Domingo, 04 Dezembro 2016 21:02

Agradecimento Tardio

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Visitei a Argentina quando eu era adolescente. Primeira vez pisando terra estrangeira. Assoberbado, carregava certezas típicas da idade, no futebol, torcia ferozmente contra os portenhos. Fazia pior, extrapolava a paixão pelo esporte em preconceito puro contra quem desconhecia.

Confiáveis e acolhedores, assim se revelaram os argentinos na ocasião. E orgulhosos da própria honestidade. Descobri logo de início, argentino típico se orgulha ardorosamente de tudo. Quando diante de uma superioridade externa incontestável, não se curvam, apenas estendem a fronteira do amor próprio.

- Quem é o melhor jogador do mundo?

- Em América do Sul, temos o melhor do mundo!

Dentro da loja cometi deslize, pondo em dúvida a qualidade do produto.

- Esta jaqueta é mesmo de couro?

Palavras afoitas afrontaram a dignidade da moça. Puxou rápido de um isqueiro, falou bastante comprovando o que dizia.

- Isto é legítimo, é produzido aká! Só couro suporta fogo! Em Argentina não temos falsificações!

Consertei a gafe comprando logo o casaco, o preço era bom.

Na hora do almoço, dupla indelicadeza. O garçom todo cerimonioso.

- Se me permite una sugestão, experimente o melhor churrasco del mundo.

- Churrasco eu como em casa, tem alguma novidade nesse cardápio?

O senhor roliço dentro do traje impecável, mesmo golpeado, deu sequência ao trabalho.

- Temos aká um menu repleto de ótimas opções.

O cidadão sentado ao lado puxou conversa.

- Enquanto escolhe su refeição meu jovem, aceite um pequeno agrado deste que vos fala. Quero que leve para Brasil essa boa recordação de mi querida Buenos Aires.

Ao morder o petisco, conheci o verdadeiro churrasco.

Aquele que me agradava partilhando carne e sorriso se apresentou. Em vez da recíproca norteada pela boa educação, minha língua inoportuna soltou nova grosseria.

- Jorge? Não parece nome espanhol!

Hoje homenageio publicamente os argentinos, que atendem bem o turista. Povo culto, inclusive nos brindou com papa ilustre.

Não é só pelo papa Francisco todo o derretimento. Minha felicidade se abastece em outra fonte. Enquanto alinho este texto, o Brasil do Neymar goleia a Argentina do Messi.

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Florentino Augusto Fagundes

Filho e neto de paranaenses, nasceu em Ribeira SP em 7 de fevereiro de 1961. Entre os treze e dezesseis anos trabalhou ajudando seu pai no Mercado Municipal em Curitiba, experiência que lhe rendeu a crônica “O Sabor da Maçã.” Mudou-se em definitivo para Curitiba em julho de 1977. Desde criança inventava estórias, embora não as registrasse. Escreveu alguns contos e uma peça de teatro na década de 80, os quais lhe renderam dois prêmios literários. Ainda nos anos 80 chegou a escrever um romance, que depois destruiu porque considerou horrível. Segundo ele, a editora Record foi generosa ao recusar a publicação relatando polidamente “seu material tem pouca literalidade”.
Daí decidiu investir na carreira e na família. “Só volto a escrever quando for doutor e meus filhos estiverem crescidos”, dizia quando algum amigo lhe cobrava a publicação do tal livro.
Graduou-se em Matemática, cursou especialização em Engenharia da Qualidade, concluiu mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica, tudo isso na Pontifícia Universidade Católica do Paraná PUCPR, onde é professor desde 1995. Além de trabalhar no comércio, foi bancário e empresário. Casado, é pai de um casal de filhos.
Assumiu oficialmente a condição de escritor, ao publicar a crônica “O Crânio” em sua página no Facebook no dia 2 de outubro de 2015.

Link: www.facebook.com/FlorentinoAugustoFagundes

https://www.instagram.com/florentinoaugustofagundes

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