazio. Era exatamente assim que eu imaginava a morte, um grande nada. Sem gravidade. Sem sensações. Apenas flutuando num nada infinito. Talvez tenha sido esta sensação que procurei a vida toda. Só não sabia eu a sua força. Nada tinha fim. Qualquer lado era infinito. Isso era aterrorizante. Senti a pressão da imensidão como nunca imaginei que sentiria e desmaiei.

Acordei com gritos da equipe que me monitorava na Terra, eu viajava realmente rápido e nosso trajeto era calculado por radar, entretanto uma inesperada colisão entre meteoros aconteceu e a melhor das possibilidades seria que eu atingisse algum de raspão, no entanto eu precisava urgentemente recalcular a rota para retornar a Terra. Claro que o tempo que passei desmaiado esgotou com o tempo extra que eu tinha para fazer isso, eu teria que ser realmente rápido. Vocês já foram realmente rápidos ao acordarem? Eu também não. Quando estava na metade do procedimento para troca de rota bati em cheio em um meteoro que tinha o dobro do tamanho da minha nave e fui arremessado para o espaço. Sem o tubo de oxigênio necessário para sair da nave eu teria algumas hora do reserva. Como vocês imaginam esperar pela morte por asfixia no meio do espaço? Só para lembra-los completamente sozinho e em completo silencio. Eu desmaiei.

Acordei observando meu corpo a uns cinco metros de mim, eu estava imóvel, com os olhos fechados e a boca aberta. Talvez seja uma alucinação eu pensei. Comecei a olhar ao redor e tentar me movimentar para longe dali. Pelos meus cálculos eu podia ir até trinta metros de distância do meu corpo. Senti um pânico maior que qualquer outro: eu estava morto vagando no meio do espaço, preso no meu corpo como um cachorro em uma coleira. Aquela imensidão era mais evidente agora sem nada tapando minha visão. Eu não fazia ideia do que poderia existir em qualquer um dos lados. Para onde eu ia. Em que velocidade eu ia. Tudo parecia nunca mudar. Era tão lento. Tão amplo. Tão aterrorizador. Senti o medo crescer em meu corpo como uma chama.

Evitei muito tempo olhar novamente para o meu corpo. Quando tomei coragem para isto, ele estava igual. Sem oxigênio os vermes não podem come-lo. Estou no processo de mumificação mais caro e lento da história. Sabem por que digo que é o mais lento? Estou aqui a cinquenta anos sozinho. Sinto que me movo, mas não noto grandes diferenças no meu arredor. Tento me concentrar em estrelas ou planetas que brilham mais forte. No entanto o vazio sempre me chama e continuo num estado de ataque de pânico. Ou pior, pois não posso desmaiar e acordar bem. Só sofrer. Sofrer e vagar lentamente pelo infinito.

Nada me excita mais que a ideia dos vermes devorando meu corpo, a sensação de realmente morrer e sair desde estado morto-vivo que me encontro. Será que seria diferente? Como seria? Há algo além? Sem corpo, nos prenderíamos a o que? Fazem cinquenta anos que fantasio com isso. Quer dizer, faziam cinquenta anos quando meu relógio de pulso parou. É né? E você achando sua bateria boa.

Às vezes ouço um chiado como aquele som quando o rádio não está conectado em nenhuma estação ele fica tão alto que sinto uma dor percorrer todo o meu ser e apesar disso me encho de esperança que algo vai acontecer. Até voltar o silêncio e a imensidão deste vazio.

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JF Martignoni

Jean Felipe Martignoni nasceu em Erechim, uma pequena cidade do norte do Rio Grande do Sul, no Brasil. Participou do circulo de musica underground, foi membro de 15 bandas que iam do grunge ao ska, antes de ingressar numa curta carreira como rapper.

Cursou Publicidade e Propaganda pela Universidade de Passo Fundo (UPF), onde se interessou pela elaboração de roteiros para o cinema e pelas ciências que estudam o ser humano: sociologia, mitologia, filosofia e psicanálise.

Nenhuma frase de sua obra foi escrita sem uma música estar tocando ao fundo e ele acredita que essa energia moldou sua obra e pode ser sentida ao ler seus livros.

Idade: 23

Profissão: Escritor

Links: Facebook: @jean.martignoni.9
Twitter: @jeanmartignoni
Instagram: @jeanmartignoni
Phhhoto: jfmartignoni
Livro à venda: http://www.livrariacultura.com.br/p/dahaka-46100037

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1 Comentário

  • Link do comentário Christina Mariz de Lyra Caravello Quarta, 30 Novembro 2016 17:47 postado por Christina Mariz de Lyra Caravello

    Jf, também escrevo e publico no CurtoConto. Vez ou outra, leio os contos quando estão sendo publicados.No dia
    Hoje li o seu. Gostei muito porque prendeu minha atenção e você realmente contou uma história, "com pé e cabeça". Parabéns. Você é um escritor.

    Relatar

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